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Os profetas do Aleijadinho monumentalizam a paisagem

15.12.2015 – 15:59  
 
 
Discurso proferido pelo ministro Juca Ferreira na inauguração do Museu de Congonhas, em 15 de dezembro de 2015
 
Não tenho como não me emocionar com este lugar. Emociono-me ao ver seu estado de conservação. Emociono-me com o que vejo desde a chegada. 
 
Imediatamente me vêm os versos de Oswald de Andrade: "No anfiteatro das montanhas os profetas do Aleijadinho monumentalizam a paisagem". 
 
Emociono-me por saber do tamanho do sonho que neste momento está sendo concretizado. Lembro claramente do desejo do ex-ministro Gilberto Gil. 
 
Sei que sem o empenho da Unesco dificilmente chegaríamos a bom termo. Sei que o prefeito Zelinho tem sido grande parceiro também nas obras do PAC que ora realizamos por aqui. Muito grato. 
 
Por tudo isso, consigo imaginar como emocionada deve estar Jurema Machado, nossa presidente do Iphan. Foram dez anos de perseverança. Era precisamente ela quem estava à frente da área cultural da Unesco na época em que tudo começou, e com muita garra ela se dedicou a esse projeto. A ela devemos a costura de tantas parcerias e articulações necessárias para superar obstáculos nada fáceis. A ela também temos muito a agradecer. E a Patrícia Reis, que a sucedeu na Unesco com a mesma determinação.
 
Não poderia também deixar de mencionar o importante papel que cumpriu nesta empreitada o ex-presidente do Iphan, Luiz Fernando de Almeida, além da competente equipe de museólogos que a este museu se dedicou. 
 
Como se pode ver, esta obra reúne o concurso de muitos apoiadores. Este Museu contou com recursos da lei de incentivo à cultura, com recursos diretos do Iphan, da Prefeitura Municipal, do BNDES, do Banco Santander e da Ferrous.
 
Emociono-me, portanto, porque vi e sei dos esforços e da abnegação daqueles que lutaram para tornar realidade este Museu. Sabemos o que este pedaço de chão significa para a cultura brasileira. Congonhas, aliás, comemora 30 anos do título de patrimônio histórico.
 
Para aqui convergem ideais culturais, pedagógicos e turísticos muito relevantes para nosso país. Além de ser um centro voltado à formação e pesquisa, este Museu é um equipamento cultural que qualifica as visitas à cidade e à região, contextualiza-as quanto a sua história e seus valores e quanto a sua inserção na história da arte mundial.
 
Sobre ele paira a imagem luminosa do Aleijadinho, que foi não apenas um artista de gênio, mas um mestre que dignificou a criação coletiva da arte, e desbravou caminhos estéticos, na arquitetura e na escultura, que ainda hoje são referência para atestar a criatividade do nosso povo.
 
A criação deste Museu representa a criação de uma ponte entre o nosso passado e o nosso futuro.
 
Entre um passado em que fomos uma simples colônia, fornecendo matérias-primas para países mais desenvolvidos; e um futuro que todos sonhamos para o Brasil, o de um Brasil forte, senhor das suas riquezas, um Brasil autor e executante de seu próprio projeto de nação.
 
O ouro das nossas minas e as madeiras das nossas florestas hoje encantam centenas de palácios da Europa, para onde foram levados na época em que éramos apenas uma ideia de nação no espírito sonhador dos nossos Inconfidentes Mineiros.
 
Naquela época de riqueza e ostentação misturada à mais abjeta pobreza, aqueles intelectuais ousaram sonhar um Brasil capaz de pensar por si mesmo, capaz de decidir quando e como suas riquezas naturais serão utilizadas. Sonharam um Brasil capaz de se planejar para a elevação do bem-estar de muitos.
 
Naquele Brasil das minas e do ouro, onde se produziram os primeiros gestos de nossa independência de Portugal, brotou o talento de Antônio Francisco Lisboa, o "Aleijadinho", cuja arte marca de maneira única esta cidade, este Estado, e o nosso país.
 
O Brasil tem milhões de mãos de artistas capazes de produzir beleza. É obrigação moral de nossa geração ajudar esses brasileiros a tornarem-se cidadãos plenos.
 
Num mundo em que ideias religiosas das mais diversas origens têm servido de pretexto para a guerra, a violência e a intolerância, nos faz pensar no significado da Arte Sacra, principalmente a brasileira, no nosso Barroco, e no nosso Rococó.
 
Em uma arte que glorifica o divino em sua expressão humana.  Uma arte que reflete os valores universais da solidariedade e da valorização dos sentimentos fraternos.
 
Pela cultura enxergamos o Brasil, podemos perceber a imensa variedade de maneiras de ser que cultivamos, que cultivamos em paz, com o respeito e o bom-humor de vizinhos que se aceitam e que convivem, sem necessariamente pensarem todos da mesma forma.
 

Veja matéria da inauguração do Museu de Congonhas