Ato faz desagravo à intolerância religiosa no Brasil

17.3.2016 - 16:03  
MinC promoveu ato de desagravo à recorrente violência contra as casas de religião de matriz africana (Foto: Acácio Pinheiro/Ascom MinC)
 
 
Noeme Ferreira, responsável pelo Centro Espírita Afro-Brasileiro Ilé Axé Iemanjá Ogum Té, localizado em Valparaíso de Goiás, entorno do Distrito Federal, se deparou, ao voltar de viagem na semana passada, com uma triste cena: o terreiro de candomblé havia sido invadido e completamente depredado. Sua casa e o barracão que abrigava os objetos sagrados e os altares foram completamente destruídos. As paredes estavam todas no chão. No local, havia um bilhete com nome de uma instituição evangélica.
 
Casos de desrespeito e de intolerância religiosa, como o sofrido por Noeme, vêm se tornando comuns no Brasil. Segundo dados da Fundação Cultural Palmares (FCP), o templo em Valparaíso de Goiás foi um dos 21 depredados, saqueados ou queimados no DF e entorno desde o ano passado. Em 2015, o Disque 100 (do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, Juventude e dos Direitos Humanos) registrou 705 crimes de intolerância religiosa entre atos de vandalismo, perseguição e racismo no Brasil.
 
A luta contra a intolerância religiosa é uma das pautas prioritárias do Ministério da Cultura (MinC). Na manhã desta quinta-feira (17), a FCP e o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico nacional (Iphan) promoveram, em Brasília, ato em desagravo à recorrente violência contra as casas de religião de matriz africana. Estiveram presentes o ministro da Cultura, Juca Ferreira, a presidenta da FCP, Cida Abreu, o diretor de Patrimônio Imaterial do Iphan, TT Catalão, e diversos líderes religiosos.
 
Durante o ato, o ministro Juca Ferreira enfatizou que o MinC tem a missão de cuidar das expressões simbólicas do País. "O Estado, por meio do Ministério da Cultura, tem a obrigação de defender a diversidade e as manifestações culturais do Brasil. O Brasil é um dos países mais diversos do mundo e é preciso zelar por isso", pontuou.
 
Juca Ferreira também falou sobre o momento "difícil" vivido pelo País, com "afloramento de doenças sociais como a discriminação, a homofobia e o racismo". "Minha posição pessoal é a de que o Brasil tem sido muito leniente com essas enfermidades. Conheço de perto o candomblé e é uma religião que vem da África e, por isso, (entre outros motivos) há destruição de terreiros", disse. "Sou solidário e, sempre que posso, defendo a necessidade de combater essas enfermidades", completou. 
 
A presidente da FCP, Cida Abreu, enfatizou que a luta contra a intolerância religiosa é agenda prioritária da fundação e frisou a difícil conjuntura política e social atual. "O Brasil é um país diverso, continental, não dá para falar que uma fé é maior que outra. Não podemos deixar essa bandeira da intolerância ganhar força", ressaltou. 
 
O ato de desagravo ocorreu após visita à exposição Patrimônio Imaterial Brasileiro – A Celebração Viva da Cultura dos Povos, na Caixa Cultural Brasília. Para o diretor TT Catalão, fazer o ato de desagravo no local da exposição tem um significado especial. "É uma exposição que celebra a diversidade cultural brasileira e, quando se fala em intolerância e racismo, é a diversidade que está sendo agredida. É impedir a convivência com o diferente. E isso não pode acontecer", considera.
 
Demandas
 
As autoridades presentes ao ato de desagravo ouviram demandas e queixas dos líderes religiosos. Entre elas, a falta de conhecimento e a existência de discriminação por parte de instituições públicas. Outra queixa feita foi em relação ao sentimento de expulsão geográfica dos terreiros para as periferias e entorno do DF. Segundo os líderes, a maioria dos templos foram, com o tempo, afastados para longe do centro da cidade. 
 
Pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), Ekdje Silvia disse ao ministro que existe uma discriminação das instituições públicas em relação a religiões de matriz africana. "A luta é maior, não é só falta de união e cidadania. Há instituições ao lado (de onde estão os templos) que não nos entendem e que não nos representam. Precisamos de alguém que possa nos representar", disse. 
 
Exposição
 
A exposição Patrimônio Imaterial Brasileiro – A Celebração Viva da Cultura dos Povos seguirá aberta ao público até o próximo dia 20 de março. Desde 2014, quando foi inaugurada, já passou pelas cidades do Rio de Janeiro, Fortaleza, Salvador, Recife e São Paulo.
 
Por meio de recursos audiovisuais e interativos, em ambientes recriados e textos didáticos, o público poderá conhecer e vivenciar os 38 bens imateriais culturais brasileiros, entre os quais o Ofício dos Mestres de Capoeira, o Mamulengo e as Matrizes do Samba no Rio de Janeiro.
 
Cecilia Coelho
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura