Encontro debate acessibilidade em bibliotecas públicas

2.3.2016 - 8:37  
Segundo dia de atividades contou com plateia de mais de 200 pessoas, incluindo cadeirantes, surdos, cegos e pessoas com deficiência intelectual (Foto: ONG Mais Diferenças)
 
 
Um grupo de pessoas se senta em formato de círculo, coloca um livro no centro e um deles lê a história em voz alta, descrevendo detalhadamente as figuras. Esse simples exercício pode ser extremamente eficaz para atender o público letrado ou não, com ou sem deficiência. Tal experiência fez parte das atividades dos cursos de formação que o projeto Acessibilidade em Bibliotecas Públicas realizou em 10 bibliotecas das cinco regiões do Brasil. 
 
Para uma plateia de mais de 200 pessoas (incluindo cadeirantes, surdos, cegos e pessoas com deficiência intelectual), gestores culturais, bibliotecários e integrantes da ONG Mais Diferenças apresentaram os resultados da implantação do projeto e o andamento dele, nessa quarta-feira (2), durante o segundo dia do Seminário Internacional de Acessibilidade em Bibliotecas Públicas, em São Paulo. 
 
O projeto Acessibilidade em Bibliotecas Públicas contempla 10 bibliotecas dos seguintes estados: Acre, Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina, Maranhão e Bahia, selecionados por meio de edital do Ministério da Cultura (MinC), com execução pela ONG Mais Diferenças.  
 
Um ponto em comum dos depoimentos dos diretores das bibliotecas participantes do projeto é que a formação por meio de cursos de capacitação e a sensibilização da equipe da própria biblioteca promoveram mudanças nas atitudes dos funcionários em relação ao público. Alguns desses cursos, como o de Libras (Língua Brasileira de Sinais), foi aberto para usuários e para as comunidades vizinhas. Outra questão relevante é a de sensibilizar prefeitos e governadores a se comprometerem com a manutenção dos novos equipamentos de tecnologia assistiva e das bibliotecas. 
 
Helena Carloni, que dirige a Biblioteca Pública do Estado do Acre, expôs alguns dos desafios para democratizar o espaço, após o início do projeto, em 2014. "Não são apenas o tipo e o grau de uma deficiência que limitam uma pessoa. O ambiente também pode limitar. Não devemos criar obstáculos ao aproveitamento produtivo de uma pessoa com deficiência. Há ceticismo sobre a sua capacidade, mas constatamos que, para superar, devemos ser uma instituição socialmente responsável, que não se omita frente a essa dívida social". Helena exemplifica que, ao desenvolver contação de histórias de forma inclusivas para crianças, elas acabaram trazendo e envolvendo pais, irmãos, avós, enfim, toda a família.
 
Na Biblioteca Pública do Estado da Bahia, contou a bibliotecária Raquel Ávila, as atividades de inclusão para deficientes são variadas e incluem, entre outras, exposição de pintura, palestras, teatro e música, festas comemorativas, oficinas de xadrez e cursos de capacitação. "Temos musicografia em braile, considerado um serviço raro, e também cabine de gravação para leituras e de CDs e DVDs", exemplificou.
 
A diretora da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa (MG), Alessandra Gino, disse que lá os mineiros chamam contação de história de "contação de causos", feita por atores e autores que conversam com o público. Um fator de inclusão relatado por Alessandra é a presença na biblioteca mineira de pessoas em situação de rua. "Eles têm a biblioteca como ponto de apoio. Isso também é acessibilidade. A partir do momento que frequentam, a biblioteca também é deles", destacou.  
 
Outro consenso entre os participantes com deficiência que expuseram suas opiniões foi a necessidade de acabar com os "guetos", os espaços reservados aos deficientes. Eles querem participar de tudo, poder ter acesso a qualquer material. 
 
Laboratório e encaminhamentos 
 
Na segunda parte do seminário, foram convidados ao palco seis jovens que participam de um laboratório na sede da ONG Mais Diferenças, em São Paulo. Dois deles têm deficiência intelectual e outros quatro são surdos. Eles foram convidados a participar da elaboração de uma versão do livro Alice no País das Maravilhas, de Lewis Caroll, em versão bilíngue (português e libras), em linguagem acessível e com descrição das imagens. 
 
A ação, que ainda está em andamento, teve início no começo de janeiro deste ano e o resultado será colocado à disposição do público em geral no site acessibilidadeembibliotecas.culturadigital.br, assim como toda metodologia utilizada e o conteúdo dos cursos de formação que eles oferecem. 
 
Essa experiência de contação de história, na versão narrada por esses jovens, emocionou o público. "Se um surdo pega um livro, acaba tendo o cansaço visual. É muita informação e só palavras. Isso é difícil para eles. As imagens ajudam na compreensão dos significados das coisas. Neste formato de leitura fácil, ficou mais confortável a leitura, eu não preciso mais da mediação do intérprete (de libras) para poder compreender", afirmou a adolescente Monica, cuja explicação foi traduzida pelo intérprete de Libras, Félix Oliveira Santos, que atuou com uma outra profissional durante todo o evento. 
 
Especialista na área e coordenadora da Mais Diferenças, Carla Mauch, que organiza esse laboratório, defendeu a importância de disponibilizar mais obras de leitura fácil, que podem ser um passo inicial para atrair leitores com dificuldade de entendimento, adultos recém-alfabetizados e até imigrantes que estão aprendendo o português. Isso, do ponto de vista dela, seria um pontapé para poderem chegar a ter condições de ler obras de fôlego ou clássicos de autores consagrados. 
 
"Se a gente não fizer alguma coisa, elas não vão ler nunca, e temos que assumir isso. A gente começou a achar que poderia ser interessante também para o público surdo. Os 10 livros que a gente vai disponibilizar pelo projeto terão audiodescrição, libras, legenda e leitura fácil. Os cinco primeiros são livros de domínio público: Alice no País das Maravilhas, O Pequeno Príncipe, Pavão Misterioso, Relíquias da Casa Velha e O Flautista de Hamelin". 
 
Também presente ao encontro, o filósofo, escritor e professor da universidade de Barcelona Jorge Larrosa destacou que é preciso sair do tempo acelerado em que se vive para dedicar parte dele à leitura, ao encontro, ao estudo e à aprendizagem. "A leitura exige tempo, paciência, espaço, dedicação. Não é só um direito. É uma tarefa, um esforço, uma responsabilidade, um trabalho para fazer junto. A leitura exige um tipo de atenção bem particular. É a lógica ‘de perder o tempo'. Devermos seguir lutando pelo acesso, pois cada vez é mais rara a leitura, dar atenção a ela", argumentou. 
 
Na avaliação do diretor do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do MinC, Volnei Canônica, mais do "que cutucar, acompanhar e sonhar', o papel da sociedade civil é construir, juntamente com o Poder Público, políticas públicas para o setor. "É muito importante ter vocês como parceiros neste projeto. Foram inúmeras conversas formatadas neste seminário, que foi riquíssimo em trocas e que vai nos alimentar para continuarmos seguindo este projeto", concluiu. 
 
Os dois dias de Seminário tiveram transmissão ao vivo no site do Ministério da Cultura e no site do projeto acessibilidadeembibliotecas.culturadigital.br.
 
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Camila Campanerut
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura