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Preservar o patrimônio: afirmação de perfil único e espírito comum

28.10.2015 - 20:21
 
Rodrigo Melo Franco de Andrade, escritor, pensador, jornalista, exprime melhor do que qualquer outro o espírito ousado da época em que atuou. Coube a esse modernista que apresentou Oscar Niemeyer a Juscelino Kubitschek coordenar o mergulho em nosso passado colonial, barroco, imperial, para resgatar todo um acervo de bens materiais e imateriais de que o Brasil, em mais um dos seus arrancos desenvolvimentistas, corria o risco de se distanciar.
 
Desde a criação do SPHAN em 1937 (e sua posterior evolução através de siglas sucessivas), a luta pela preservação do nosso patrimônio histórico e artístico sempre esteve mesclada ao impulso criador típico de um país jovem, inquieto, aberto ao diálogo com outras culturas.
 
Rodrigo tinha a consciência de que o país precisava desenvolver o que ele chamou de "invenção bem alicerçada", uma criatividade para a qual o passado servisse de inspiração, não de dogma, e o conhecimento amplo do Brasil antigo abrisse um leque de caminhos para a invenção do Brasil novo.
 
Uma das maiores preocupações de Rodrigo era a disseminação do conceito de patrimônio cultural junto à população brasileira. Tendo diante de si a enorme tarefa de implantar as bases do nosso serviço de proteção ao patrimônio, ele sabia muito bem que, sem a colaboração consciente e bem-informada da população, isto não seria possível. Era preciso cativar as pessoas para essa ideia de Brasil. Era preciso despertar nelas um sentimento de identificação com aquelas obras de arte, aquelas edificações religiosas ou civis, aqueles conjuntos de documentos, aquelas atividades quase invisíveis de tanto que estão impregnadas no dia a dia das comunidades e das pessoas.
 
Essa consciência animou seu trabalho desde o início. E continua a ser, até hoje, uma das principais diretrizes do nosso esforço de preservação.  Nosso passado cultural é de todos – inclusive daqueles que, por desinformação ou por distanciamento, não se sentem como seus proprietários. É preciso expandir por todo o Brasil essa consciência de que temos toda uma História em comum, de que os saberes e os fazeres de brasileiros distantes mantêm uma ligação profunda com a vida de cada um de nós.
 
Quando nos encontramos nesse território do patrimônio coletivo, temos condições de colaborar para um futuro que diga respeito a todos. Um futuro em que cada manifestação cultural de um recanto remoto do Brasil desperte em cada um de nós aquela sensação de reconhecimento, de identificação, de estarmos descobrindo alguma coisa que era nossa há séculos, mesmo que a estejamos vendo agora pela primeira vez.
 
Preservar o patrimônio significa fazer com que cada região, cada grupo cultural, cada segmento ativo na produção da cultura seja capaz de afirmar ao mesmo tempo o seu perfil único e o seu espírito comum a todos. Esse espírito está presente nos oito projetos que hoje recebem a sua premiação. Projetos que apontam para diferentes direções e têm como sede regiões diversas do Brasil.
 
A todos eles o Brasil agradece!
 
Parabéns!