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Cinemateca busca aprimorar ações de conservação, digitalização e acesso de seu acervo: entrevista com Olga Futemma

 
 
20.6.2017 - 14:20  
"Outro grande desafio que precisamos enfrentar se refere à formação de profissionais no campo da preservação audiovisual. Sem novos agentes capazes de definir estratégias, de priorizar ações, de cuidar do legado sem prejuízo da necessária inovação, a própria ideia de Cinemateca dificilmente terá chance de continuar por outros 70 anos" (Foto: Carlos Villalba)
 
 
A Cinemateca Brasileira, vinculada à Secretaria do Audiovisual (SaV) do Ministério da Cultura (MinC), é o principal centro de memória e referência do cinema brasileiro. Em 2017, a instituição completa 71 anos com novos projetos de preservação de acervo e com a ampliação do número de técnicos, que poderão aprimorar ações de conservação, catalogação, duplicação e digitalização de materiais. 
 
Em entrevista ao site do MinC, a coordenadora-geral da Cinemateca Brasileira, Olga Futemma, aborda os desafios e o planejamento da instituição para 2017. Um deles é projeto de Preservação Emergencial, já aprovado pelo Comitê Gestor do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). "O plano será fundamental para a análise qualificada das obras audiovisuais que estão na instituição. Com ele, será possível realizar a duplicação de obras nacionais sob risco de perda definitiva e acentuar a salvaguarda do maior acervo audiovisual da América do Sul", destacou.
 
Com um acervo de mais de 240 mil rolos de filmes e cerca de um milhão de documentos relacionados ao audiovisual, a Cinemateca Brasileira planeja executar outros projetos, como o de resgate dos cinejornais e das telerreportagens que fazem parte da instituição. A iniciativa, promovida em parceria com a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), irá disponibilizar as coleções do Cine Jornal Informativo (1946-1954) e das telerreportagens exibidas na TV Tupi entre 1950 e 1968.
 
Leia, abaixo, a íntegra da entrevista:
 
Quais são as prioridades da Cinemateca para 2017?
 
O Plano de Ação para 2017 está centrado no Projeto de Preservação e Difusão de Acervos Audiovisuais, firmado por contrato entre o MinC e a Associação de Comunicação Educativa Roquete Pinto (Acerp). Esse projeto contempla as principais ações de conservação, catalogação, duplicação e digitalização de materiais (fílmicos e não fílmicos) integrantes do acervo da Cinemateca. Além dessas ações, também estão previstas no escopo do projeto a realização de curso de formação técnica, a elaboração de publicações e a disponibilização de conteúdos na internet para acesso público, garantindo uma maior aproximação com a comunidade beneficiada (depositantes, produtores, estudantes, pesquisadores e cinéfilos, entre outros). Outro foco, é claro, são as atividades de difusão audiovisual, por meio de programações mensais nas salas de exibição da Cinemateca ou por meio da colaboração com outras instituições culturais.
 
O Plano para 2017 contempla ainda iniciativas complementares, como projetos apresentados a instituições de fomento à pesquisa, parcerias com a Sociedade Amigos da Cinemateca voltadas a ações de difusão, o desenvolvimento do projeto de Preservação Emergencial, que será financiado pelo Fundo Setorial do Audiovisual, e a continuidade da parceria com a Agência Nacional do Cinema (Ancine) em três eixos: depósito legal, preservação documental e monitoramento dos canais de acesso condicionado. 
 
Por fim, outra prioridade para 2017 é continuidade do debate, dos estudos e da estruturação da Cinemateca para ser gerida pela Acerp, organização social vencedora do edital de seleção que realizamos em 2016.
 
Qual é o acervo da Cinemateca? Pode citar alguns dos filmes mais expressivos que compõem o acervo?
 
Organizado em depósitos, o acervo audiovisual conta hoje com cerca de 240 mil rolos de filmes e grande quantidade de materiais em vídeo de diversos formatos, além de cerca de um milhão de documentos relativos ao campo do audiovisual, entre livros, roteiros, periódicos, recortes de imprensa, documentos referentes a arquivos pessoais e institucionais, cartazes, fotografias e desenhos. Poderíamos resumir os três tesouros da Cinemateca em acervo, quadro de profissionais e instalações (parque tecnológico). É difícil pinçar do nosso precioso conjunto os filmes mais expressivos, mas por uma questão de prova viva da longa permanência que se pode esperar de uma obra, desde que observadas as condições de guarda e a presteza de intervenções laboratoriais, eu citaria Os óculos do vovô, um curta-metragem filmado por Francisco Santos, em Pelotas, em 1913.
 
No ano passado, houve um incêndio em um dos galpões da Cinemateca. O que foi perdido? Como está o processo de recuperação dos acervos danificados?
 
No dia 3 de fevereiro de 2016, uma das quatro câmaras de filmes em nitrato de celulose se incendiou. A perda foi de mil rolos, que é a quantidade abrigada em cada uma das câmaras de armazenamento. Ainda que tenha sido uma ocorrência dolorosa, no balanço realizado após o incêndio constatou-se que mais de 60% dos rolos já haviam sido duplicados ao longo da história da Cinemateca – estando, portanto, fora do depósito que é exclusivamente para nitratos. Outra constatação que nos trouxe alívio foi a de que o projeto construtivo do referido depósito, datado dos anos de 1990, resistiu ao fogo. Foi possível salvar todos os rolos das outras três câmaras, ou seja, o fogo ficou retido na câmara três. Se assim não fosse, poderíamos ter enfrentado a perda de 4 mil materiais.
 
