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Religiões de matriz africana são atacadas

22.9.2015 - 9:30  
Cida Abreu é presidente da Fundação Cultural Palmares (Foto: Lia de Paula/MinC)
 
O conjunto de costumes, valores e tradições do nosso povo, sua identidade construída ao longo de séculos de vivência entre diferentes, é resultado do processo de colonização, organização e formação do território brasileiro. Mesmo com todas as contradições e desigualdades produzidas pelo colonialismo, apresenta- se como síntese, expressa na paisagem, nos modos de vida e nas manifestações culturais.
 
Vivências, histórias e lutas dotaram lugares de espiritualidade e fizeram dos mesmos sagrados, comportando na prática diferentes confissões. Esta diversidade de doutrinas fortaleceu o sentimento identitário dos povos. Ainda que existissem diferenças, belíssimos projetos arquitetônicos coexistiram ( embora houvesse repressão e conflitos) com outras estéticas e formas de relação com os ambientes de resistência.
 
O Brasil, como um país continental, pluriétnico e rico em sua diversidade cultural, tem na religiosidade a fonte de hábitos e expressões culturais. A importância do casamento e da família, leis que limitam liberdades individuais, o calendário, um jeito solidário de ser, as festas populares do nosso povo e a ancestralidade que preserva a tradição reproduzem cotidianamente filosofias oriundas da religiosidade do brasileiro.
 
Desta generosa mistura, regada a muitas contradições sociais, políticas e epistemológicas, origina- se a peculiar forma de ser do brasileiro. Ainda que diante de conflitos e disputas, o convívio ecumênico representou um importante desafio ao bem viver de todos os povos.
 
O que vemos hoje no Brasil e no mundo é um duro golpe à memória de grupos seculares e suas formas de organização social e precisa ser corajosamente enfrentado, haja vista que todo esse acúmulo representa um patrimônio muito caro à História, a qual precisamos defender e resguardar como elemento constituinte da nossa cultura.
 
Os defensores do Estado laico e da liberdade religiosa tiveram uma importante vitória em 1891 na primeira Constituição brasileira, ao separar a Igreja do Estado e superar a proibição de outros cultos ( que não fossem o oficial existente) e conversões forçadas. Em 1988, é conquistada a garantia da preservação e do respeito à livre confissão de fé. Quando no artigo V no paragrafo VI aponta: "É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a sua liturgia".
 
A contribuição afro- brasileira à cultura nacional é ímpar, constituindo um verdadeiro pilar e intensos movimentos de resistência, diante de todo o histórico de embates e da tentativa dos grupos dominantes de suprimir manifestações como o samba e a capoeira. Hoje, de novo a prática religiosa deste grupo é marginalizada e agredida.
 
A intolerância religiosa nos conduz a um único caminho, o do ódio e da violência, de dimensões físicas, mas, sobretudo, simbólicas. Neste momento, os ataques à comunidade religiosa de matriz africana em todo o Brasil são contraditórios com o amor ao próximo e a busca pela paz, mantra de todas as manifestações religiosas no mundo.
 
 
Cida Abreu é presidente da Fundação Cultural Palmares
Artigo publicado no jornal O Globo, desta terça-feira (22)