Cultura e cinema brasileiros lamentam morte de Scola

20.01.2016 – 17:34  
 
 
O mundo do cinema e da cultura amanheceu mais triste nesta quarta-feira (20). Na noite anterior faleceu Ettore Scola, um dos maiores nomes do cinema italiano. O cineasta tinha 84 anos e estava em coma no departamento cardiológico do Hospital Policlinico de Roma.
 
Nascido no dia 10 de maio de 1931 em Trevico, uma pequena cidade na província de Avellino, no sul da Itália, Scola iniciou sua carreira como diretor em 1964 com o filme Fala-se de mulheres. 
 
 
Dono de uma filmografia de cunho humanista com mais de 40 obras, o diretor recebeu inúmeros prêmios, como a Palma de Ouro em Cannes com Feios, sujos e malvados, em 1976, e o prêmio César de melhor filme estrangeiro com "Nós que nos Amávamos Tanto", em  1974. Seu último trabalho foi o filme Que estranho chamar-se Federico, lançado em 2013 homenageando seu colega e conterrâneo Federico Fellini.
 
Para o ministro da Cultura, Juca Ferreira, Ettore Scola é um dos últimos grandes diretores de cinema que engrandeceram a sétima arte fora de Hollywood. "Neste momento em que o Brasil desenvolve o cinema e as artes visuais para todas as telas, podemos e devemos ter como interlocutores qualificados estes grandes diretores. São grandes artistas, cada qual com sua obra singular que, assim como Scola, sempre dialogaram com todos que produzem cinema", disse.
 
Grandes nomes do cinema brasileiro lamentaram a morte de Scola e relembraram a importância de seu trabalho. Veja os depoimentos dados por alguns cineastas brasileiros.
 
Jorge Furtado 
 
"Eu fiz muitas listas de filmes preferidos, muitas vezes, por muitos anos, e sempre mantive no topo, como o meu filme preferido Nós que nos amávamos tanto", revelou o diretor Jorge Furtado, que teve a oportunidade de conhecer Scola durante uma palestra na Assembleia Legislativa de Porto Alegre. 
 
Para ele, o falecido cineasta italiano era "um dos últimos grandes artistas do cinema, um intelectual bem humorado, um humanista, um extraordinário contador de histórias, brilhante e simples". Segundo Furtado, num tempo em que o cinema depende de super-heróis ou caricaturas, os personagens de Ettore Scola fazem lembrar que ser humano é bom e que a vida real, com medos, desejos, angústias e tolices, são material inesgotável para grandes histórias. "O cinema de Scola é para mim uma espécie de hino de amor ao ser humano comum, ao irmão imperfeito, carente, egoísta, mesquinho, apaixonado e tolo, aos feios, sujos e malvados, que todos somos", elogiou. 
 
Bruno Barreto
 
Fã de Ettore Scola, o diretor Bruno Barreto conta que seu filme O romance da empregada foi feito em homenagem ao italiano, inspirado no filme dele Feios, sujos e malvados. "Quando meu filme passou no Festival de Cannes, na mostra paralela, o Ettore estava lá, no júri da competição oficial.  Ele arrumou um tempo e veio ver meu filme, em uma projeção à tarde.  Fui apresentado a ele e ele me perguntou por que meu filme não estava na competição e eu expliquei que tinha feito em homenagem ao filme dele.  Fiquei muito emocionado", relata.
 
Para Barreto o grande legado de Scola é ter dado mais complexidade e humor ao neorrealismo italiano, movimento inaugurado em 1945.
 
Joel Zito Araújo 
 
O cineasta e especialista em filmes e documentários sobre cultura negra no Brasil, Joel Zito Araújo, contou que teve rápido contato com Ettore Scola em 1987, quando ganhou uma bolsa e foi fazer um curso de direção de programas educativos para TV em Roma. "Quase fui seu assistente, mas não pude ficar muito por lá, tinha filho pequeno", conta. 
 
Joel Zito se diz um admirador da forma como Scola, "um homem de esquerda", descreve, fazia um cinema de vanguarda muito ligado a cultura popular italiana. "Ele instala um conceito novo da abordagem dos pobres, questionando uma visão da esquerda dos pobres como bonzinhos. E ele foi revolucionário na narrativa, na forma conceitual de pegar temas humanistas", opinou.
 
Luiz Carlos Barreto 
 
"Sou grande tiete do Ettore Scola. Pra mim, com a morte dele, também morre muito o cinema humanista. Na era em que vivemos hoje, o cinema está com um viés de videogame. Um cineasta do tipo de Ettore Scola preferiu explorar temas mais humanos do que pura e simplesmente o entretenimento. Ele conseguiu, com maestria, juntar o entretenimento com o conhecimento. Foi uma perda muito grande. Quem vai fazer um Nós que nos amávamos tanto? Ou um Sujos, feios e malvados?"
 
Hector Babenco
 
"É uma perda imensa. Acho que todos nós, essas duas gerações, aprendemos a ver cinema europeu com ele, a ver o cinema italiano com ele."
 
Tata Amaral
 
"Una Giornata Particolare [Uma jornada particular], como me marcou. Assistir aos filmes dele sempre foi mergulhar num universo capaz de criar histórias e nos transportar para o lugar onde os personagens estão. Ao mesmo tempo, desperta uma grande imaginário. Lembro dos lençóis no telhado com Marcello Mastroianni (no filme uma jornada particular) . E O Baile? E os curtas dele, então? Eles são capazes de capazes de me transportar para um lugar que eu gosto."
 

Iberê Carvalho

 
"Sempre foi um dos cineastas preferidos. Inclusive meu primeiro longa, O Último Cine Drive-in, que é uma homenagem ao cinema, tem muita inspiração em filmes como Splendor, de Ettore Scola. Foi um susto assim saber da morte dele. Ele tinha uma capacidade de me envolver emocionalmente nas histórias, talvez pelas escolhas dos temas como família. Ele sempre falou muito de relação familiar." 
 
Sérgio Moriconi
 
"Ele foi o mais importante cineasta italiano pós-geração neorrealista. Ele começou fazendo comédia e fez filmes que são verdadeiras obras-primas: O baile, Nós que nos amávamos tanto e A família, por exemplo. Era uma pessoa muito lúcida, que sabia como ninguém de história, política, economia e cultura, rivalizando com o pensamento de Pasolini, fazia uma crítica ao materialismo dos anos do milagre italiano após a 2ª Guerra Mundial." 
 

Pola Ribeiro

Para o secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, cineasta Pola Ribeiro, "Ettore Scola é um cineasta que teve uma trajetória de mais de 50 anos de atividade e, com ele, perdemos um tipo de cinema que pegava pelo coração, com crítica social e com envolvimento no mundo da utopia política, de ação. Sobre sua obra, Nós que nos amamos tanto é, especialmente para mim, um filme que marcou muito, e que tem uma atualidade impressionante, nas falências contemporâneas de narrativas mundiais de utopia".  
 
 
Vinícius Mansur, Cecília Coelho e Camila Campanerut
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura