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"Construir uma pátria leitora é um grande desafio"

30.11.2015 - 17:06  
Juca Ferreira participou da abertura do I Encontro Internacional de Políticas Públicas – Território Leitor (Foto: Lia de Paula/Ascom MinC)
 
 
Leia abaixo discurso do ministro da Cultura, Juca Ferreira, durante cerimônia de abertura do I Encontro Internacional de Políticas Públicas – Território Leitor, nesta segunda-feira (30), em Brasília.
 
Quando o assunto é livro e leitura no Brasil, qualquer um que tenha um mínimo de noção da sua importância para o desenvolvimento de nosso país, ao ver nossos números, e ainda ao compará-los com os de outros países, inclusive com países mais pobres e com condições sociais inferiores, há de ficar preocupado. E, me desculpem a franqueza, envergonhado.
 
Nossa condição leitora é dramática. Ela nos exige uma política arrojada de estímulo à leitura e à formação de leitores. Suponho que isso, por si só, poderá oxigenar o ato da escrita e fortalecer nossa literatura, nossa capacidade de reflexão. O aumento da intimidade com o texto e com o pensamento nele contido é o primeiro passo. 
 
Mais pessoas se estimularão a escrever e a publicar, e mais dinâmica se imprimirá aos mecanismos de distribuição e oferta de suportes para a leitura em grande escala. Temos bons exemplos mundo afora. 
 
Precisamos fazer um esforço nacional com uma grande campanha a exemplo do que fizemos com o Fome Zero e com a antiga campanha de erradicação da saúva. Precisamos mobilizar todo o país. Estamos falando principalmente da escola e da educação desde as mais tenras idades. Estamos falando de bibliotecas como poderosos equipamentos de produção de conhecimento e estímulo à leitura.
 
A leitura e, por extensão, o livro, precisam ser apresentados às novas gerações como fonte de prazer, como deleite estético, como porta aberta para o conhecimento, como possibilidade de construção de subjetividades complexas. Componente essencial para a plena realização da condição humana no século XXI. 
 
Fato é que a grande maioria dos brasileiros de hoje alfabetizou-se tendo como principal forma de informação e formação cultural a televisão aberta. 
 
Constituir uma pátria leitora é também nosso grande desafio. Este é um dos eixos mais fundamentais do nosso Plano Nacional do Livro e Leitura. Se nosso nível de leitura per capita / ano é vergonhosamente baixo, nossas taxas de analfabetismo funcional são dramáticas. 
 
Trata-se, aqui, de desenvolver o gosto pela aventura intelectual, pelo conhecimento e pelo deleite estético. Sabemos que o conceito de livro vem se expandindo de forma radical nas últimas décadas, e esta é uma das grandes conquistas do nosso tempo. 
 
Mas o livro impresso, o nosso livro de papel, tem meio milênio de História. É um dos símbolos mais preciosos da nossa civilização. O livro, para nós, continua a representar nosso contato mais profundo com a palavra escrita, com a cultura acumulada por muitos povos. O livro é uma porta aberta para a aventura intelectual. Ele nos ajuda a construir subjetividades complexas. E é um companheiro de viagem, que às vezes serve de mapa ou de bússola.
 
Quando falamos no livro, entretanto, não falamos somente ou principalmente no objeto. O significado transcendental do livro está no conteúdo a que o objeto livro serve de suporte. Ele é fundamental pelo que nos oferece de informação, pelas possibilidades de sentir prazer pela leitura e pelo que nos possibilita enquanto meio de reflexão, pela possibilidade de nos transportar. Nunca somos a mesma pessoa após a leitura atenta de um livro.
 
O melhor caminho para se chegar ao livro é a curiosidade pelo mundo. Um livro não é caminho de fuga, embora tantas vezes nos ajude a descontrair o espírito. Um livro não é válvula de escape, mesmo quando nos diverte, nos ajuda a passar o tempo de maneira agradável. Mas ninguém pode se refugiar num livro para esquecer o mundo, porque todo livro nos leva de volta a este mundo.
 
Quanto mais brasileiros tenham acesso a livros, principalmente os brasileiros mais jovens, mais estaremos criando ambientes com pessoas de maior densidade intelectual, estimulando um nível mais alto de discussão por meio de opiniões mais sólidas, mais elaboradas e com gostos e ideias melhor constituídas. 
 
A pluralidade de ideias que existem no mundo, expressa nos livros, alarga nossa possibilidade de escolha, possibilita comparações e aprofunda a reflexão, e nos ensina a necessidade e importância de conviver com ideias alheias.
 
Toda a grandeza do mundo, todas as opções civilizatórias e culturais já feitas por agrupamentos humanas, toda experiência acumulada está neles assegurada. 
 
Quem vai aos livros vai em busca de uma compreensão mais profunda das coisas da vida e do mundo.  
 
Os livros são os maiores inimigos dessa onda de preconceitos que hoje se abate sobre o nosso mundo. Toda a variada experiência humana está registrada neles. A leitura crítica dos livros nos possibilita ultrapassar o etnocentrismo, o chauvinismo, o provincianismo e a atitude estreita oriunda da ignorância dos que pretendem nos impor uma única ideia e uma única visão de mundo.  
 
Por fim, devo dizer que tenho mesmo grande expectativa de que este encontro possa fortalecer nosso ideal de constituição de uma pátria leitora, tão grande quanto nosso povo. Bom trabalho a todos…
 
Juca Ferreira
Ministro da Cultura