Ceará tomba a casa de Antonio Conselheiro


Jotabê Medeiros, estadao.com.br, 09/01/2006


Quixeramobim - Opositor do coronelismo nordestino, artífice de uma nova organização social, inimigo das relações escravagistas de trabalho, da violência dos poderosos contra os humildes, da ignorância da maioria. Essas qualidades, relacionadas no estudo de tombamento da Coordenadoria de Patrimônio Histórico Cultural do Estado do Ceará, são atribuídas a Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro (1830-1897). A saga de Conselheiro, abordada num dos maiores clássicos da literatura brasileira, Os Sertões, de Euclides da Cunha, alimenta há um século a cultura nacional.

Conselheiro nasceu e viveu até os 27 anos numa modesta casa em Quixeramobim e o governo do Ceará resolveu tombar nesta cidade a residência do líder religioso - andarilho modesto que enfrentou o poderoso exército republicano em Canudos, na Bahia, no final do século 19, à frente de sua comunidade devota instalada nas 5,2 mil residências da vila de Belo Monte.

Para formalizar o tombamento da casa do Conselheiro, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, e a secretária de Estado da Cultura do Ceará, Cláudia Sousa Leitão, reúnem-se quarta-feira em Quixeramobim, sacramentando essa regeneração histórica do personagem. Um representante do governo do PT e uma representante do governo do PSDB, inimigos políticos declarados, fazem ligeiro armistício sob a bandeira do Conselheiro - outrora apenas um beato louco cercado de jagunços que teria tentado abalar os alicerces do Brasil civilizado, na versão oficial.

"O tombamento estadual faz uma homenagem à história nacional e valoriza a trajetória de um dos personagens mais significativos dos nossos movimentos sociais", diz a secretária Cláudia Leitão. A casa em Quixeramobim onde viveu o líder sertanejo servia ao mesmo tempo de comércio e morada. É construção modesta, típica das cidades do interior cearense, situada na atual Rua Cônego Aureliano Mota, nº 210 (antiga Rua Santo Antonio), próximo à Praça Dias Ferreira. Possui cinco portas frontais e armação de loja e balcão. A família Maciel a vendeu por 2.223 mil réis para salvar dívidas contraídas por Vicente Mendes Maciel, pai de Antônio Conselheiro.

A casa, após o tombamento, será transformada no Memorial do Sertão Cearense, espaço para eventos, exposições, palestras, e também local de pesquisa e estudos. Até 1949, a casa se manteve quase com a arquitetura original, mas o proprietário nos anos seguintes fez modificações. Em 1953, escondeu o telhado feito de telha de barro artesanal, mas fotos tiradas pela revista "O Cruzeiro", em 1952, permitiram a renovação do prédio tal como ele era.

Folclore - Em Quixeramobim, a casa do Conselheiro tornou-se, com o passar dos anos, palco de histórias de assombração. Conta-se que abriga almas de outro mundo e esconde tesouros enterrados em vasos de barro, histórias que se incorporaram ao folclore local. Atualmente, a casa encontra-se em razoável estado de conservação, segundo o órgão do Patrimônio Histórico. Há uma ameaça de queda do oitão da fachada leste, atualmente escorado por viga de ferro transversal, mas a secretaria prevê imediata recuperação da estrutura.

Há alguns anos, o diretor José Celso Martinez Corrêa começou a contar em cinco partes a sua versão da saga de "Os Sertões", mostrando o nascimento de Antonio Mendes Maciel em Quixeramobim, em meio a uma guerra entre as famílias Maciel e Araújo.

O pai do Conselheiro educa o filho em Quixeramobim, com rigidez. "Ele quer que o filho escape ao destino trágico da família envolvida nessa disputa feudal", disse o dramaturgo José Celso Martinez Corrêa, que crê que a história dos Sertões - a da criminalização dos excluídos - se repete continuamente. Após a morte do pai, Conselheiro se casa com uma mulher que o trai o tempo todo.

A cada traição ele muda de cidade, evitando matá-la e ao amante, como manda a lei do sertão. Até que, em Sobral, ela o abandona por um sargento da polícia. Ele então some por um longo período e quando reaparece já é o andarilho magro, de manto e bastão.

Além da casa do Conselheiro, o ministro da Cultura vai a Icó, terceira vila do Estado do Ceará, amanhã, para a reabertura do Teatro da Ribeira dos Icós, construção neoclássica projetada pelo médico e historiador francês Pedro Thebérge. Erguido em 1860, o prédio possui dois pavimentos. No primeiro andar há um grande salão que dá acesso aos camarotes superiores, além das áreas livres.

A obra, que custou R$ 191 mil, recebeu recursos do Monumenta, programa conjunto do Ministério da Cultura e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Foi feita a restauração da cobertura e dos forros, das esquadrias e dos pisos, das paredes e dos revestimentos, pintura externa e interna do prédio, além de climatização.

Outra obra concluída pelo Monumenta na cidade cearense é o Largo do Thebérge, que recebeu novos calçamento, iluminação, paisagismo e mobiliário urbano. O investimento na recuperação do local foi de R$ 1,8 milhão.

O jornalista viajou a convite da Secretaria de Estado da Cultura do Ceará