“Museus devem enfrentar silêncios construídos nos discursos tradicionais"

 
 
18.5.2017 - 16:00  
"O Ibram tem um duplo papel: o de gestão de 30 unidades museológicas presentes em nove estados brasileiros e, ao mesmo tempo, o de agente executivo do Sistema Brasileiro de Museus" (Foto: Acácio Pinheiro/Ascom MinC)
 
 
Instigar os museus a construir narrativas não apenas a partir das versões oficiais de grupos dominantes, mas também de outras vozes e visões dos processos históricos, é o desafio proposto pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), órgão vinculado ao Ministério da Cultura (MinC), na 15ª Semana de Museus. 
 
Realizada anualmente na semana em que se comemora o Dia Internacional dos Museus (18/5), a Semana de Museus deste ano está sendo realizada de 15 a 21 de maio. O tema, Museus e histórias controversas: dizer o indizível em museus, está sendo trabalhado em mais de 3 mil atividades diversificadas pelos 1.070 museus inscritos, de 485 municípios do País.
 
"Os museus devem enfrentar essas lacunas e silêncios construídos nos discursos tradicionais ao longo dos últimos séculos e que acabaram por privilegiar os testemunhos materiais de determinados grupos ou classes dominantes", afirma o presidente do Ibram, Marcelo Araujo, nesta entrevista concedida ao Portal do MinC, na qual reflete sobre a complexidade do tema da edição de 2017 da Semana e a relevância de se ter uma instituição exclusiva para a definição da política pública de museus.
 
"O confronto, mesmo que seja com a ausência, desde que ela esteja evidenciada, apresenta um poder comunicacional, gerando o desafio de encontrar caminhos de superação", esclarece Araujo. "Felizmente, hoje em dia, temos grande possibilidade de resgatar os testemunhos que não estão presentes nos acervos, mas que podem ser buscados e apresentados também como estratégias comunicacionais ao trabalhar com a ausência", destaca.
 
Museólogo de formação, Araujo é servidor de carreira do Ibram, do qual assumiu a presidência em junho passado. Iniciou a carreira profissional no início da década de 1980 no Museu Lasar Segall, que foi federalizado em 1984. Antes de assumir o órgão nacional de museus, ele foi cedido ao governo do estado de São Paulo, tenho atuado como secretário de Cultura, de 2012 a 2016 e, durante 10 anos, como diretor da Pinacoteca do estado.
 
Confira a entrevista:
 
Em pleno século XXI, muitas pessoas acreditam que os museus são espaços fechados com objetos antigos e obsoletos, que não conversam com os costumes contemporâneos. Nesse cenário, como explicar a importância dos museus?
Eu acredito que os museus, nas últimas décadas, têm conseguido superar esse paradigma, essa visão equivocada e ultrapassada para se transformarem em instituições dinâmicas, com papel determinante no cenário contemporâneo. Isso é resultado de um processo longo, principalmente do desenvolvimento da museologia como uma disciplina que se ocupa dessa relação e que vem dando aos profissionais dos museus um arcabouço conceitual e teórico para, justamente, posicionarem os museus como instrumentos de desenvolvimento. As instituições devem procurar, e já estão procurando, um espaço nas relações contemporâneas como construtoras de memórias e tendo como partida uma interlocução ativa com as comunidades onde estão inseridas. Prova disso é o aumento das visitações a museus nos últimos anos. Assim, busca-se o desencadeamento de processo de valorização do patrimônio local e de exploração desse potencial para a construção de uma sociedade mais igualitária e justa, sendo esse o nosso compromisso social. 
 
