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POLÍTICAS PÚBLICAS: CULTURA E DIVERSIDADE
Pronunciamento do Secretário Sergio Mamberti na IV Conferência de Educação e Cultura na Câmara dos Deputados (*)
O
conceito de Diversidade Cultural é fator fundamental para a construção
contemporânea das Políticas Públicas, especialmente nas áreas da
Cultura e das Políticas Sociais. A Declaração Universal sobre a
Diversidade Cultural e os atuais esforços que desenvolvemos no âmbito
da UNESCO, em torno de uma futura Convenção Internacional sobre a
proteção e promoção da Diversidade Cultural evidenciam a centralidade
dessas discussões. Os direitos culturais
fazem parte dos direitos humanos e a dimensão cultural é indispensável
e estratégica para qualquer projeto de desenvolvimento. Segundo a
Declaração Universal da Diversidade Cultural, os indivíduos e grupos
devem ter garantidas as condições de criar e difundir suas expressões
culturais; o direito à educação e à formação de qualidade que respeite
sua identidade cultural; a possibilidade de participar da vida cultural
de sua preferência e exercer e fruir suas próprias práticas culturais,
desde que respeitados os limites dos direitos humanos. O direito à
diferença, e à construção individual e coletiva das identidades através
das expressões culturais é elemento fundamental da promoção de uma
cultura de paz. O reconhecimento e a
valorização da diversidade cultural estão ligados à busca da
solidariedade entre os povos, à consciência da unidade do gênero humano
e ao desenvolvimento dos intercâmbios culturais. Os processos de
globalização e/ou mundialização, caracterizados pela rápida evolução
das tecnologias da informação e da comunicação constituem hoje desafios
para a preservação e promoção dessa diversidade, criando
condicionamentos e ameaçando o diálogo permanente entre culturas,
civilizações ou grupos sociais. Por
outro lado, é fundamental o respeito, a valorização e o convívio
harmonioso das diferentes identidades culturais existentes dentro dos
territórios nacionais. O conceito de diversidade cultural nos permite
perceber que as identidades culturais nacionais não são um conjunto
monolítico e único. Ao contrário, podemos e devemos reconhecer e
valorizar as nossas diferenças culturais, como fator para a
coexistência harmoniosa das várias formas possíveis de brasilidade. Como
o respeito a eventuais diferenças entre os indivíduos e grupos humanos
é condição da cidadania, devemos tratar com carinho e eficácia da
promoção da convivência harmoniosa, dos diálogos e dos intercâmbios
entre os brasileiros – expressos através das diversas linguagens e
expressões culturais, para a superação da violência e da intolerância
entre indivíduos e grupos sociais em nosso país.No
plano das relações internacionais, os Ministérios da Cultura e das
Relações Exteriores têm trabalhado em conjunto em prol da chamada
Convenção da UNESCO sobre Diversidade Cultural, através da qual os
países assumirão uma série de compromissos em torno da promoção e da
proteção da diversidade cultural. É fundamental que os mecanismos
ativos de política cultural sejam fortalecidos no nível das relações
internacionais. Para o
Governo brasileiro, proteger e promover as expressões culturais em sua
diversidade é direito legítimo dos cidadãos, da sociedade civil e dos
estados nacionais. A Secretaria
da Identidade e da Diversidade Cultural, além de participar da
construção da agenda internacional sobre Diversidade Cultural, colabora
na estruturação das políticas culturais no Brasil a partir do conceito
de Diversidade Cultural, o que nos coloca outros dois desafios. O
primeiro é o entendimento do conceito de Diversidade Cultural no
contexto da cultura brasileira, trabalhado de maneira transversal aos
segmentos governamentais e da sociedade civil.Outro
desafio é o de estabelecer diálogos com grupos e redes culturais
representativas da Diversidade Cultural brasileira ainda excluídos do
acesso aos instrumentos de política pública de cultura e contribuir
para o aperfeiçoamento dos mecanismos de proteção e promoção da nossa
Diversidade Cultural.Primeiro Desafio - Identidade e Diversidade Cultural no Contexto BrasileiroA
idéia Moderna de Cultura está, desde seu surgimento, associada à idéia
de diversidade, passando a reunir na mesma noção a tradição humanista
de cultivo das realizações consideradas superiores do espírito humano
nas artes e ciências e a nova valorização, de raiz iluminista, da
diversidade de costumes e crenças dos povos como via para o
conhecimento humano. A Cultura no sentido moderno ao mesmo tempo seria
o conjunto de expressões do espírito ou gênero humano e das expressões
singulares da humanidade. Podemos descrever a história da cultura
moderna pela evolução das tensões entre o que hoje chamaríamos de
tendências globalizantes e as expressões singulares dos indivíduos,
grupos ou povos. As sociedades
ocidentais em geral e o Brasil em particular passam por transformações
desde o final do século XX, colocando em crise as noções Modernas de
Cultura e de Identidade Cultural. 1 - O
reconhecimento de situações específicas derivadas das distinções de
classe ou do mundo do trabalho (identidades de trabalhadores do campo
ou da cidade, estudantes, etc); 2 -
situações de gênero ou orientação sexual, reveladas pelos movimentos de
mulheres e os movimentos de gays, lésbicas, trans gêneros e bissexuais;
3 - reconhecimento de direitos a partir da situação etária, como os idosos, jovens e crianças; 4
- o reconhecimento de desigualdades derivadas da situação étnica, como
as dos afro-brasileiros, dos povos indígenas ou de imigrantes de várias
origens e a necessidade da valorização das diversas expressões
culturais ligadas a estes traços identitários. No caso brasileiro, é
necessário reconhecer e dar maior visibilidade às expressões ligadas às
diversas etnias e povos, além dos tipos mestiços e de expressões
resultantes dos processos de miscigenação. Como
elementos específicos ao processo cultural brasileiro, podemos apontar
outros três elementos que tensionam as categorias utilizadas para a
formulação de nossa visão sobre o processo cultural e sobre as
políticas públicas de cultura: - O
primeiro é o tratamento contraditório e insuficiente em relação às
expressões das Culturas Populares. Há um reconhecimento do poder
criativo do povo brasileiro na incorporação de elementos populares como
símbolos da Identidade Cultural Brasileira, tais como o samba a
feijoada ou carnaval. Porém, nunca houve um tratamento equilibrado
entre os incentivos às expressões das Cultural Populares (sejam as
tradicionais ou as novas e urbanas como o Hip-hop) e os mecanismos de
proteção e fomento às manifestações artísticas e das indústrias
culturais. As culturas populares sempre sofreram o mesmo processo
discriminatório que as classes menos favorecidas, detentoras desse rico
acervo cultural.
- O segundo
elemento diz respeito às dificuldade de reconhecimento das chamadas
expressões culturais locais ou regionais da cultura brasileira. Na
linguagem cotidiana reconhecemos as peculiaridades de culturas típicas,
tais como a cultura nordestina, pantaneira ou gaúcha. Mas este tema é
tratado de maneira insuficiente nos processos de formulação de
políticas públicas.
- Finalmente,
um terceiro elemento é a questão da indução à produção cultural
descentralizada. Assim como para o Brasil é vital que haja proteção e
estímulo à produção e difusão de conteúdos nacionais através da
limitação ao capital estrangeiro na propriedade dos meios de
comunicação, é necessária a regulação da área de audiovisual e o
estímulo à produção e difusão descentralizadas, além do fortalecimento
dos intercâmbios culturais entre os diversos rincões brasileiros,
através de mecanismos como os dispostos no conhecido projeto
apresentado pela Deputada Jandira Feghalli.
Gostaria
de destacar aqui a interface especial que o conceito de Diversidade
Cultural produz nos processos educacionais e das relações entre a
produção cultural e o espaço da escola. A importância deste tema foi
reconhecida pelo Ministério da Educação na atual gestão, através da
criação de uma secretaria específica. A
escola é um espaço público em que cada um – aluno ou professor –
relaciona-se no cotidiano com o outro, com o diferente. A escola é um
espaço da construção e reconstrução simbólica, e os profissionais da
educação são também profissionais da cultura. A reflexão sobre a
diversidade cultural é questão central para a qualificação das práticas
dos profissionais da educação, especialmente em relação ao conhecimento
sobre os grupos sociais dominados e excluídos. É fundamental para um
projeto democrático, que os cidadãos brasileiros sejam formados com o
respeito e com a convivência dos diferentes grupos sociais como uma
maneira de superar o preconceito. Segundo Desafio – Ampliação dos diálogos e apoios aos Grupos e Redes que fazem a Diversidade Cultural BrasileiraNo
primeiro ano do Governo Lula o Ministério da Cultura promoveu um
processo de reestruturação interna, através do qual foi criada a
Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural, para a qual fui
designado titular pelo Ministro Gilberto Gil. A Secretaria da
Identidade e da Diversidade Cultural está incumbida de promover e
apoiar as atividades de incentivo à diversidade cultural como meios de
promoção da cidadania. Na revisão do PPA
Plano Brasil de Todos, foi aprovada a criação do Programa Brasil Plural
– Identidade e Diversidade Cultural, com o objetivo de “garantir que os
grupos e redes responsáveis pelas manifestações características da
diversidade cultural brasileira tenham acesso aos mecanismos de apoio
necessários à valorização de suas atividades culturais, promovendo o
intercâmbio cultural entre as regiões e grupos culturais brasileiros,
considerando características identitárias por gênero, orientação
sexual, grupos etários, étnicos e das culturas populares.”A
atuação da Secretaria em relação à promoção de diálogos com segmentos
da comunidade cultural e aperfeiçoamento institucional pode ser
exemplificada na ação em relação às manifestações das Culturas
Populares. Por diversas razões, os artistas e grupos responsáveis pelo
riquíssimo conjunto de expressões culturais populares têm grande
dificuldade de obter apoios, seja através de projetos beneficiados por
incentivo fiscal bem como àqueles apoiados pelo Fundo Nacional de
Cultura. Em conjunto com a Secretaria de
Políticas Culturais e outros órgãos vinculados ao Ministério da
Cultura, como a Fundação Cultural Palmares, o Centro Nacional de
Folclore e Cultura Popular do IPHAN e a FUNARTE, bem como em parceria
com Fóruns da Sociedade Civil de Culturas Populares do Rio de Janeiro e
de São Paulo, articulamos o maior número possível de representantes das
inúmeras expressões culturais populares em um Primeiro Seminário
Nacional de Políticas Públicas para as Culturas Populares. Foram 15
oficinas preparatórias e a etapa nacional será aberta hoje, na sede da
Funarte em Brasília com duração prevista até o dia 26 próximo. Os
debates já realizados forneceram algumas demandas por parte destes
segmentos da comunidade cultural e entendemos que, além da necessidade
de fortalecer os mecanismos de proteção e preservação ligados à
política patrimonial, devemos direcionar recursos do Fundo Nacional de
Cultura para apoiar projetos que fortaleçam a atividade desses artistas
e grupos. Através de Editais de Fomento
às Expressões das Culturas Populares, em parceria com a Secretaria de
Fomento e Incentivo à Cultura do MinC, queremos dar melhores condições
para que os artistas das culturas populares sejam sujeitos das
políticas culturais como são, por exemplos, os profissionais ligados ao
teatro ou ao cinema. Essa
estratégia participativa de ampliação dos diálogos entre o Ministério
da Cultura e segmentos responsáveis pela diversidade cultural
brasileira com dificuldade de acesso aos mecanismos federais de
incentivo à cultura é principal contribuição institucional da
Secretaria ao processo da formulação e implementação de políticas
públicas de cultura. Três outros
exemplos dessa maneira participativa de trabalho estão nos diálogos e
apoios à Rede Cultural Estudantil – com a parceria estratégica com a
UNE, a Rede Cultural da Terra – com parceria estratégica com o
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e o Grupo de Trabalho para
Políticas Culturais ligadas às identidades Gay, Lésbicas, Trangêneros e
Bissexuais. Na nossa visão estratégica ainda temos os desafio de
construir espaços de participação e instrumentos de fortalecimento de
expressões ligadas aos povos indígenas, às novas expressões populares
urbanas – como, por exemplo, o Hip Hop ou a Capoeira – que, por
incrível que pareça, não é plenamente reconhecida pelas Políticas
Públicas de Cultura – bem como às redes ligadas às expressões de
trabalhadores urbanos e das populações ribeirinhas e litorâneas, além
de apoiar projetos ligados aos direitos culturais das crianças e
adolescentes. Finalmente, outro desafio
colocado no horizontes desta gestão é o lançamento de novos projetos e
estudos de mapeamento da Diversidade Cultural, em complemento aos
instrumentos da política patrimonial a cargo do IPHAN. É
necessário conhecer as nossas expressões culturais, pois só se pode
gostar daquilo que se conhece. E é direito dos cidadãos brasileiros
conhecerem e usufruirem as riquezas da Diversidade Cultural Brasileira.
Muito Obrigado. (*)
Texto redigido por Álvaro Magalhães a partir de debates internos na
SID/MinC, especialemente com Ricardo Lima e Sérgio Mamberti.
Diversidade Cultural Brasileira
Seminário Diversidade Cultural Brasileira 2004
Seminário Nacional de Políticas Públicas para as Culturas Populares
Artigos sobre o Seminário Nacional de Políticas Públicas para as Culturas Populares
Edital das Paradas do Orgulho GLTB 2005
Relação dos Projetos que atenderam à convocação do Edital das Paradas do Orgulho GLTB 2005
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