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quarta-feira, 23 de maio de 2012 RSS Ouvidoria Fale com o Ministério
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Da cabaça, o Brasil: natureza, cultura, diversidade

Semeei tábuas / Nasceram-me cordas / Recolhi tonéis / Adivinhai, Bacharéis!?

A cabaça, resposta à quadrinha da adivinhação ao lado, é também o tema da exposição que o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular preparou para acompanhar o Seminário Nacional de Políticas Públicas para as Culturas Populares. Tendo como fio condutor um elemento natural que é encontrado com fartura nas cinco regiões do país, classificado e usado de diferentes formas nos mais variados contextos, a mostra Da cabaça, o Brasil: natureza, cultura, diversidade pretende-se um convite à apreciação da pluralidade cultural apresentada pelos inúmeros grupos sociais que vivem em solo brasileiro e, ao mesmo tempo, um estímulo à reflexão sobre aquilo que os une e identifica.

Conhecidos desde tempos ancestrais pelos nomes de cabaça, cuia, porongo, coité ou cuité, os frutos de espécies vegetais distintas, mas assemelhadas nos sistemas de pensamento e classificação populares, têm recebido múltiplos usos e sentidos ao longo dos séculos e em diferentes regiões geográficas, perdendo-se na história referências à época e ao local de domesticação dos cabaceiros (Crescentia lagenaria), porongos (Lagenaria vulgaris) e das cuieiras (Crescentia cujete) no país. No cenário cotidiano, como instrumento de trabalho e recipiente para líquidos e alimentos, na música, nos rituais, nas festas e brincadeiras, no artesanato tradicional e nas recriações de artesãos urbanos, entrecascas desses frutos multiformes constituem tanto objetos de uso corriqueiro quanto suportes de expressões que distinguem e identificam indivíduos e grupos da sociedade brasileira, num universo misto de referências culturais. Além disso, dão nomes a cidades, rios, praias, serras e lagoas de Norte a Sul, e estão amplamente presentes na tradição oral no Brasil.

Se a natureza, conforme sugeriu o antropólogo Claude Lévi-Strauss, constitui uma fonte inegável de recursos materiais, assim como um objeto de pensamento que se presta às mais ricas possibilidades de sistematização, então a cabaça, em suas várias formas de ocorrência no território brasileiro, é, sem dúvida, um fruto bom para usar, mas também para pensar. Bom para pensar o Brasil, as relações dos homens com os meios em que vivem, com os mundos que vêem e representam, e os encontros e desencontros desses homens uns com os outros. Portanto, considerando os meios naturais que sobredeterminam algumas possibilidades do conhecimento e do pensamento humano, esta exposição deseja mostrar que, justamente porque são, vivem e pensam de formas diferentes, os muitos grupos populares no Brasil dão usos e significados distintos a um amplo repertório de frutos que lhes parecem, em alguns aspectos, semelhantes. E que, fazendo isso, criam os muitos modos de ser, estar e trocar neste país.

Assim, a partir de um pequeno conjunto de objetos, textos e imagens relacionados à presença das cabaças no cotidiano dos brasileiros – que, sem dúvida, remete a um universo muito mais amplo de práticas e tradições culturais -, pretende-se provocar o olhar sobre a identidade e a diversidade dos muitos grupos populares que integram o Brasil.

O que é que o homem faz e Deus não fez? A cuia, Deus só fez a cabaça.

Em casas ribeirinhas, indígenas e quilombolas do Brasil, os frutos dos cabaceiros, das cuieiras e dos porongos costumam ser partidos em vários formatos, esvaziados do miolo, polidos e, quem sabe, até tingidos e decorados com incisões de exímia precisão, para servir como baldes, coiós, bacias, copos, tigelas; ou como cuias de tomar água, tacacá, chibé e mingau, no Norte, ou chimarrão e teréré, no Sul e no Centro-Oeste. Desses mesmos frutos que são transformados em objetos para comer e beber, também se fazem instrumentos de trabalho de pescadores, seringueiros e produtores de farinha de mandioca, que partem suas bandas de cuia para levá-las aos rios, às florestas e casas de forno.

Eu vou ler o B-A-BA /
O B-A-BA do berimbau /
A cabaça e o caxixi /
E um pedaço de pau /
A moeda e o arame, colega velho /
Está aí um berimbau
(ladainha de capoeira, de Mestre Pastinha)

De vários tamanhos e formatos, as cabaças e cuias prestam-se sobremodo à confecção de instrumentos de percussão, corda e sopro, tradicionais e ‘inventados’, como os chamam alguns artesãos contemporâneos. Atabaques, cuícas, bongôs, maracás, chocalhos, xequerês, djembês, calimbas, rabecas, cavaquinhos, violas, harpas, flautas, apitos, além de marimbas e berimbaus, são algumas das possibilidades de criação exploradas em diferentes expressões musicais brasileiras a partir desses frutos, cuja sonoridade marca também celebrações religiosas e profanas.

Ô minha gente venha ver como é que é/
Coisa bem original da cidade de Abaeté/
Temos a cuia que se manda preparar/
Cana que se faz cachaça pra na cuia se tomar
(Dança da cuia, Nina Abreu).

Embora sejam objetos de amplo uso e de grande serventia cotidiana, as cuias e cabaças também viram brinquedos em vários lugares e são festejadas em diferentes celebrações populares: na dança da cuia, em Abaetetuba, e nos festejos do Çairé, em Santarém, no Pará; no bumba-meu-boi e no reisado de caretas, no Maranhão; nos bonecos do artesão Laurentino Rosa dos Santos, do Paraná; nos mamulengos de Pernambuco e do Ceará.

Bate, bate na cumbuca /
Que o congo vem aí /
É congo de Angola /
Quem manda é Pai Joaquim
(ponto de chamada do preto velho Pai Joaquim)

Consideradas por diversos grupos humanos como elementos dotados de poderes especiais, as cuias e cabaças estão presentes num vasto conjunto de práticas rituais e tradições religiosas, de matrizes indígenas e africanas em especial, amplamente difundidas no Brasil. Inteiras ou cortadas em partes, ocas, preenchidas ou envoltas em palhas e contas, lisas ou decoradas com incisões, todas têm seus donos na Terra e nos outros mundos, e constituem objetos prenhes de significados ritualísticos que só podem ser integralmente compartilhados por iniciados que conhecem ‘o fundo da cabaça’.

Vinho velho em garrafa nova, vinho novo em garrafa velha.

Substituíssemos garrafa por cabaça, e teríamos uma perfeita metáfora para a profusão de objetos criados no Brasil a partir desses frutos, tanto em comunidades artesanais tradicionais quanto por artistas plásticos urbanos. Assinalando a circularidade de elementos culturais que, sendo encontrados preferencialmente nas camadas populares, acabam ganhando espaço junto a outros segmentos sociais, a expressão é sugestiva da mobilidade de velhas tradições em novos espaços, bem como das novas criações em suportes antigos, como os frutos em questão.

Clique aqui e confira as fotos da exposição.

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