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Por uma educação que vá além do mercado de trabalho

01.01.2015 - 19:32  
 
 
Discurso proferido pelo ministro Juca Ferreira no I Seminário Nacional de Formação Artística e Cultural, realizado em Brasília no dia 01 de dezembro de 2015
 
O século XXI está a nos exigir uma radical mudança de mentalidade e comportamento, está a nos demandar uma educação que vá além do mercado de trabalho, que prepare o cidadão para uma vida em sociedade, respeitosa com os diferentes, que o prepare para atitudes sustentáveis em sua relação com o meio e que esteja voltada para o pleno desenvolvimento da condição humana. Não mais podemos ver a cultura e a arte como meros complementos das atividades pedagógicas. Não nos esqueçamos que a política nas sociedades democráticas é, em última instância, uma disputa de sentido e de valores.
 
O ensino da arte, no Brasil ou em qualquer outro lugar, requer uma abordagem diferenciada, uma abordagem aberta. Diferenciada porque ao lidar com a formação de artistas estamos lidando com um universo de intuições, de subjetividades, de valores que nem sempre são fáceis de demonstrar experimentalmente, ou de quantificar, ou de explicar em palavras. E uma abordagem aberta porque neste caso, mais do que em qualquer outro, o educador procura apenas avivar e aperfeiçoar alguma coisa que já existe. 
 
Talento não pode ser conferido de fora para dentro. Nasce com a pessoa, faz parte dela, faz parte do seu modo de conhecer a si próprio e de se situar no mundo. Talento artístico é um modo de ver as coisas, um "olho" capaz de achar ou de criar as formas que precisa para se exprimir. Uma obra de arte é sempre resultado do poder de criação individual, mesmo em artes coletivas como o teatro ou o cinema. Talento e técnica nem sempre aparecem juntos numa mesma pessoa. O talento é trazido pelo futuro artista, a técnica é o mundo quem lhe dá, caso ele consiga ter acesso a esse aprendizado.
 
É papel da educação estimular a criatividade. Todo o trabalho de formação no campo das artes e cultura parte da criatividade já latente nos indivíduos. Se não for para aprimorar a sensibilidade do cidadão a educação perde sua razão de ser.
 
O propósito anunciado deste I Seminário Nacional de Formação Artística e Cultural é a busca da "constituição de uma ampla rede de formação artística e cultural, capaz de articular tanto a rede formal de ensino quanto as diversas escolas livres de arte de todo o Brasil".  Foi feita uma ampla consulta em diferentes áreas e diferentes níveis de ensino, entre escolas técnicas, escolas de arte, universidades e institutos federais. 
 
Precisamos otimizar a grande procura, em nosso país, por carreiras artísticas e por carreiras técnicas relacionadas à arte. Pode ser preciso comparar exemplos e divulgar as soluções mais interessantes, soluções que possam ser compartilhadas com outros. Mais de 400 entidades foram convidadas para aqui se fazerem presentes. Deve haver lacunas a serem preenchidas, carências materiais a serem supridas como nos for possível. O entusiasmo e o amor à arte são grandes em nosso povo. Vamos portanto fazer bom uso desse entusiasmo. Um artista não é para ser bajulado como se fosse um super-herói, e também não é para ser explorado como se fosse um servo. Um artista é apenas alguém que está produzindo uma coisa única mas que encontra ressonância num coletivo. O artista produz melhor quando sente que existe alguém capaz de entender a importância do que ele faz.
 
Aprende-se arte fazendo arte, mas aprende-se também a refletir sobre a arte, a entender suas exigências. O aprendizado artístico, que a rigor dura a vida inteira do artista, é um reexame constante de conceitos, de processos, que vão aos poucos dando gume àquele talento. 
 
Sabemos da importância da figura do professor na vida de todos nós. Todos nós tivemos professores cuja influência foi crucial em algum momento da nossa vida. Quando falamos de professores de arte, estamos juntando cultura com educação, e por isso convidamos para que aqui estivessem secretários de Educação e Cultura de todo o país. 
 
O Brasil já foi chamado, e em alguns momentos com justiça, de desperdiçador de talentos. Mas as nossas artes estão entre as melhores coisas que temos para nos afirmar diante do mundo, tal como o fazemos em alguns esportes. Se conseguirmos dar encaminhamento profissional a metade dos talentos que produzimos, estaremos no lucro.
 
Milhões e milhões de rapazes e de moças se esforçam o ano todo, no Brasil, para se destacar no campo da música, da dança, do teatro, do cinema, da televisão. Ou então são jovens que desejam praticar a pintura, o desenho, a história em quadrinhos, a computação gráfica.  São incontáveis os caminhos da arte numa época em que não apenas surgem novidades tecnológicas extraordinárias, como as formas de arte antigas e milenares continuam a mostrar uma grande vitalidade. Os caminhos são muitos, os talentos também. Ensinar arte é também apresentar uns aos outros.