Quadrinista brasileira é convidada para feira de Gotemburgo

8.3.2016 - 10:53 
Bianca é um dos principais nomes femininos do mercado de quadrinhos brasileiro (Foto: Divulgação/PH Tirre)
 
 
Bianca Pinheiro é carioca, mas desde os cinco anos mora em Curitiba (PR). Ainda criança, incentivada pelos pais, teve o seu primeiro contato com as revistas em quadrinhos. Mônica, Cebolinha e companhia foram figuras fundamentais no seu processo de alfabetização. Hoje, com 28 anos, é um dos principais nomes femininos do mercado de quadrinhos brasileiro. No segundo semestre, a autora terá sua primeira experiência fora do País, representando o Brasil na Feira Internacional do Livro de Gotemburgo, na Suécia.
 
Bianca não consegue lembrar-se exatamente quando começou a criar quadrinhos, mas conta que a turma criada por Maurício de Sousa inspirou seus primeiros rabiscos. Da simples leitura, a menina passou a criar historietas ilustradas, que a acompanharam por toda a vida. 
 
O hobby, entretanto, manteve-se em segredo por muito tempo. Bianca começou a divulgar suas ilustrações e textos somente em 2012. Dora foi sua primeira publicação, ainda que independente. O livro traz uma história de terror, na qual uma mãe relata a um detetive a história de sua filha, acusada de matar 15 pessoas. 
 
O reconhecimento veio com Bear, história que nasceu em 2013 como uma webcomic. A cada semana, Bianca divulgava na internet uma página de sua história. Na época, a quadrinista trabalhava como ilustradora em uma empresa e a publicação seriada foi a forma que encontrou para se dedicar à sua paixão.
 
"Sempre preferi histórias longas a tirinhas isoladas. Queria criar uma, mas a rotina que tinha com meu trabalho dificultava um pouco. Isso me desmotivava e, no fim, não conseguia criar nada", relembra. Foi então que seu marido lhe sugeriu uma história de quadrinhos produzida gradativamente e divulgada pela internet. "Foi uma ótima solução. Eu não precisava pagar absolutamente nada para a sua publicação e já tinha um feedback imediato por parte dos meus leitores. Além disso, com essa dinâmica, comecei a me educar quanto à periodicidade", diz Bianca.
 
Bear, hoje em seu segundo volume, conta a história da pequena Raven, uma garotinha que se perdeu de seus pais e que, em meio à sua busca pela floresta, encontra Dimas, um urso marrom mal-humorado e rabugento. Juntos, os dois enfrentam uma longa e divertida jornada que acaba por aproximá-los. Apesar de seguir disponível na internet, os livros foram publicados pela Editora Nemo em 2014 e 2015, respectivamente.
 
Mulheres nos quadrinhos
 
Em um mercado predominantemente masculino, Bianca segue lutando pelo reconhecimento de seu trabalho. Em prêmios importantes para a categoria, tais como o brasileiro Troféu HQMIX e o francês Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, quadrinistas mulheres raramente aparecem entre os nomes finalistas. A falta de representatividade, inclusive, tem sido motivo de constantes manifestações dentro do setor. Para Bianca, entretanto, esse cenário está mudando, ainda que devagar. 
 
"Como em diversos setores, os homens ainda são maioria. Infelizmente, no mundo em que vivemos, grande parte das oportunidades são destinadas aos homens. Mas acho que isso está mudando. Tenho pouco tempo no mercado e percebo já algum avanço neste período. Cada vez mais as mulheres têm aparecido no mercado, brasileiro inclusive. Obviamente que ainda temos muito a percorrer, mas já há algum avanço", afirma Bianca.
 
Coincidentemente, Bianca tem como suas principais inspirações autoras mulheres: a americana Noelle Stevenson e a canadense Emily Carroll. Questionada se o estilo de traços ou temáticas particularmente femininas são motivos da sua admiração, a quadrinista brasileira não consegue especificar. "Não acredito que seja isso. Acho que o que me atrai nos quadrinhos delas é mais a construção das narrativas mesmo. O texto é muito bom e há recursos de narrativa de quadrinhos surpreendentes", diz. 
 
Segundo Bianca, de modo geral, as quadrinistas brasileiras, principalmente, recorrem bastante a temas feministas. A relação com o próprio corpo, o protagonismo da mulher na sociedade e a opressão masculina são alguns dos temas comuns a estes enredos. Mesmo se declarando feminista, Bianca nunca chegou a tratar desses temas de forma explícita. "Mas obviamente acabo falando de feminismo, mesmo que sutilmente. Quando opto por criar uma personagem mulher, por exemplo, existe um porquê disso. Prefiro trabalhar assim: colocar o feminismo mais como um sentimento, menos como uma declaração", diz.
 
Internacionalização da literatura brasileira
 
Em fevereiro deste ano, Bianca foi convidada pelo Itamaraty a participar da Feira Internacional do Livro de Gotemburgo, que ocorre entre os dias 22 e 25 de setembro. O convite, que partiu dos organizadores do próprio evento, é fruto de uma aproximação entre o Brasil e a Suécia no que diz respeito a suas literaturas. Na edição de 2014, inclusive, o Brasil foi o primeiro país sul-americano homenageado pelo evento. 
 
"Essa aproximação faz parte da política de internalização da literatura brasileira, dentro do escopo de internacionalização da cultura pretendida pelo ministério. A ideia é que consigamos atuar de forma coordenada, garantindo uma presença contínua da nossa literatura no exterior", destaca a coordenadora-geral de Literatura e Economia do Livro, da Diretoria de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Ministério da Cultura (DLLLB/MinC), Lucília Soares.
 
O projeto é objeto de discussão de um grupo de trabalho que reúne membros não apenas da DLLLB, mas representantes do Ministério das Relações Exteriores e de entidades da cadeia produtiva do livro. O grupo, que se reúne periodicamente, visa a definição de planos de ação capazes de garantir a internacionalização da literatura produzida no Brasil. 
 
"Queremos garantir a presença do Brasil nas principais feiras internacionais do livro. Com esse grupo de trabalho, almejamos não só a participação nas feiras propriamente ditas, mas também vislumbramos uma articulação maior e conjunta com universidades, imprensa e empresários para a realização de rodas de negócios e de encontros com escritores. A longo prazo, queremos marcar território, criando novos leitores e propondo a eles o interesse por outros autores brasileiros", destaca Lucília.
 
Para Bianca, uma política de internacionalização da literatura é fundamental para a divulgação do que vem sendo produzido no Brasil. "Iniciativas como essa são incríveis para nós, artistas. Trata-se de um grande incentivo não só pela valorização do nosso trabalho pelo governo, como também para a divulgação de novos autores. Diante do meu trabalho, por exemplo, imagino que muitos dos visitantes da feira terão um interesse natural pela busca de outros quadrinistas brasileiros", afirma. 
 
Além da feira de Gotemburgo, neste ano, o Brasil participará da Feira do Livro Infantil de Bolonha, na Itália (de 4 a 4 de abril); da Feira Internacional do livro de Bogotá, Colômbia (19 de abril a 2 de maio); da Feira Internacional do livro de Buenos Aires, na Argentina (de 21 de abril a 9 de maio); da Frankfurter BuchMesse, na Alemanha (de 19 a 23 de outubro) e da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, no México (de 26 de novembro a 4 de dezembro). 
 
 
Cristiane Nascimento
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura