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Pena Schmidt: “precisamos pensar em políticas que estimulem a diversidade”

10.3.2016 - 11:33  

Pena Schmidt é diretor do Centro Cultural São Paulo (Foto: Arquivo pessoal)
 
O produtor musical Pena Schmidt tem visão privilegiada da cultura e do mercado, especialmente da música. Nas décadas de 70 e 80, nos estúdios de grandes gravadoras, atuou com nomes importantes do rock brasileiro, como Ira!, Mutantes, Titãs e Ultraje a Rigor. Nos anos 90, deixou o circuito das majors (grandes gravadoras) e criou seu próprio selo, o Tinitus, pelo qual lançou bandas da cena da época, como Virna Lisi, Yo Ho Delic, Beijo AA Força e Bel, da qual sairia Toni Garrido, futuro vocalista do Cidade Negra.
 
Hoje, Pena está na gestão pública, como diretor do Centro Cultural São Paulo, ligado à prefeitura da capital paulista. Em entrevista exclusiva para o portal do Ministério da Cultura (MinC), Schmidt fala da experiência de trabalhar com cultura nos setores público e privado, do papel do Estado para estimular a economia da cultura e de perspectivas para a área. 
 
 
Você é um profissional que trabalhou muitos anos na indústria fonográfica e agora atua no setor público. Que visão de trabalho essas duas experiências trazem?
 
São experiências de gestão complementares. Nas gravadoras, você tem como tarefa ativar o processo do consumo. No mercado, existe a relação com o público e isso permanece na gestão pública, em que buscamos atender demandas e desejos em relação à cultura. Significa um grande aprendizado passar de um campo ao outro. Em relação ao setor público, acho que deveria haver mais flexibilidade para se lidar com a cultura, pois se trata de uma área com muitas especificidades, mas, claro, sem que se percam de vista condicionantes e princípios básicos que a lei prevê. Os legisladores precisam se debruçar sobre essa questão.
 
 
Você atuou durante muito tempo no circuito das grandes gravadoras e nos anos 90 criou o seu próprio selo, o Tinitus. Por que resolveu seguir este caminho?
 
Eu fiquei à frente da Tinitus de 1991 a 1999. Na década de 90, houve a proliferação de gravadoras independentes. Eu coloco tudo em um panorama de grandes alterações no mercado mundial. Entre 1985 e 1990, foram feitas as fusões das grandes corporações do mercado fonográfico. No Brasil, saímos de 17 companhias de discos de âmbito nacional e terminamos com quatro, todas multinacionais, que tinham adquirido as empresas brasileiras do setor. Com isso, houve enorme centralização e poucos passaram a administrar a totalidade do mercado. Há números bem explicativos em um livro chamado A Voz do Dono, de Marcia Tosta Dias. Nesse trabalho, ela levantou que, em meados dos anos 80, havia 4 mil artistas contratados no País. Quando se encerrou esse ciclo, com a permanência de apenas quatro majors, o número era menor que uma centena. Foi nesse contexto que se inseriu a gravadora independente. Não havia canais que dessem espaço à carreira dos artistas. Abrir uma pequena gravadora era inevitável se a gente quisesse trabalhar com isso. Nesses oito anos da Tinitus, lançamos uma série de artistas, como Bel, grupo do qual saiu Toni Garrido, futuro vocalista do Cidade Negra; o Yo Ho Delic e o Beijo AA força. Gravamos 37 CDs, com muitas bandas que estavam fora do eixo Rio-São Paulo. Conseguimos mostrar que havia mais coisas acontecendo Brasil afora.
 
 
E hoje como vê o cenário de produção?
 
Ainda estamos em transformação. Não existe um modelo único. Na época do disco, durante 80 anos, da década de 20 ao CD, houve um único padrão. Era somente um formato, com um objeto em que se estruturava o negócio. Atualmente, há vários modelos diferentes. Percebemos um empoderamento do artista, que consegue suprir as suas necessidades, antes preenchidas pela gravadora. O músico pode gravar, eventualmente mandar fabricar, marcar os shows e elaborar a agenda. Provavelmente, esse início acontece de forma autônoma. Num segundo passo, se houver algum progresso, monta-se uma equipe, com gente que vai ajudar na venda do show ou para tornar a produção do trabalho mais sofisticada. Percebemos que os artistas agora se juntam para se apoiarem e se ajudarem nessas tarefas, com foco na cooperação, na parceria. São muitos os grupos atuando dessa forma pelo Brasil, uns trabalhando nos discos dos outros, se produzindo e desenvolvendo projetos de shows. 
 
 
O que pensa sobre o papel do poder público no apoio a quem atua na área de economia da cultura?
 
Hoje vemos uma presença grande do poder público na área cultural, por meio de diferentes editais e incentivos de naturezas diversas, no âmbito federal, nos estados e municípios. Creio que vivemos um bom momento para pensarmos em um novo modelo de apoio. O sistema atual é muito finalista. Fica concentrado na compra do espetáculo ou na distribuição de recursos para o produto final, como um disco ou um espetáculo. Na verdade, não temos ações dirigidas ao processo, ao meio do caminho, aos palcos, aos fornecedores de som e luz, a toda parte de gestão. Isso causa um desequilíbrio. Precisamos pensar em iniciativas como os pequenos palcos, presentes na cidade de São Paulo, mas que são necessários no Brasil inteiro. Trata-se de uma oportunidade para que o artista iniciante tenha um primeiro contato com o público. Não vemos incentivos para esse tipo de espaço, que funciona mais por teimosia de algumas pessoas. Pelo contrário: criam-se dificuldades e empecilhos para quem tenta abrir algo assim. Quem sabe, poderíamos isentar de impostos ou oferecer incentivos, criar editais para esses negócios, cruciais ao crescimento de uma arte de alcance nacional. Muita gente se esquece de que nesses pequenos ambientes são ouvidas canções incríveis e acabam saindo grandes artistas. Basta ver na nossa história, no caso dos palcos usados pela bossa nova na década de 60. O próprio rock'n'roll brasileiro começou em lugares menores. 
 
 
Como vê as perspectivas para a área da música e da economia da cultura de forma geral?
 
Precisamos pensar em políticas que estimulem a diversidade, para que manifestações de caráter mais específico e criativo tenham espaço, e não apenas a cultura de massas. Tem que valorizar expressões locais, de gêneros peculiares, já que o mercado se afasta da diversidade. Procura grandes vendedores e sempre em pequeno número. Acho que podemos nos inspirar em como o poder público age em outras áreas, com fomento para agricultura ou indústria. Quando se criam benefícios e financiamentos, a iniciativa privada acaba reagindo e surgem novos modelos de negócios. E temos um cenário riquíssimo pelo País. Dentro da música instrumental, há inúmeros virtuoses. Na canção popular, também fica nítido que os hibridismos estão gerando artistas extremamente conectados com a sua época, que falam da vida da população e do cotidiano com muita propriedade, como Emicida e Tulipa Ruiz. Sou bastante otimista em relação ao aparecimento de novos talentos. 
 
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Marcelo Araújo
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura