No Dia da Arte, presidente da Funarte fala sobre cenário criativo

 

12.8.2018 - 9:00  
Para o presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte), Stepan Nercessian, as artes estão sendo reconhecidas como estratégicas para o desenvolvimento econômico e social (foto: Funarte)
 


A história da humanidade está intrinsecamente ligada às manifestações artísticas e, no mundo contemporâneo, essa relação está cada vez mais estreita. Diversas formas de linguagens se expandem e interagem, aliadas aos avanços tecnológicos que possibilitam novas maneiras de expressão e autonomia, abarcando também intervenções urbanas e ambientais. É nesse cenário, plural e multifacetado, que está o desafio do presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte), o ator Stepan Nercessian. Ao órgão, vinculado ao Ministério da Cultura (MinC), cabe desenvolver políticas públicas que abracem toda essa extensão e pluralidade. Em celebração ao Dia Nacional das Artes, no dia 12 de agosto, Nercessian explora um pouco desse universo criativo e transformador no âmbito individual e coletivo.
 
A Funarte tem o gigante papel de abarcar políticas de fomento às artes em um país com dimensões continentais e várias expressões artísticas diferentes como o Brasil. Como é pensar esse fomento para as várias formas de expressões artísticas e expressões regionais dentro de cada segmento?
 
No século XXI, presenciamos a ampliação e a expansão acelerada das formas de expressão artística e de difusão. Cabe à Funarte abarcar em seus programas de fomento toda essa extensão, diversidade e multiplicidade de linguagens no campo das artes cênicas, música e artes visuais. As especificidades de cada região exigem tratamentos diversificados e programas específicos e abrangentes de forma a atender o máximo possível de demandas. Os processos criativos também se diversificaram, ou apresentam maior complexidade em seu tratamento, sendo que muitos deles exigem uma atuação imediata que exige procedimentos menos burocráticos para sua abordagem e execução. É necessário um suporte tecnológico adequado para suprir as deficiências na difusão de programas e projetos já existentes e autônomos, no sentido de difundir manifestações independentes, assim como fomentá-las em suas origens e disponibilizá-las por meio das diversas mídias contemporâneas.
 
Como o fazer artístico é visto hoje? Ainda há preconceito com o artista e sua arte?
 
Talvez a maior parte das pessoas não percebam ainda que a arte está em todo seu entorno, em todos os lugares por onde circula. Arte e cultura fazem parte do mesmo corpo e todos têm uma cultura, um conhecimento singular e coletivo do mundo que o cerca. No mundo contemporâneo, isso é mais evidente ainda. Não há comunicação interpessoal e coletiva sem imagem, som e objeto e isso ocorre o tempo todo por meio das tecnologias que estão aí. Por meio da fotografia, das sonoridades, das imagens em movimento e em todos os ambientes por onde circulamos. A arte pode ser uma forma de ver e viver o mundo e, a cada dia, é sentida como parte de sua própria vida, seja por meio de ferramentas tecnológicas ou mesmo em contato permanente com o ambiente em que se vive, na arquitetura, na natureza, nos objetos de uso, nos espetáculos musicais e teatrais, na dança, nos acontecimentos culturais na visualidade e sensorialidade. O artista tornou-se o criador e interlocutor entre os diversos segmentos da sociedade e talvez ainda não tenha sido reconhecido seu papel transformador dessa coletividade. Tem ainda a missão de estimular a ação criativa de qualquer segmento social e individual.
 
Qual a importância da arte no aspecto cognitivo e emocional, na construção de uma identidade individual e coletiva da sociedade?

Se a arte representa e intervém em todos os momentos da história de uma sociedade, certamente transita por todas as suas manifestações emocionais, de conhecimento e de representação dessa mesma sociedade. Estimula a reflexão e o pensamento crítico, constrói e desconstrói permanentemente valores e comportamentos, questiona e consolida formas e meios de subsistência, mitos e meios de produção, espiritualidade e questões filosóficas. A arte é um campo expressivo em expansão, próprio da natureza humana, capaz de consolidar e transformar o ser humano e a sociedade. Dessa maneira, contribui para a formação das identidades e tradições de um povo e de seus indivíduos, seja por meio da autonomia e liberdade de expressão ou por meio de regulamentações do próprio poder social de um grupo hegemônico e do Estado. Uma das grandes conquistas da sociedade contemporânea é essa liberdade e autonomia do artista em relação à criação e interferência crítica junto à sociedade e ao poder constituído.
 
Na perspectiva de geração de emprego e renda, como a arte pode ser uma alternativa viável? É possível viver de arte?
 
A arte, tal como podemos conceituar hoje e mesmo quando não era ainda chamada de arte (antes da Renascença), sempre teve um papel fundamental na economia e na sobrevivência humana. Anteriormente relacionada ao culto, contava com pessoas que exerciam uma função econômica como artífices que trabalhavam em equipe ou individualmente. Estavam incluídas a arquitetura, a pintura, a criação de objetos de uso, a poesia, a música, as artes cênicas (na tragédia grega tinha função crítica e educativa), a dança, a jardinagem e até mesmo a organização urbanística das cidades e ambientes domésticos. Portanto sempre se viveu de arte, sendo que para cada momento da história havia suas circunstâncias próprias. Claro que essa questão nos remete a uma análise mais complexa e nos obriga a viajar no tempo para conceituar cada momento referente à sua função sociopolítica e econômica. Quando a arte adquire maior autonomia, já no século XVIII, e com a separação entre arte e ofício, o artista assume sua autonomia e sua relação com a economia de sobrevivência é transformada em outra forma de subsistência sem deixar de influir na sociedade como um todo.
 
Como a arte pode influir na história da humanidade? Arte e história caminham juntas?
 
A arte, desde os primórdios, teve uma função econômica e de sobrevivência. Mesmo relacionada anteriormente ao culto e à espiritualidade, estava também relacionada à sobrevivência material e à preservação da vida humana e da natureza. Não há separação entre história e arte, sendo que, para compreender a história da humanidade, inevitavelmente temos que recorrer às manifestações artísticas de cada período e vê-las em seu próprio contexto. Estamos hoje vivendo um momento em que a arte está mais presente ainda em todas as atividades humanas e ainda interagindo com todas elas – na política, economia, ciência, filosofia – em todos os campos da atividade humana.
 
Qual é o grande desafio a ser enfrentado pela Funarte, que o órgão responsável pelas políticas públicas do setor no Brasil?
 
O maior desafio talvez seja incluir o enorme campo das artes com toda a sua diversidade de expressões em seus programas e ter recursos disponíveis apara atender a todos. Em cada campo de expressão artística, há diversas formas de linguagem em processo de expansão, preservação e experimentação. As fronteiras entre uma linguagem e outra se ampliam e se entrecruzam, criando um sistema cada vez mais interativo. Por outro lado, as tecnologias disponibilizadas hoje ampliam mais ainda as possibilidades de expressão e autonomia artística. As artes visuais não são mais só pintura, escultura, desenho, fotografia, o audiovisual e as ferramentas tecnológicas... mas intervenções artísticas, interferências urbanas e ambientais, fotolinguagem, videoinstalação, instalação, performance e outras formas de linguagem não classificáveis. O mesmo ocorre com as artes cênicas e a música. Sendo atribuição da Funarte atender a todos esses segmentos e ainda fomentar o debate e proposições no campo da arte-educação e difusão, será necessário mais recursos e infraestrutura de produção. Afinal as artes estão sendo reconhecidas como estratégicas para o desenvolvimento econômico e social.
 
A Funarte está onde o artista está?
 
Sim, a Funarte historicamente sempre esteve na origem e na gênese de todas as manifestações artísticas. Onde o artista está, portanto. É reconhecida nacionalmente sua presença e fomento à diversidade de expressões artísticas e reflexões sobre sua função e história.
 
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura