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Cultura, arte e ensinamentos de pai para filho

 
 
11.8.2017 - 14:45  
Do ensinamento "natural" às aulas profissionais, Jairzinho (direita) afirma que o pai Jair Rodrigues (esquerda) sempre esteve presente com o seu legado, estímulos e certeza (Foto: Divulgação)
 
 
"O melhor professor que existe é o que te inspira. E, nesse aspecto, ele foi um grande professor." A declaração de Jair Oliveira dá pistas sobre o aprendizado que o artista teve ao longo da vida, ao lado do pai, o cantor Jair Rodrigues (1939-2014). Multi-instrumentista, compositor, arranjador e intérprete, Jairzinho, como é mais conhecido, cresceu em um ambiente musical e suspeitou, desde cedo, que a estimulante música do núcleo familiar iria romper barreiras e acompanhá-lo em uma trajetória profissional que revela requintes de cumplicidade. As várias frentes de trabalho do filho trazem a marca da leveza do pai. Pois foi com ele que o envolvimento com a música se forjou assim, "de um jeito respeitoso e genuíno."
 
"Foi da maneira mais natural possível, meus pais sempre fizeram questão de nunca forçar nenhuma barra", conta. Hoje pai de duas filhas, Jair Oliveira defende a linguagem artística como complemento da educação. E, no caso dele, o apelo dessa linguagem chegava a substituir a interação com as pessoas da mesma idade. "A partir de certo momento, meu pai começou a ver que deveria me levar nas gravações e nos ensaios porque eu tinha um grande interesse. Deixava de brincar com os amigos na rua para acompanhar os ensaios com ele."
 
Do ensinamento "natural" às aulas profissionais, Jair Oliveira afirma que o pai sempre esteve presente com o seu legado, estímulos e certezas. O músico conta que, certa vez, depois de uma longa viagem a trabalho, o pai continuava a cantoria. A mãe, cansada, "deu um pito". O velho ficou ressabiado e Jairzinho perguntou: "Pai, se você não fosse cantor, seria o quê?". No que o seu Rodrigues respondeu: "Eu ia tentar ser". "Meu pai era o que ele acreditava, não existia uma segunda opção", diz.
 
Tamanha serenidade no olhar e no sorriso de Jair Rodrigues – este último, uma notória marca do cantor – se sobressaiu até nos momentos finais da vida do compositor e intérprete. O filho costuma dizer que, quando o pai se foi, veio uma alegria surpreendente, aquela de saber que ele de fato viveu a vida. "Pra mim, Jair Rodrigues foi um ensinamento na vida e na morte. Como lidar com a morte de uma pessoa que exalou alegria o tempo inteiro? Ele deixou esse legado de alegria, humildade e satisfação com a vida."
 
Na noite do velório do pai, Jairzinho conta que decidiu "conversar com ele musicalmente". Emocionalmente cansado, sentou-se sozinho no estúdio e saiu acalentado, acompanhado de uma canção logo batizada de "Sorriso". Em versos, agradece: "É... A vida é tão frágil; E o tempo é tão ágil; Que a gente nem vê passar (...) Então sorri com força; Sorri com vontade; Sorri pra vida; Pra ela te sorrir de verdade; Obrigado por teu Sorriso". 
 
De mão em mão 
 
Geraldo e Mário Teles compartilham a paixão pelas esculturas (Foto: Museu G.T.O.)
 
Um universo fantástico, com centenas de figuras humanas que se repetem e se encaixam como peças únicas do imenso quebra-cabeça que é a vida. Assim o mineiro de Divinópolis Mário Teles revela sua arte e sua ascendência. O pai, Geraldo Teles de Oliveira (1913-1990), foi trabalhador rural, fundidor e vigia noturno até se dedicar à escultura. O filho conta que foi em sonho que pai teve a revelação do entalhe e, sem nunca ter feito nenhum trabalho artístico, começou a desbastar peças de madeira. Nessa feita, já passava dos 50 anos.
 
