Oficinas Nós na Tela
As oficinas são importantes e necessárias porque promovem o intercâmbio de idéias, e ainda proporcionam a oportunidade de conhecer pessoas e projetos com focos e soluções diferentes.
José Luís de Freitas (Diadema/SP)
“Agradecemos o cinema
Pelos franceses inventados
Lumiére Louise August
Depois modernizado
Por Thomas Alva Edison
Foi americanizado”
Esse verso do cordel “A Glória do cinema cabe a quem?” relata a necessidade permanente que Miguel Batista possui em dedicar seu tempo, e parte dos pensamentos e estudos, com a improvável função, que ainda exerce, de pedreiro.
Esse homem pouco ou quase nunca é reconhecido pelo trabalho independente interessante que tem desenvolvido no audiovisual, ora por ser desconhecido, ora por preconceito ou simplesmente por falta de fé de quem vê um barbudo com roupas simples afirmando que é cineasta.
Miguel possui um sotaque carregado, que nada lembro os diretores consagrados do cinema paulista ou carioca. Ele aprendeu e estuda idiomas sozinho, fala fluentemente espanhol e esperanto, e criou até um alfabeto e idioma próprio, que batizou de Juusmantes, além de um dialeto chamado Cearamanta, mistura de tupi com português.
Em sua casa é possível encontrar livros em inglês, romeno, italiano, tupi-guarani, guarani, papiamento (soma de holandês, espanhol e criolo), alemão, francês, latim e sânscrito.
Um pedreiro na terceira idade, de baixa renda, pagante de aluguel, enfrenta todas as dificuldades que o exercício artístico impõe. Ele desiste? Não, pelo contrário. Com talento e bom humor, ele encara a realidade e permanece estudando idiomas, escrevendo e pensando em como realizar novos projetos audiovisuais que colaboram para valorizar a cultura do país, reconstruindo a cada dia novas imagens de sua vida e da comunidade onde atua e compartilha suas idéias.
Fotografia, edição e direção:
José Luís de Freitas
Produção:
Miguel Batista
Trilha Sonora:
Banda Poucas Trancas – www.poucastrancas.com.br
Assistente de Produção:
Pedro Rogério Silva
Equipe de Apoio:
Antonio Osório de Monteiro, Fabiana Souza Ferreira, Gracimira Gomes de Freitas
Realização:
Secretarias de Articulação Institucional e Audiovisual do Ministério da Cultura,
Abccom – Associação Brasileira de Canais Comunitários e Sociedade Amigos da Cinemateca Brasileira
Um pedreiro barbudo e de sorriso amigavelmente peculiar possui uma trajetória de vida dificilmente encontrada naqueles que exercem essa profissão. Os calos nas mãos de Miguel Batista dos Santos, 62 anos, não revelam que elas, além de erguer paredes, reformar e construir casas também operam câmeras, escrevem roteiros, versos e livros. O cineasta da construção já possui em seu currículo mais de 15 filmes onde atuou como figurante, ator, câmera e até diretor.
Sua escrita tem influência dos cordéis que ouvia em Limoeiro do Norte, no Ceará, onde viveu até os 25 anos. Até hoje ele mantêm o hábito de confeccionar cordéis de bolso, contendo dez páginas que trazem textos com assuntos históricos, filosóficos, sociais e religiosos, revelando a erudição ocultada por sua aparência de pedreiro.
Miguel, apesar de possuir apenas o ensino médio, é um esforçado autodidata e fala, além do português, esperanto, espanhol e francês. Também escreveu vários livros e conseguiu publicar dois deles: ‘Gazuza’ e ‘Sucata Gente’. Compôs a letra da trilha sonora de ‘Cinema Dilacerado’, um dos seus filmes, e possui mais de 300 escritos poéticos que tratam geralmente de temas sociais e questionam o poder dos governantes, a hipocrisia dos falsos moralistas e os costumes preconceituosos da elite dominante.
Seu interesse pelo cinema começou a partir de um convite: “Um dia, um rapaz, o José, me convidou para participar do curta-metragem ‘Sobreviver’, que conta a historia dos nordestinos da cidade. Eu topei e, depois disso, comecei a fazer vários cursos na área. Hoje, sou ator e diretor”, revela.
Com orgulho e alegria apresenta algumas predileções: “Os filmes que mais gosto são: ‘Pisadas Marcantes’, com o qual ganhei o prêmio, em parceria com o colega Arnaldo Malta, ‘Kruzmanta’, ‘Sobreviver’ e ‘A Mulher e a Flor’.
Na maioria das vezes seus clientes custam a acreditar que Miguel faz cinema: “Alguns pensam que sou louco. Dizem: esse cara, todo sujo, cheio de lama, pensa que é cineasta, mas como é possível ser cineasta e pedreiro? A maioria acredita, porque levo filmes em DVD para assistirem”.
Uma prima sua que mora na Bahia veio visitá-lo depois que mandou alguns dos filmes que produziu, só para conhecer o primo que faz cinema em São Paulo.
Miguel trabalha como pedreiro há mais de 30 anos, desde que saiu de sua cidade: “antes, fui carpinteiro no Pará e guarda noturno no Rio. A profissão ajuda a fazer cinema porque, como autônomo, me acerto nos horários. Às vezes, digo que meu hobby é ser pedreiro, mas não é verdade. Sobrevivo disso”, completa rindo.
Quando pergunto a Miguel se já conseguiu algum retorno financeiro com cinema ele demora um pouco a responder, mas fala sorrindo “tiro do bolso para conseguir gravar. É difícil fazer cinema independente no Brasil. Por enquanto, os filmes só aparecem no circuito de cineclubes, mas quem sabe dá para ir um pouco além. Continuo ganhando a vida mesmo como pedreiro”.
As oficinas são importantes e necessárias porque promovem o intercâmbio de idéias, e ainda proporcionam a oportunidade de conhecer pessoas e projetos com focos e soluções diferentes.





