100 anos de samba

Tia Ciata, a Matriarca do Samba

31.10.2016 - 19:30   

Nascida Hilária Batista de Almeida, em 1854, Tia Ciata arregimentava eventos que mesclavam cultura, dança e religiosidade (Foto: Divulgação do Acervo da Organização Cultural Remanescentes de Tia Ciata - ORCT)
 
Mãe de santo, quituteira, empreendedora, partideira e figura ímpar na galeria de ouro do samba. Tia Ciata era tudo isso e muito mais. Nascida Hilária Batista de Almeida, em 1854, em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, ganhou o nome pelo qual ficou conhecida quando foi confirmada no santo, tornando-se então Ciata de Oxum. Aos 22 anos de idade, veio da Bahia para o Rio de Janeiro, em um movimento conhecido como diáspora baiana. No final do século XIX, com a abolição da escravatura no Brasil, um grande contingente de negros baianos se deslocou para o Rio, principalmente para os bairros da Gamboa, Saúde e Santo Cristo, em busca de melhores condições de vida.
 
De acordo com o compositor e escritor Nei Lopes, foi da união das tradições africanas que surgiu o samba: "A Bahia, onde Tia Ciata nasceu, graças principalmente à sua capital Salvador e ao seu Recôncavo, é internacionalmente conhecida pela riqueza de suas tradições africanas, apropriadas como verdadeiros símbolos nacionais brasileiros. O samba nasceu desse amálgama. Indiscutivelmente banto, tendo suas origens bem localizadas entre os atuais territórios de Angola e Congo, ele, no Rio de Janeiro, pelos pés, mãos, quadris e mentes dos migrantes baianos, incorporou elementos nagôs, jejes, mandingas – de outras matrizes africanas, enfim. E os ambientes dessa mistura foram os terreiros e as rodas de samba", explica o compositor e escritor.
 
E, por falar em rodas de samba, as de Tia Ciata eram famosas. Em sua casa na antiga Rua Visconde de Itaúna, número 117, perto da Praça Onze (a rua desapareceu por ocasião das obras para abertura da Avenida Presidente Vargas), aconteciam grandes festas, reverenciando tanto orixás quanto santos católicos, como São Cosme e Damião e Nossa Senhora da Conceição.
 
Nas festas profanas, destacavam-se as rodas de partido alto. Marcavam presença nesses encontros nomes como Pixinguinha, Donga, Heitor dos Prazeres, Sinhô, João da Baiana, Mauro de Almeida, entre outros. Junto àqueles que no futuro seriam consagrados, mas que na época eram apenas jovens músicos, Tia Ciata não deixava a desejar: comandava o partido alto e dançava como ninguém o "miudinho" - uma forma de dançar com os pés juntos que exigia muita destreza. 
 
"A evocação da memória de Tia Ciata, quando celebramos esse marco do samba, reveste-se de grande importância. Da mesma forma que, em todos os rituais da tradição africana, se evocam os ancestrais, aqueles que deram nascimento à toda a riqueza cultural da africanidade recriada no Brasil e nas Américas", compara Nei Lopes.
 
De acordo com a pesquisadora de samba Rachel Valença, do Museu da Imagem e do Som, a história de Tia Ciata mostra que havia uma cultura matriarcal, na qual a mulher tinha o papel de arregimentar as festas culturais, a dança e a religiosidade. "O homem era o provedor, mas a mulher também vendia comida, fora isso, era uma aglutinadora de cultura. A casa de Tia Ciata foi a mais marcante nesse sentido. O samba é o fenômeno mais impressionante do século XX, porque, em 100 anos, ele passou de perseguido a símbolo de uma nação, é uma trajetória muito gloriosa", destaca a especialista.

100 anos de samba

 
Foi nesse ambiente festivo que surgiu um marco da música brasileira, Pelo Telefone, a primeira música identificada como samba, segundo explica Pedro Paulo Malta, pesquisador da Fundação Nacional das Artes (Funarte): "O destaque maior para Tia Ciata se deve ao fato de sua casa ter sido o local de composição da canção, grande sucesso do carnaval de 1917. Como acabou se tornando a primeira música identificada como samba (‘samba carnavalesco') a fazer sucesso, a residência dela foi definida pelo grande pesquisador e radialista Almirante como ‘o local de nascimento do samba'', explica o pesquisador. 
 
A música é atribuída a Donga, mas certa polêmica ronda a história. "O que conta a história é que ela foi composta por Donga, sim, mas juntamente com um grupo grande que participava de uma das festas na casa de Tia Ciata, provavelmente no ano de 1916. Coube a Donga fazer o registro na Biblioteca Nacional (em 27 de novembro de 1916), colocando Pelo telefone como composição sua em parceria com Mauro de Almeida, que era cronista de carnaval", explica Malta. "Com o sucesso imenso que a música fez no carnaval de 1917, os parceiros reclamaram na imprensa, entre eles Sinhô - apelido de José Barbosa da Silva, grande compositor de sambas/maxixes nas décadas de 1910 e 20. Polêmicas à parte, concordo com o jornalista Hugo Sukman, que afirma que o gesto de Donga - de dar ‘certidão de nascimento' ao samba - tem uma dimensão simbólica fundamental dentro da história do samba". 
 
Tia Ciata certamente se surpreenderia com a proporção que o samba, que ela trouxe do Recôncavo com os migrantes baianos, ganhou. "Em sua época, que foi também a de contemporâneas como Tia Presciliana, mãe de João da Baiana; Tia Amélia do Aragão, mãe de Donga; e Tia Fé de Mangueira, entre outras, o samba não existia como gênero. O que se cantava nas rodas eram apenas corinhos acompanhados por palmas, pandeiro e prato-e-faca, com um cavaquinho ou uma viola ocasional. A veterana Ciata certamente chegou a ouvir alguma coisa do samba no rádio. Mas não viu os primeiros desfiles competitivos das escolas de samba, nem a multiplicação do samba radiofônico e teatral em vertentes diversas, como o samba-choro, o samba-de-breque, o samba-enredo", pondera o compositor e escritor.
 
Alessandra de Paula
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura