Para salvaguardar a memória do samba, temos Rouanet

 

 

05.12.2018 - 18:20   

Durante o ano de 2018, o museu contou com atividades complementares cuja organização foi possível devido à captação de recursos via Lei Rouanet (Foto: Divulgação)
 
O que a China e o Museu do Samba têm em comum? À primeira vista, nada, mas as impressões enganam. A partir do provérbio chinês "diga-me e esquecerei, mostre-me e lembrarei, e envolva-me e aprenderei", foi construída não só a base do programa educativo do museu, mas também boa parte de seu acervo. Aprender fazendo, além de apenas interagir e ver as exposições do museu, é o lema para os alunos de escolas públicas da Mangueira e das cercanias que visitam a instituição. Já o acervo e os depoimentos de sambistas trabalham no sentido oposto: partem da experiência do dia-a-dia, das rodas com os amigos, da informalidade que tanto caracteriza o samba, para gerar documentação e registro com o objetivo de reconhecer a importância desse que é o ritmo brasileiro por excelência.
 
Criado em 2001 como Centro Cultural Cartola, o Museu do Samba é uma organização cultural sem fins lucrativos criada para valorizar e estimular a cultura do samba em todas as suas manifestações e dimensões. Primeiramente, o objetivo dos fundadores da instituição era preservar a memória e a obra do compositor mangueirense. Com o tempo, foi-se percebendo a necessidade de resgatar e manter o legado não só do compositor, mas também de outras figuras fundamentais para a história do samba.
 
E então o Centro Cultural Cartola foi se transformando, entre 2009 e 2015, no Museu do Samba. Além de contribuir para o reconhecimento da identidade brasileira, por meio da promoção e multiplicação do legado e da história do samba, o museu ampliou seu escopo para a valorização da ancestralidade africana na sociedade brasileira e do samba como cultura, atuando com memória, acervo, salvaguarda, educação e cidadania.
 
E o que não falta é história. Apesar da informalidade com que a cultura do samba se desenvolveu desde os primórdios do ritmo, o acervo que o museu conseguiu reunir é vasto e tem por base o ingrediente principal dessa equação: os homens e mulheres que, mais do que partícipes, foram protagonistas na construção da memória e do legado do samba para o País.
 
"Ser sambista é um modo de vida e só quem tem a vivência do samba sabe. Por meio de registros audiovisuais e metodologia de história oral, nós utilizamos as histórias de vida dos protagonistas do samba no Brasil como fontes documentais", destaca Desiree do Santos Reis, gerente técnica do museu. O acervo do Núcleo de História Oral, por meio do Programa Memória das Matrizes do Samba no Rio de Janeiro, já conta com 140 depoimentos de personagens chave.
 
O museu também mantém três exposições permanentes, entre elas Samba: Patrimônio Cultural do Brasil, que exibe a trajetória do ritmo e presta uma homenagem aos fundadores das escolas de samba. Já a mostra Simplesmente Cartola, apresenta fotos, objetos e discografia que ilustram a vida e a obra do compositor. A exibição Dona Zica da Mangueira e do Brasil traz a biografia de Dona Zica, esposa e musa inspiradora de Cartola, que se tornou uma liderança no Morro de Mangueira e na escola de samba.
 
 

Lei Rouanet

Durante o ano de 2018, o museu contou com atividades complementares cuja organização foi possível apenas devido à captação de recursos via Lei Rouanet. Por meio do projeto Memória e Educação na Salvaguarda do Samba, o museu captou R$ 366 mil para atuar em três diferentes áreas: salvaguarda da memória do samba e de sua história; programa educativo; e oficinas de empreendedorismo e formação de agentes culturais.
 
No âmbito da salvaguarda, foram gravados mais 12 depoimentos para compor o acervo. O projeto educativo utilizou instrumentos musicais típicos de escolas de samba como interface entre os alunos e o museu. Outra atividade desenvolvida no âmbito do projeto educacional é a Vivência do Samba, com experimentação do mundo e do dia-a-dia do sambista pelas crianças.
A oficina de agente cultural do samba teve o objetivo de preparar os sambistas para que pudessem atuar de forma mais eficiente na organização de seus projetos. "A oficina ensina, por exemplo, como escrever um projeto para Lei Rouanet, porque para formatar um projeto, para fazer um orçamento para a Lei, tem que pensar com a cabeça de produtor. Envolve toda uma logística de público, é preciso pensar na divulgação", ressalta Janaína Reis Pinheiro, gerente administrativa do museu. 

Samba e violino

Outra iniciativa financiada com patrocínio via Rouanet foi o Orquestra de Violinos, para qual o museu conseguiu captar mais de R$ 1 milhão de reais em várias edições. O investimento valeu a pena. Nathan Amaral, que começou seus estudos de violino por meio do projeto, em 2016, foi admitido em primeiro lugar para estudar na Universidade de Salzburg, na Áustria, uma das mais importantes escolas de música europeias. 
 
Outros alunos, também oriundos do projeto do Museu do Samba, já estão tocando em orquestras. "Entrei para a música quando tinha de 13 para 14 anos e não me arrependo disso, pois está mudando a minha vida. Aproveito para agradecer aos meus professores. Foi uma experiência ótima", diz Juliane Souza (20), que atualmente toca na Camerata de Laranjeiras, na Orquestra de Rua e no Orquestra Villa-Lobos. Os irmãos Adriel (12) e Kelvin Kelcio (16) também iniciaram a carreira artística na orquestra Cartola, como o projeto foi chamado em algumas edições. Para Kelvin, "o projeto Cartola foi um dos primeiros de que eu pude participar e foi onde as portas se abriram... Foi essencial para a minha carreira musical, onde tudo começou", conclui. Em 2018, os irmãos fizeram turnê pela Noruega e Suécia. 

Seminário 

No último domingo (2), foi celebrado o Dia Nacional do Samba. Para estender a comemoração e aproveitar a data de 10 anos da titulação do samba como patrimônio cultural imaterial, no próximo sábado (8) será realizado o seminário Samba: Patrimônio do Brasil, em parceria com o Museu de Arte do Rio (MAR). No programa, mesas redondas e exibição de documentários. E, como não poderia deixar de ser, uma boa roda de samba no fim do evento, com o grupo Moça Prosa. A programação completa pode ser acessada no site do MAR
 
Assessoria de Comunicação 
Ministério da Cultura