"Toda vida eu gostei de desenhar, fazer brinquedo de criança. Então comecei a ajudar meu pai e ele disse: leva jeito", conta Mário, hoje com 75 anos. O filho segue a tradição iniciada peculiarmente pelo pai, esculpindo peças que abordam temas folclóricos e musicais de Minas Gerais, "toda a expressão de arte popular da região". Além das benquistas semelhanças, o artista destaca diferenças nos trabalhos de ambos. "O meu pai, por ter aquela tradição, aquele manejo, fazia trabalho mais rústico, mais primitivo, nunca tinha visto ninguém trabalhar com arte... Meu trabalho é mais estético", explica Mário.
 
Desenvolvido nos fundos da casa onde hoje funciona o Museu G.T.O., em Divinópolis, o trabalho de Mário ainda perpetua traços da linguagem universal de seu Geraldo, conhecido por apresentar imagens de grande equilíbrio e unidade formal, como as chamadas "Rodas Vivas". Para o filho, os ensinamentos paternos são valiosos para a continuidade do trabalho e a possibilidade de criação de novas linguagens: "Era coisa simples, meu pai dizia pra nunca trabalhar em madeira ruim e pra aproveitar o tempo enquanto se tem saúde. Precisa mais o quê?", comenta, engatando uma risada. Acompanhado de cedro, mogno e jacarandá, Mário segue entalhando, sem pensar em interromper o onírico destino: "Parece que quanto mais a gente entalha, mais a gente quer entalhar. É uma luz divina que ilumina."
 
Em cores e barro
 
Assim como o pai Antônio Poteiro, Américo começou nas artes pela cerâmica (Foto: Marcelo Dischinger)
 
"Arte não é perfeição, é criação", defende o ceramista e escultor Américo Poteiro. É com base nesse pensamento que o artista imprime a sua identidade em telas e esculturas. Filho do português Antônio Batista de Souza (1925-2010), apelidado de Antônio Poteiro pela folclorista Regina Lacerda, Américo se expressa na linha tênue entre a herança e a inovação artística. O pai imigrou com a família para São Paulo em 1926, instalando-se mais tarde em cidades de Minas Gerais e, por fim, em Goiânia (GO).
 
No Brasil, Poteiro desenvolveu o trabalho de ceramista e pintor, abordando temas que vão da fauna pantaneira à religião. Ao participar de um grande número de exposições internacionais, tornou-se um conhecido e apreciado artista no exterior. Nesse período, o filho Américo tornou-se o principal empresário de Poteiro, viajando com o pai e conhecendo o trabalho de outros mestres. "No início, eu não queria mexer com arte e cheguei a fazer o primeiro ano de Administração de Empresas", conta Américo. "Mas fui conhecendo, me interessando, estudando matéria-prima. Quando vi, já sabia preparar o barro. Meu pai me estimulou a continuar, dizia para ir em frente, que eu tinha criação." Foi quando Américo arregaçou as mangas, colocou a mão no barro e seguiu ao encontro do artista. 
 
A comparação com o pai é inevitável. "Não deixa de ter influência, mas o meu mundo é totalmente diferente do dele; as ideias são outras." Américo revela que se apaixonou pelo universo das cores e, atualmente, produz mais de 120 delas para as telas. Ainda assim, o trabalho com a pintura surgiu apenas depois da trajetória como ceramista e do encerramento da produção paterna. "Sempre fui um grande colorista, mas só consegui começar a pintar dois anos depois da morte do meu pai. Tinha receio de competir com ele", afirma o artista. Passado o tempo, Américo sente-se livre para criar em seu ateliê, localizado no Instituto Antonio Poteiro, em Goiânia. "Fica o convite pra vir conhecer meu ateliê, em uma chácara familiar. Aliás, minha família portuguesa tem tradição ceramista e, no fundo, eu sempre estive envolvido, atento, com os olhos abertos. Fui o grande observador da arte do meu pai."
 
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