Também é importante ressaltar que reagimos rapidamente ao incêndio, com orientação do Corpo de Bombeiros, de funcionários, ex-funcionários e amigos da instituição que acorreram naquela madrugada para ajudar a salvar os materiais ainda vulneráveis pela proximidade ao fogo. Foi muito importante a solidariedade da sociedade. Essa dimensão pode parecer deslocada, mas é de fundamental importância, pois sabemos que a memória que permanece é aquela pela qual a sociedade luta. Mais uma vez, foi provado que o acervo e as atividades da Cinemateca importam.
 
E como fazer para evitar novas ocorrências, no caso específico de nitratos? 
 
Há três ordens de providências. A primeira se refere ao manuseio, ao monitoramento e a operações de análise constante do estado técnico dos materiais, visto que os materiais em nitrato podem se incendiar por autocombustão na conjugação infeliz de acúmulo de gases provocado pela deterioração e de algum fator externo, quase sempre alta temperatura. Ações rápidas de duplicação, nos casos em que se avalia o declínio dos materiais, são uma segunda etapa e, por último, a construção de um novo depósito ou remodelagem do depósito atual, de tal modo a provê-lo de tecnologias de segurança e de combate ao fogo.
 
No ano passado, após o incêndio, a Cinemateca conseguiu realizar uma reforma na atual edificação dos nitratos, de modo que os 3 mil rolos remanescentes puderam voltar ao local de origem. E, por meio de um contrato firmado também com a Acerp, após exame intensivo de cada rolo e a duplicação emergencial de muitos metros de películas, foi possível garantir a permanência dos conteúdos em risco, em outros suportes.
 
Neste ano, a Cinemateca completa 71 anos de existência, sendo o principal centro de memória e referência do cinema brasileiro. Quais são os desafios para manter o acervo e a estrutura?
 
Sim, a Cinemateca Brasileira é uma jovem senhora de 71 anos. Seus desafios são inúmeros, em todas as frentes que já mencionei anteriormente. O advento da tecnologia digital que, por um lado, facilita muito o acesso, de outro, carrega problemas ainda não resolvidos no campo da preservação. Qual instituição pública terá os recursos necessários para migrações periódicas de seu acervo digital? Pois a volatilidade dos componentes dessa tecnologia exige essa atenção e requer uma atualização constante, o que supõe um orçamento disponível, sob pena da perda súbita e total de conteúdos nascidos digitais ou finalizados digitalmente.
 
Do ponto de vista físico, temos que impedir a associação de filmes em nitrato de celulose com o risco de autocombustão; de filmes em triacetato de celulose com a ameaça da morte lenta e silenciosa pela síndrome do vinagre, que é quando o filme libera ácido acético ou vinagre e essa substância acelera a decomposição da base soltando mais vinagre, em um círculo vicioso de autodestruição; de materiais digitais com a obsolescência de seus dispositivos; e de documentação em papel com a fragilidade diante de condições adversas, como umidade, poeira e altas temperaturas. 
 
Outro grande desafio que precisamos enfrentar se refere à formação de profissionais no campo da preservação audiovisual. Sem novos agentes capazes de definir estratégias, de priorizar ações, de cuidar do legado sem prejuízo da necessária inovação, a própria ideia de Cinemateca dificilmente terá chance de continuar por outros 70 anos.
 
Em que consiste o projeto Preservação Emergencial?
 
O projeto, encaminhados por nós à Secretaria do Audiovisual, consiste em promover a análise ampla e qualificada das obras audiovisuais depositadas na Cinemateca Brasileira, realizar a duplicação de materiais referentes a cerca de 250 obras audiovisuais nacionais sob risco de perda definitiva, acentuar a salvaguarda do maior acervo audiovisual da América do Sul, sob a responsabilidade da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, promover ações que garantam o acesso público qualificado à coleção audiovisual sob a guarda da Cinemateca e resgatar obras nacionais fora de circulação para exibições públicas ou iniciativas culturais do Ministério da Cultura. O projeto foi aprovado na última reunião do Comitê Gestor do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). 
 
Recentemente, houve a renovação do contrato do corpo técnico da instituição, ampliando o quadro de 13 para 43 técnicos. O que isso representa efetivamente? Em quais áreas da Cinemateca esses profissionais atuam?
 
Em meados de abril, foi assinado um Contrato de Prestação de Serviços entre o MinC e a Acerp para 2017, que possibilitará uma ampliação do quadro de técnicos da Cinemateca. Estamos modelando, junto com a SAv e a Acerp, o quadro de profissionais e de estagiários para a jornada de 2017. 
 
Em quais outros projetos a Cinemateca está engajada?
 
Já tivemos oportunidade de encaminhar alguns projetos para estudo de viabilização por parte da Secretaria do Audiovisual. Um deles, de alta prioridade, refere-se à obtenção do Auto de Vistoria de Segurança para a Cinemateca.
 
Outro, com coordenação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, intitulado Cinema, história e cultura audiovisual: o lugar do cinejornal e das telerreportagens na construção da memória e da cultura audiovisual no século XX, tem por objetivo trabalhar com o rico acervo de cinejornais e telerreportagens depositados na Cinemateca Brasileira, de modo a atender às demandas referentes ao estudo histórico-teórico, à preservação de acervo e à disponibilização social da produção audiovisual, tanto do ponto de vista dos materiais audiovisuais, por meio do portal Banco de Conteúdos Culturais, quanto do banco de dados e dos trabalhos científicos realizados. 
 
Esse projeto é composto pelas coleções depositadas na Cinemateca Brasileira: o Cine Jornal Informativo (1946-1954) e as telerreportagens exibidas na TV Tupi entre 1950 e 1968. Pretendemos submeter o projeto à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para obtenção de recursos.
 
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura
Foto no destaque do site: Janine Moraes/Ascom MinC