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Ganhador do Prêmio Camões, Manuel Alegre nasceu na cidade portuguesa de Águeda

 
 
08.06.2017 - 19:15  
 
 
 
Ganhador do Prêmio Luís Camões 2017, anunciado nesta quinta-feira (8), no Rio de Janeiro (RJ), Manuel Alegre nasceu em Águeda, Portugal, em 1936. Foi o primeiro português a receber o diploma de membro honorário do Conselho da Europa. Entre outras condecorações, recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (Portugal), a Comenda da Ordem de Isabel a Católica (Espanha) e a Medalha de Mérito do Conselho da Europa.
 
Como poeta, "começou a destacar-se nas coletâneas Poemas Livres (1963-1965). Mas o grande reconhecimento nasce com os seus dois volumes de poemas, Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967), apreendidos pelas autoridades antes do 25 de Abril, mas com grande circulação nos meios intelectuais".
 
"O Canto e as Armas" é "o livro de uma geração, mas também um livro que se prolongou no tempo, enquanto voz de esperança numa pátria livre, e de denúncia da opressão política da ditadura salazarista, da guerra colonial, da emigração e do exílio a que muitos portugueses, como o próprio poeta, foram condenados", assinalou o grupo editorial LeYa, em abril último, quando do lançamento da edição comemorativa dos 50 anos desta obra.
 
Passou 10 anos exilado em Argel, e sua voz ao microfone da rádio "A voz da liberdade" converteu-se num símbolo de resistência e liberdade. Seis poemas, cantados por muitos músicos portugueses, tornaram-se emblemáticos da luta pela liberdade. Em maio de 1974, voltou a Portugal e entrou no Partido Socialista onde, ao lado de Mario Soares, promoveu grandes mobilizações populares que consolidaram a democracia e a aprovação da Constituição de 1976.
 
Foi deputado, vice-presidente da Assembleia da República e candidato a presidente em 2011. É uma personalidade muito prestigiada e muito bem considerada, mesmo por aqueles que não são da sua família política. Sua estreia na ficção foi em 1989,  com Jornada de África, e hoje tem uma vasta obra literária, traduzida e publicada em diversos países".

Unanimidade
 
O nome de Manuel Alegre foi trazido ao júri do prêmio Camões pela professora portuguesa Paula Morão, que justificou a escolha pelo conjunto de sua obra e sua relevância literária. No ano anterior, o nome do poeta já havia sido proposto e agora foi escolhido por unanimidade.
Manuel Alegre começou a publicar poesia nos anos 60 – celebram-se agora 50 anos do livro "O Canto e as Armas".
 
Para Paula Morão, o poeta, ao longo de toda a sua vida, publicou poesias com grande coerência e num crescendo de profundidade, e tem uma relação muito próxima, não só com clássicos da literatura portuguesa como Camões, mas da literatura internacional. Há alguns anos entrou na ficção com fundo autobiográfico, mas que vai pelo lado da circunstancia individual da sua vida. "É uma obra de altíssima qualidade, com romances e contos", ressalta Paula Morão. 
 
Abaixo, um texto de Manuel Alegre sobre ele mesmo:

Quase um auto-retrato

Aos vinte e poucos anos escrevi: "meu poema rimou com a minha vida". Era ainda muito cedo, não sei sequer se é verdade, embora muitas coisas me tivessem já acontecido: amores, partidas, guerra, revoltas, "prisões baixas". O que mais tarde me levaria a dizer: "biografia a mais". Muito antes, lá pelos vinte, tinha lido uma frase de André Gide que me impressionou. Dizia ele: "a análise psicológica deixou de me interessar desde o dia em que cheguei à conclusão de que cada um é o que imagina que é." Até que ponto sou o que me imaginei ser? Se soubesse pintar (mas não sei) faria o meu auto-retrato a olhar para ontem, ou para dentro, ou para outro lado. Distraído-concentrado, presente-ausente, um não sei quê.
 
Acusam-me de altivez e narcisismo. É sobretudo reserva, timidez e uma incapacidade física de praticar uma certa forma portuguesa de hipocrisia e compadrio. Ou talvez um tique que herdei de família: levantar a cabeça, olhar a direito.
 
Tenho desde pequeno a obsessão da morte. Não o medo, mas a consciência aguda e permanente, sentida e vivida com todo o meu ser, de que tudo é transitório e efémero e não há outra eternidade senão a do momento que passa. Talvez por isso seja um homem de paixões. Mas não vivi nunca póstumo, nem me construí literariamente. Sei que nenhum verso vence a morte. E não acredito sequer na literatura.
 
Na poesia, sim. Mas como ritmo, como música interior, canto e encanto, incantação, exorcismo, uma forma de relação mágica com o mundo. A um professor brasileiro que trabalhava numa tese sobre mim, respondi: "Escrita e vida são inseparáveis. Embora eu entenda a poesia como experiência mágica, algo que está aquém e além da literatura."
 
Penso, como Teixeira de Pascoais, que "o ritmo é a substância das cousas" e que "a poesia nasceu da dança." Talvez por isso eu goste de flamenco, a música e a dança que estão mais perto do ritmo primordial, da batida do coração e da própria pulsação da terra. Gosto de flamenco e de um certo tipo de fado e dos tangos de Francisco Canaro. E também de Bach e Mozart. Pelas mesmas razões: o ritmo. E da poesia de Lorca que, ao contrário de ideias feitas, nada tem de folclórico ou regionalista, antes se aproxima das energias primitivas e essenciais e é quase, como diria ainda o autor de Marânus, "um bailado de palavras."
 
Não sei se, como queria Rimbaud, consegui fazer "coincidir a essência da poesia com a existência do poema." Cantei, canto. Demanda, errância. Não há senão esse procurar. Na vida, na escrita. Quando faço aquilo de que gosto, faço-o intensamente. A pesca, por exemplo. Ou a viagem. Ou a partilha: um bom jantar em família com alguns amigos, uma reunião conspirativa, a camaradagem na nunca perdida ilusão de que a revolução ainda é necessária e possível.
 
Diria que é outra forma de escrita. Intensa, densa, tensa. Como o amor. E talvez a morte.
 
Herdei de minha mãe uma certa energia, o gosto da intervenção. De meu pai, o desprendimento, uma irresistível e por vezes perigosa tendência para o desinteresse. Inclusivamente pelos bens materiais. Não é por acaso que só me prendo realmente ao que poderia chamar as minhas armas: espingardas propriamente ditas, "gostei muito de caçar", canas de pesca, carretos, canetas, livros (alguns livros), discos. Os grandes espaços: o deserto, o Atlântico, o Alentejo. E sítios. Certas cidades. Outrora agora: Coimbra, Paris, Roma, Veneza, Lisboa. Certos lugares: o Largo do Botaréu, em Águeda, o rio, a ria (de Aveiro), Barra, Costa Nova. Mais recentemente: Foz do Arelho, Barragem de Santa Clara. Certos recantos: a minha casa de Águeda, o solar, já perdido, da minha avó, em S. Pedro do Sul, as casas da minha tia e meus primos na Anadia, a casa de Sophia, a minha casa em Lisboa. A minha mulher, os meus filhos, a minha irmã, os meus amigos. Uma grande saudade dos que morreram, principalmente de meu pai, a quem, por pudor e reserva (somos parecidos), nunca cheguei a dizer em vida o que gostaria de lhe dizer aqui.
 
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