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Um ícone da sociedade justa, generosa e igualitária que queremos

20.11.2015 – 20:21  
 
Discurso pronunciado pelo ministro Juca Ferreira na comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra
 
 
Este momento de celebração aqui na Serra da Barriga é para louvar um dos mais importantes fatos da luta do povo brasileiro pela liberdade e dignidade humana. O Quilombo dos Palmares, o maior de todos, é um ícone da sociedade justa, generosa e igualitária que queremos. 
 
Não podemos nos esquecer de que o escravizado foi o maior inimigo da escravidão, que nunca deixou de buscar subvertê-la nos mínimos gestos da vida cotidiana; desobedecendo, furtando, sabotando, fugindo e até se suicidando, e mais que tudo, demarcando seu espaço cultural; do gestual à culinária, das suas tradições religiosas à musicalidade. E foi assim que ele mais marcou a nossa história, deixando seu próprio DNA na cultura de nosso povo. Não é possível pensar o Brasil sem a contribuição do africano para a nossa formação.
 
O escravizado que fugia, dificilmente tinha meios de retornar para a África. Quase não havia caminho de volta. E, quando voltava, ele não era mais o mesmo nem para os seus.
 
Muito cedo, o escravizado africano, ou já nascido aqui, viu que seu destino não podia mais ser a África. Seu destino era o Brasil. Seu futuro era o Brasil. Já não se tratava de fugir da casa alheia, mas de começar a construir sua própria casa. 
 
O branco europeu vinha de longe, mas vinha para dominar, explorar e impor. O indígena estava acossado, mas pelo menos o terreno em que pisava era seu havia séculos. Já o ex-escravizado não tinha saída senão começar do zero o seu refúgio, a sua fortaleza, o começo de sua jornada em busca da nobreza perdida.
 
O espírito indomável de Zumbi está mesclado à determinação de ser brasileiro. Darcy Ribeiro comentava o modo como o negro, "não sendo índio nativo nem branco reinol", só podia "encontrar sua identidade como brasileiro".
 
Zumbi, além de grande general e grande guerreiro, é um ícone de toda esta epopeia. Por isso, sempre que Zumbi é morto, ele renasce, se transforma, e assim permanece em nós. Símbolo de uma luta.
 
Lamentavelmente ainda existem tensões muitos fortes na nossa sociedade, erros estruturais, disputas por espaço, desequilíbrios de poder. 
 
Fato é que ainda hoje os afrodescendentes demandam por uma cidadania plena, por direitos civis e acesso às instituições que ajudaram a criar. Lamentavelmente ainda não conseguimos apagar as marcas da escravidão, elas continuam impregnando nossas relações sociais, naturalizadas em nossa cultura. Joaquim Nabuco estava certo quando nos disse que elas permaneceriam em nós por ainda mais de século. Os fenômenos culturais têm a força de se fixar em nossas relações sociais de maneira muito sutil e subliminar. Isso é fácil de constatar em nosso cotidiano, em nossa maneira de ser e de nos organizarmos em sociedade. Estas marcas se naturalizam culturalmente entre nós. Pela manutenção de hábitos, valores e costumes. 
 
Muitos países lutam hoje para se verem livres de guerras que destroem vidas humanas, abatem culturas inteiras. Outros países, como o nosso, se esforçam para manter a paz, investem na importância da paz para a organização das convivências e solução de conflitos.
 
Somos afortunados porque vemos na Cultura tudo que nos une e nos aproxima, ao invés de nos isolar uns dos outros. Cultura é por definição uma expansão, em todas as direções, das mil e uma formas de manifestação do que somos: individual, coletiva, organizada, espontânea, sagrada, profana, material, imaterial. Das nossas crenças, dos nossos objetivos, dos nossos desejos. De tudo aquilo que queremos que surja no mundo, e que nos impele a criar.
 
Eliminar as marcas da escravidão é nossa luta mais atual. O espírito de Zumbi é hoje um dos esteios de nossa consciência como nação, de tudo que aconteceu para que pudéssemos estar aqui, do jeito que estamos juntos hoje. É um símbolo de nobreza, de integridade, de não se deixar macular nem abater.