Como foi definido o tema da 15ª Semana de Museus: Museus e histórias controversas: dizer o indizível em museus? Como instigar as instituições a construírem outros discursos museológicos a partir da reflexão entre as versões oficiais de certos grupos dominantes e as demais histórias que, em algum momento histórico, deixaram de ser ditas?
Esse é o grande desafio dos museus. O tema foi definido pelo Icomos [organismo internacional associado à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - Unesco], ou seja, é um fenômeno mundial de novo posicionamento dos museus em meio à sociedade contemporânea. Em um primeiro momento, é uma evidência da consciência que os museus têm, muito clara, de seus desafios. Não há possibilidade de resolver uma questão se, antes, não houver sua identificação. Os museus devem enfrentar essas lacunas e silêncios construídos nos discursos tradicionais ao longo dos últimos séculos e que acabaram por privilegiar os testemunhos materiais de determinados grupos ou classes dominantes e buscar reverter essa situação com a proposição de narrativas que, igualmente, deem espaço para outras vozes e outra visão dos processos históricos. Felizmente, hoje em dia, temos grande possibilidade de resgatar os testemunhos que não estão presentes nos acervos, mas que podem ser buscados e apresentados também como estratégias comunicacionais ao trabalhar com a ausência. No caso dos museus, estamos falando de uma linguagem que se articula por meio de objetos, que é a essência da sua natureza museológica. Assim, quando se tem um objeto testemunho de uma determinada visão e, ao seu lado, é apresentado outro, que traz um confronto em termo de ideias, há uma riqueza muito grande. O confronto, mesmo que seja com a ausência, desde que ela esteja evidenciada, apresenta um poder comunicacional, gerando o desafio de poder encontrar caminhos de superação com a construção de outras relações para se posicionar de outra maneira dentro do âmbito da sociedade brasileira. 
 
Como as atividades especiais desta semana podem apresentar esse confronto?
Fico muito satisfeito de a Semana dos Museus deste ano ter tido uma adesão muito grande. Este é o momento privilegiado para os espaços buscarem dar visibilidade para seu papel central na sociedade. São mais de mil instituições que se comprometeram com o desafio. É impositivo que os processos sejam discutidos, pois muitas vezes esses testemunhos ou peças foram resultados de glorificação, mitificação, fetichização ou criados para que pudessem dar suporte a um determinado discurso histórico. Não se trata de negar a origem das peças, mas de reconhecer que elas são resultado dessas narrativas específicas e que, no atual contexto, possam ser assumidas no discurso com o público para que se possa avançar na conscientização do processo histórico. 
 
Além de organizar a Semana dos Museus, qual o papel do Ibram? 
O Ibram tem um duplo papel: o de gestão de 30 unidades museológicas presentes em nove estados brasileiros e, ao mesmo tempo, o de agente executivo do Sistema Brasileiro de Museus. A gestão direta constitui uma parcela importantíssima das instituições museológicas brasileiras, reunindo acervos dos mais destacados em termos de testemunho do patrimônio cultural brasileiro em diversas áreas. Vão desde museus centenários com referência nacional e internacional – como os museus Histórico Nacional, da Inconfidência, Imperial – até unidades em cidades menores, que respondem por grande riqueza histórica. A gestão desses museus se dá a partir do orçamento recebido do Ministério da Cultura, que busca responder pelas necessidades operacionais e equipes técnicas. Para permitir a consolidação e assegurar a continuidade das atividades, em meio à crise que impacta todos os setores do País, ainda orientamos aos diretores dos museus a buscar recursos de outras fontes. Como estratégia mais comum, há a parceria com associações de amigos que trazem colaborações e contribuições muito significativas aos museus, seja por meio de projetos apresentados via leis de incentivo à cultura, como a Lei Rouanet, seja por meio de doações diretas. 
 
E qual a atuação do Ibram frente às demais instituições do País?
O outro papel do Instituto atende a um universo de mais de 3 mil museus existentes no Brasil num relevante universo de riqueza de acervo e de modelos de instituições, como órgão de formulação de diretrizes políticas e técnicas, além de fomento e apoio à formação e à capacitação. A responsabilidade do Ibram ainda é de defesa dos objetivos do setor e representação do cenário museológico brasileiro nos âmbitos dos demais Poderes e organismos internacionais. Temos, no Brasil, uma situação privilegiada de uma estrutura jurídico-administrativa que reúne uma série de instrumentos legais, configurando um sistema adequado para o exercício dessa função do Ibram. Em 2015, por exemplo, a Unesco aprovou uma recomendação sobre o papel dos museus e suas coleções em um processo de desenvolvimento que se quer cada vez mais sustentável, sendo resultado de uma iniciativa brasileira, do Ibram, que apresentou proposta e trabalhou arduamente para a sua aprovação. É uma nova visão importantíssima do órgão internacional de Cultura, que não publicava um documento deste porte sobre museus desde a década de 1960. As diretrizes da recomendação serão discutidas a fundo no 7º Fórum Nacional de Museus, a ser realizado no fim do mês, em Porto Alegre (RS), para termos uma avaliação clara de como o nosso conjunto de diplomas legais responde às recomendações elencadas pela Unesco.
 
 
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Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura