Memória viva de antepassados é marca da obra Água de Barrela

14.10.2016 - 15:10   

Publicação foi a vencedora da edição de 2015 do Prêmio Oliveira Silveira, oferecido pelo Ministério da Cultura, por meio da Fundação Palmares (Foto: Acácio Pinheiro)
 
Imagine alguém que possui um baú cheio de tesouros no porão de casa, mas não tem ideia das preciosidades que guarda. É assim que a escritora Eliane Alves dos Santos Cruz, 50 anos, autora de Água de Barrela, se sente ao falar de seu primeiro livro. O romance conta a saga da família da autora desde sua origem, na África, até as relações constituídas no Brasil do século XIX. A publicação foi a vencedora da edição de 2015 do Prêmio Oliveira Silveira, oferecido pelo Ministério da Cultura, por meio da Fundação Palmares, com o objetivo de incentivar produções literárias que valorizem e deem visibilidade às manifestações culturais da população afro-brasileira.
 
Certo dia, enquanto pesquisava informações sobre seus antepassados, a negra de traços fortes e curiosidade extrema iniciou uma conversa com uma tia-avó esquizofrênica que mudou o rumo de sua história no universo das letras. As conversas entre a sobrinha-neta e a tia-avó tornaram-se mais frequentes e aos poucos Eliana Alves descobriu a existência, no passado, de uma relação entre a família dela e uma família poderosa e influente do recôncavo açucareiro baiano.
 
"Eu queria saber com quem minha tia-avó conversava, ria, brigava, sussurrava e se divertia sozinha. Levei cinco anos escrevendo porque não podia conversar com ela sempre. Algumas vezes estava estressada e outras, em crise", conta a autora. Água de Barrela começou a ser escrito em 2009 e foi finalizado em setembro de 2015. Sem poder andar, enxergar ou trabalhar, aos 96 anos, a idosa necessita de cuidados semelhantes aos dispensados a um bebê. Ela continua alternando entre momentos de extrema lucidez e os delírios causados pela doença.  
 
Entre uma conversa e outra, a tia-avó de Eliana começou a contar histórias que demonstravam a existência de uma forte convivência entre a família de abastados, a família da autora, a Princesa Isabel e Dom Pedro II. Eliana Cruz, que até então ainda não havia publicado nenhum livro, conseguiu remontar a história contada pela tia-avó e decidiu enfrentar o desafio de escrever seu primeiro romance. "Minha Bisavó nasceu em 1888, ano da abolição da escravatura no o Brasil, e viveu até os 104 anos. Algumas histórias que estão no livro são contadas por ela própria", revela Eliana.

Memória viva

A escritora acredita que, ao ler o livro, as pessoas começarão a se identificar com a história e a voltar-se para suas famílias com um olhar diferenciado sobre os mais velhos (Foto: Acácio Pinheiro)
 
A escritora conta que no início do projeto existia uma barreira a ser quebrada: um certo medo em abordar sua tia-avó por conta da esquizofrenia. A senhora, que na época estava com 91 anos, havia passado por situações difíceis. Foi internada, tomou choque elétrico, e até hoje tem sequelas da época em que recebeu esse tipo de tratamento. A autora precisou buscar ajuda de especialistas para verificar quais informações relatadas por sua tia-avó eram verdadeiras e quais eram fruto de alucinações.
 
"Tive de estudar a história da loucura para entender como funcionava o raciocínio de minha tia-avó. Comecei a me questionar até que ponto ela era louca e quem são os verdadeiros loucos na nossa sociedade. Ela tem noções de francês e uma percepção espantosa da realidade", conta Eliana. 
 
Aos poucos, Eliana ia verificando que as histórias de sua tia-avó eram verdadeiras e preciosas. Eram relatos de uma pessoa que viveu e presenciou fatos históricos e tem a memória viva do cotidiano da época, detalhes que não se consegue recuperar em livros didáticos. A pesquisa ganhou densidade e a autora revelou que sentiu-se na obrigação de escrever.
 
"Quando comecei a acessar essas memórias de minha tia-avó, foi muito difícil. Ela não dormia e ficava nervosa. Foi um trabalho delicado para separar o joio do trigo. Recorri a dois pesquisadores do recôncavo baiano para confrontar as informações passadas por ela. O professor Valter Fraga filho e Luis Cláudio Dias do Nascimento, o Cacau Nascimento, que hoje faz um doutorado cuja tese é sobre minha família", lembra.
 
A escritora acredita que, ao ler o livro, as pessoas começarão a se identificar com a história e a voltar-se para suas famílias com um olhar diferenciado sobre os mais velhos. Para pessoas com as quais muitos jovens não possuem contato, mas que são a base das raízes familiares. "Dar valor ao passado é importante para termos esperança de construirmos um futuro melhor. Se você não sabe de onde vem também não sabe para onde vai", acredita.
 
Durante a leitura, é possível perceber o que as personagens do livro precisaram enfrentar para que Eliana Cruz pudesse escrever esse livro. A valorização da educação era tudo para a família dela desde a época da escravidão, e seus antepassados fizeram de tudo para que futuras gerações não precisassem passar por humilhações. Para a trisavó de Eliana quem tinha conhecimento tinha poder, e por isso ela lutava para ter acesso à escola, aos livros, à música. Lutava para ter educação formal e cultural. 

Escrita florescente

"Estou com uma carreira de escritora deslanchando em função do prêmio Oliveira Silveira. Ele cumpriu o objetivo de descobrir um talento, uma aptidão", Eliane Cruz (Foto: Divulgação)
 
Eliana Alves dos Santos Cruz não era escritora, mas o prêmio recebido do Ministério da Cultura por meio da Fundação Palmares a motivou a escrever mais duas publicações. "Estou com uma carreira de escritora deslanchando em função do prêmio Oliveira Silveira. No meu caso, ele cumpriu o objetivo de descobrir um talento, uma aptidão por meio do incentivo do Ministério da Cultura e da Fundação Palmares", comemora Eliana Cruz.  
 
Uma espécie de continuidade de Água de Barrela está em fase inicial de pesquisa. Trata-se de uma história que acontece na mesma época, em paralelo, à narrativa do livro premiado. Aborda outros ramos da família da autora com alguns personagens que estão na história do primeiro livro, mas que não ocupam posição de destaque.
 
Há outro projeto em gestação, ainda no campo das ideias. Eliana teve sete poemas aprovados para a série Cadernos Negros, que traz textos com raízes ancestrais e que desenvolvem a reflexão poética sobre a vida e a cultura dos afro-brasileiros. A autora ainda não revelou qual será o futuro do trabalho com poemas.

 

Sobre o Prêmio Oliveira Silveira

O Prêmio tem o objetivo de incentivar produções literárias que valorizem e deem visibilidade às manifestações culturais da população afro-brasileira. A seleção premia obras literárias em português, inéditas, do gênero romance, que tenham por temática a cultura afro-brasileira. Na última edição, cinco autores foram selecionados. Cada um deles recebeu R$ 30 mil em prêmio, e teve sua obra impressa.

Foram premiadas as seguintes obras, do primeiro ao quinto lugar: Água de Barrela, de Eliane Alves dos Santos Cruz (Rio de Janeiro/RJ); Haussá 1815, de Júlio César Farias de Andrade (Comarca das Alagoas Rio Largo/AL); Sobre as vitórias que a história não conta, de André Luís Soares (Guarapari/ES); Sina Traçada, de Maria Custódia Wolney de Oliveira (Brasília/DF); e Sessenta e seis elos, de Luiz Eduardo de Carvalho (São Paulo/SP).
 
As propostas habilitadas foram avaliadas por uma comissão de seleção formada por representantes do MinC e da FCP e por, no mínimo, 10 integrantes da sociedade civil com reconhecida competência na área de Humanidades, com ênfase em literatura e cultura afro-brasileira. Cinco critérios foram levados em conta para escolha das obras a serem premiadas: criatividade, comunicabilidade, originalidade, estímulo à leitura e candidato autodeclarado negro.
 
As obras vencedoras foram lançadas no dia 15 de agosto de 2015, durante solenidade que abriu as comemorações do 27º aniversário da Fundação Cultural Palmares. As autoras e autores estiveram presentes para uma noite de autógrafos. A cerimônia foi realizada na sede da Fundação Cultural Palmares (FCP), em Brasília, e contou com a presença do Presidente da instituição, Erivaldo Oliveira, além de outras autoridades.
 
 
André Barreto
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura