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Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, é declarado Patrimônio Mundial

 
 
9.7.2017 - 13:10

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O Cais do Valongo, declarado neste domingo Patrimônio Mundial da Humanidade, é símbolo da dor de milhares de negros escravizados trazidos para o Brasil por mais de 300 anos (Foto: Oscar Liberal/Iphan)
 
 
O Comitê do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) aprovou, no início da tarde deste domingo (9/7), a candidatura do Sítio Arqueológico do Valongo como Patrimônio Mundial. A votação, ocorrida durante a reunião do Comitê realizada na cidade de Cracóvia, na Polônia, marca o fim de um relevante processo de reconhecimento do bem, iniciado em 2015 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), entidade vinculada ao Ministério da Cultura (MinC). Valongo é símbolo da dor de milhares de negros escravizados trazidos para o Brasil por mais de 300 anos. 
 
Presente à reunião de Comitê do Patrimônio Mundial, o diretor do Departamento de Promoção Internacional (Deint) do Ministério da Cultura, Adam Muniz, afirmou que tanto o MinC quanto o Iphan acreditavam na aprovação da candidatura. "Desde o primeiro momento, estávamos muito confiantes, uma vez que o parecer técnico do Conselho Internacional sobre Monumentos e Sítios (Icomos), que assessora a Unesco em bens culturais, foi positivo com recomendação de inscrição do Cais do Valongo na Lista do Patrimônio Mundial", disse. 
 
De acordo com Adam, a aprovação por parte do Comitê ocorreu sem ressalvas, com base exclusivamente no critério que diz respeito à relação do bem com eventos de notável significado universal, neste caso o tráfico negreiro e a escravidão. "O Sítio Arqueológico do Valongo integra agora um singular conjunto de bens tombados exclusivamente nesse preceito, entre os quais está Auschwitz, uma rede de campos de concentração no sul da Polônia, e Hiroshima, cidade japonesa vítima de bombardeio atômico na Segunda Guerra Mundial", explicou. 
 
O ministro interino da Cultura, João Batista de Andrade, comemorou a vitória da candidatura e assegurou que o MinC está empenhado em garantir que a memória do Cais do Valongo seja preservada. "Estamos trabalhando, em parceria com a Prefeitura do Rio de Janeiro, para que seja criado o Museu da Escravidão e da Liberdade, que vai receber as mais de 500 mil peças encontradas no Sítio Arqueológico Cais do Valongo. O reconhecimento é importante não apenas para a cidade do Rio de Janeiro, mas para o Brasil e, sobretudo, para a nossa história", declarou. O Sítio Arqueológico Cais do Valongo, localizado na Praça Jornal do Comércio, é gerido pela Prefeitura Municipal da cidade do Rio de Janeiro e conta com a fiscalização do Iphan.  
 
Em seu discurso de agradecimento, a presidente do Iphan, Kátia Bogéa, ressaltou que, em momentos de elevada intolerância, o reconhecimento de sítios sensíveis coloca em evidência a necessidade de compartilhar a experiência brasileira em prol de uma visão mais humanista da sociedade global. "É fundamental observarmos o que o Cais do Valongo significou, bem como sua reapropriação social nos dias atuais, em especial pelos descendentes afro-brasileiros, que em uma atitude de superação reafirmam sua negritude e sua história para o Brasil, as Américas e todo o Mundo", afirmou.
 
Kátia Bogéa lembrou ainda a importância da decisão do Comitê do Patrimônio Mundial para a cidade do Rio de Janeiro, a primeira do mundo a receber o título de Patrimônio Mundial como Paisagem Cultural Urbana e que, agora, passa a figurar, também, pela sua história. "No contexto da escravidão, o Rio traz consigo o triste título de maior porto escravagista da história. No entanto, apesar disso, apresenta-se igualmente como local onde a contribuição trazida pelos africanos encontra uma das maiores expressões, matizadas pela mestiçagem inerente ao ser brasileiro, significando, portanto, um fundamental avanço no sentido da valorização da matriz africana na cidade, no país e na região", enfatizou.
 
De acordo com a presidente do Iphan, o Cais do Valongo é considerado o mais contundente lugar de memória da chamada Diáspora Africana fora do seu continente de origem, "testemunho material irrefutável do tráfico atlântico de africanos escravizados, hoje justamente considerado crime contra a Humanidade".
 
Memória sensível
 
Em 2011, durante as escavações realizadas como parte das obras de revitalização da Zona Portuária do Rio de Janeiro, no período que antecedeu os Jogos Olímpicos de 2016, foram descobertos dois ancoradouros, Valongo e Imperatriz, contendo uma quantidade enorme de amuletos, anéis, pulseiras, jogo de búzios e objetos de culto provenientes do Congo, de Angola e de Moçambique. Até mesmo calçados, botões feitos com ossos e outros achados raros foram encontrados na ocasião.  
 
O Cais do Valongo passou a integrar o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, que destaca símbolos da cultura afro-brasileira da região portuária do Rio de Janeiro. Ao lado do Jardim Suspenso do Valongo, Largo do Depósito, Pedra do Sal, Centro Cultural José Bonifácio e Cemitério dos Pretos Novos, o Sítio Arqueológico Cais do Valongo tem dimensão material e imaterial.  A tragédia do tráfico de africanos, fortemente representada pelo Cais do Valongo, guarda a chamada "memória sensível", que é a materialidade da dor e do medo vivido pelos seres humanos, assim como sua capacidade de sobrevivência. A memória sensível é uma lembrança vívida das consequências da negação da dignidade humana implícita no processo de escravização.
 
Por todo seu contexto, em 20 de novembro de 2013, data em que se celebra o Dia da Consciência Negra, o Cais do Valongo foi declarado Patrimônio Cultural da cidade do Rio de Janeiro, por meio do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH). No mesmo período, representantes da Unesco passaram a considerar o sítio arqueológico como parte da Rota dos Escravos, sendo o primeiro lugar no mundo a receber esse tipo de reconhecimento. Ambos eventos reforçaram a candidatura do Cais do Valongo a Patrimônio da Humanidade.
 
Povos escravizados
 
O tráfico de escravos vindos do continente africano foi responsável por um dos maiores deslocamentos populacionais da humanidade, sendo que o Brasil foi o destino de pelo menos 40% dos negros trazidos para as Américas. Entre os séculos 16 e 19, mais de 12,5 milhões de africanos foram levados para as Américas e para a Europa - período que registrou a morte de mais de 1,8 milhão de escravos somente na travessia entre oceanos. Pela cidade do Rio de Janeiro passaram 60% dos negros escravizados nas Américas, sendo o porto que recebia a maior quantidade de cativos, das mais variadas etnias. 
 
Em meados do século 19, a escravatura intensificou, no Brasil, o tráfico de crianças, consideradas à época mais maleáveis e resistentes às travessias em navios negreiros. Com a ideia de que jovens teriam mais tempo de vida útil para o trabalho, o mercado do tráfico foi responsável pela vinda de 780 mil crianças. No Rio de Janeiro, um em cada três escravos era criança. 
 
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura