Somos mestiços. Não apenas etnicamente mestiços. Somos culturalmente mestiços. Dançando o Aruanã sob a lua; rezando numa capela de Nossa Senhora de Chestokova ; curvados sobre a almofada da renda de bilros… Somos mestiços. Não apenas etnicamente mestiços. Somos culturalmente mestiços. Dançando o Aruanã sob a lua; rezando numa capela de Nossa Senhora de Chestokova ; curvados sobre a almofada da renda de bilros; trocando objetos e valores no Moitará; depositando ex-votos aos pés dos nossos santos; sambando na avenida; contemplando a pedra barroca tocada pela eternidade do Aleijadinho; dobrando a gaita numa noite de frio, no sul; tocados pela décima corda da viola sertaneja; possuídos pelo frevo e o maracatu ns ladeiras de Olinda e Recife; atados à corda do Círio de Nazaré; o coração de tambores percutindo nas ruas do Pelourinho ou no sapateado do cateretê; girando a cor e a vertigem do Boi de Parintins e de São Luiz; digerindo antropofagicamente o hip-hop no caldo da embolada ou do jongo. Somos irremediavelmente mestiços. A lógica da homogeneização nos oprime. Por isso gingamos o corpo, damos um passe e seguimos adiante como num drible de futebol ou numa roda de capoeira que, sem deixar de ser luta, tem alma de dança e de alegria. Como formular um projeto de Políticas Públicas de Cultura, que contemple esse mosaico imperfeito? Como abrir janelas e portas e dizer: ‘Brasil, mostra a tua cara!’, como na canção de Cazuza? (Projeto ‘Imaginação A Serviço do Brasil’)
Brasis
A proteção e a promoção da diversidade dos conteúdos e expressões culturais são elementos estratégicos de construção da ordem democrática e estão entre os deveres básicos dos governos e Estados nacionais. Cada sociedade, grupo social ou indivíduo tem um patrimônio cultural singular, que reflete um modo de viver próprio e um sistema de valores, através dos quais se expressam as diversas identidades. Elas, por sua vez, se reconhecem e se respeitam através do diálogo e dos intercâmbios.
Ao longo da história, a exclusão dos segmentos populares das políticas públicas de nosso país, bem como a segregação social e racial, têm sido fatores determinantes na desvalorização de sua produção cultural. Daí a urgência na discussão e construção de uma política nacional envolvendo os interessados – sociedade civil e gestores estatais – a partir de um amplo debate por todo o país, que deverá levar em conta os contextos locais de decisão.
Num processo participativo sem precedentes, com indivíduos, grupos e comunidades , respeitando tempos e modos específicos de fazer e de sentir, a Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural/MinC estabeleceu um proveitoso e rico diálogo, abrindo espaço na cena cultural brasileira para o protagonismo das manifestações mais genuinas de nossas tradições populares.
A partir de oficinas preparatórias realizadas em 14 estados da federação, de norte a sul do país, foram identificadas as potencialidades locais em busca de propostas de ações afirmativas para as mais variadas expressões regionais. Essas propostas contribuirão para o enriquecimento do debate no Seminário Nacional que se realizará de 23 a 26 de Fevereiro de 2005, em Brasília – DF, no Complexo Cultural da Funarte.
Organizado em cinco painéis com a presença de mestres populares, produtores culturais, artistas, pesquisadores e intelectuais de renome, com programação que integra exposições e atividades artísticas, serão discutidas as mais palpitantes questões afetas ao universo das Culturas Populares no Brasil, cujo resultado esperamos seja um elemento propulsor no processo de inclusão social e econômico, fundamentais para o desenvolvimento humano.
Convido a todos para unirem-se a nós nesta celebração, de um Brasil que se reencontra com sua alma e sua mais profunda identidade.
SÉRGIO MAMBERTI
Secretário da Identidade e da Diversidade Cultural
Participação do Leitor
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