No Ludocriarte, todo mundo brinca em serviço

11.3.2016 - 11:50  
Contação de histórias e oficinas de música e de artes são algumas das atividades realizadas pelas crianças (Foto: Acácio Pinheiro/Ascom MinC)
 
Paolo Chirolla fundou a Ludocriarte em 1985 (Foto: Acácio Pinheiro/Ascom MinC)
 
 
O italiano Paolo Chirolla tinha 18 anos quando desembarcou pela primeira vez no Brasil. Então aluno de um curso superior de Ciências da Educação em Milão, na Itália, ele aproveitou suas férias para trabalhar voluntariamente em um projeto social da cidade de Goiás, localizada a pouco mais de 140 quilômetros de Goiânia, capital do estado que leva o mesmo nome do município que o acolheu – nesse primeiro momento, por um mês e meio. 
 
"Sempre fui muito ligado a movimentos sociais. Talvez porque na Itália o voluntariado seja algo muito forte, que está no nosso sangue mesmo. Lá é bem comum participarmos de projetos que auxiliem os outros, sem qualquer remuneração financeira", afirma Chirolla, hoje presidente da Associação Ludocriarte, um dos mais de 4,5 mil Pontos de Cultura existentes no País.
 
Cerca de dois anos depois de sua primeira visita ao Centro Oeste brasileiro, o então universitário retornou ao País de mala e cuia. Largou a faculdade e a família na Itália para seguir o seu destino. "Foi mais forte do que eu. De alguma maneira, sempre soube que não teria uma vida tradicional", diz.
 
O italiano passou por uma série de projetos e instituições até que, em 2005, fundou a Associação Ludocriarte em uma casa de São Sebastião, região administrativa do Distrito Federal. Lá, ele montou uma brinquedoteca comunitária para atender crianças e jovens de baixa renda. Por meio do resgate de jogos e brincadeiras tradicionais, a instituição promove um trabalho de educação e cultura com a comunidade.
 
"Para nós, brincar é tudo. Brincar é cultura. É no brincar e na linguagem lúdica que a criança acessa todas as outras coisas. Fizemos um trabalho inverso, tentando incluir tudo dentro do brincar, e não o contrário", destaca Chirolla. Na Brinca, como é carinhosamente apelidado o local, atividades como teatro, música e cinema são apresentados às crianças por meio de brincadeiras. Elas absorvem o que lhes é passado e são sempre estimuladas a criar suas próprias obras.  
 
Segundo Paolo, normalmente, os produtos culturais voltados às crianças são pensados e produzidos por adultos. Eles têm o seu valor, é claro, mas também tolhem o potencial criativo dos pequenos. Dificilmente a arte e a cultura são pensadas em parceria com as crianças. "O nosso foco sempre foi fomentar o lúdico dentro da cultura da infância. O que é a cultura para criança se não o brincar? Para nós, o brincar é o berço de toda a cultura infantil", afirma Chirolla.
 
Atualmente, a Ludocriarte atende a 85 crianças, a maior parte delas entre 6 e 14 anos. Elas frequentam a instituição de segunda a quinta-feira, sempre no turno contrário às aulas. Além de utilizarem a brinquedoteca comunitária, com brinquedos e jogos de tabuleiros, os alunos participam de aulas lúdicas de informática e de oficinas, dentre as quais de contação e criação de histórias, de musicalização e de hip hop. As crianças também utilizam a rua para brincadeiras mais ativas, como pega-pega, queimada e futebol.
 
Um Ponto de Cultura e seus filhos
 
Em 2010, a Ludocriarte foi selecionada como Ponto de Cultura. Com os recursos repassados pelo Ministério da Cultura, a instituição montou um laboratório de informática e comprou uma série de instrumentos musicais para as crianças. O apoio foi também importante para a concepção de oficinas de contação de histórias, que resultaram na publicação de dois livros produzidos pelos próprios alunos. 
 
Lançado em 2012, o primeiro livro, denominado "Era outra vez... Histórias clássicas recriadas pelas crianças do Ponto de Cultura Ludocriarte", trouxe recriações de obras clássicas como A Bela Adormecida, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, entre outras. O segundo livro do projeto, "Era outra vez... Histórias Mágicas criadas pelas crianças do Ponto de Cultura Ludocriarte", foi lançado em 2014 e trouxe como pano de fundo um mundo mágico, com fadas, princesas e dragões.
 
Em 2016, a Ludocriarte deu início a uma terceira fase desse projeto. Em comemoração aos 10 anos da instituição, as crianças produzirão um novo livro, que terá justamente as brincadeiras populares como inspiração. "O trabalho que desenvolvemos com as crianças para a elaboração das histórias é sempre muito rico. Começa com a contação de muitas histórias e, por meio do brincar, começamos a criar em cima delas. Desta vez, quem sabe, poderemos criar uma narrativa com a dona Chica e o gato, por exemplo", explica Isabela Leda, psicóloga e oficineira voluntária de criação de histórias, em referência à cantiga tradicional Atirei o Pau no Gato. 
 
Lucas Alves de Melo, de 10 anos, é um dos mais empolgados com as criações. "O mais legal da brinquedoteca é que aqui a gente aprende brincando. O trabalho com os livros foi bastante legal. Ver eles prontos é emocionante. É quase como se fosse um filho, afinal, eu ajudei a criar", diz o garoto.
 
Além do livro propriamente dito, desta vez as crianças trabalharão também na concepção de um DVD de videoclipes, com músicas e vídeos produzidos por eles próprios. Uma das músicas, inclusive, já foi composta e tem sido ensaiada pelas crianças. Com o título "Há dez anos", ela retrata um pouco da atmosfera do espaço. "Há dez anos tem muita brincadeira / Há dez anos tem muita compreensão / Há dez anos tem muita amizade / Há dez anos trabalhando em união (...) Felicidade é estar sorrindo / Aprendendo a ser cidadão / Sendo aceito do jeito que sou / Melhor caminho melhor opção."
 
Brincadeira também é coisa séria
 
Não são raras as vezes que as brincadeiras ganham um ar mais sério. Por meio delas, questões como o racismo e bullying são trabalhadas junto aos pequenos e, sem perceber, eles acabam absorvendo valores que lhes serão bastante úteis para a vida toda.
 
"Foi aqui que eu aprendi a ter disciplina, a respeitar os colegas e as diferenças", afirma Maikon Daniel da Silva Lopes, de 14 anos. O jovem frequenta a instituição desde 2006 e, apesar de não participar mais das atividades, está sempre presente. "Quero me tornar um brinquedista. Enquanto isso não acontece, tento ajudar eles como posso", diz. 
 
Para sua mãe, Rabiana Pereira da Silva, a instituição foi de extrema importância para a criação de seu filho. "O Maikon sempre foi uma criança ativa, que não para quieta. Se ele não tivesse essa oportunidade, provavelmente estaria na rua, brincando sem segurança. Na brinquedoteca, toda a sua energia se volta para as oficinas e isso fez dele um menino bastante criativo. Ele está tendo acesso a uma cultura que eu não teria condições de dar", afirma ela.  
 
Às sextas-feiras, a Ludocriarte é fechada para balanço. Sem a presença das crianças, brinquedistas, oficineiros e monitores se juntam para uma reunião pedagógica. "Esses encontros são extremamente importantes para o funcionamento da instituição. É um espaço no qual podemos expor as nossas dificuldades e o bom disso é que todos buscam uma solução conjunta para qualquer problema que apareça, seja com um aluno ou com uma turma específica", diz a estudante de pedagogia e brinquedista Darleane Silva Santos, de 21 anos.
 
Para Paolo Chirolla, a atenção e o investimento nos educadores são fundamentais para o sucesso da Ludocriarte. "Se não fizéssemos essas reuniões, muito se perderia. Eles provavelmente seriam engolidos pela rotina e logo se sentiriam desmotivados", afirma o presidente da instituição, que não poupa elogios a seus aprendizes.
 
"Trabalhar com as crianças é algo que nos dá um prazer imensurável, mas o que mais me motiva dentro desse trabalho é a participação dos educadores. Isso me deixa realmente tocado. De alguma forma, revejo a minha juventude por meio do entusiasmo desses garotos e garotas", afirma, visivelmente emocionado.
 
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Cristiane Nascimento
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura