“Ô, Pudim, onde é que ‘tá’ o bagulho do MSN?”, pergunta o menino a Aparecido Barbosa da Silva, dono da lan house Favel’s, no Jaguaré, em São Paulo. Pudim vai até o computador, clica numa janela e ensina ao garoto o caminho das pedras.
O programa de mensagens instantâneas MSN Messenger, da Microsoft, e o site de relacionamentos Orkut, criado pelo Google, reinam absolutos na internet das favelas. Nas lan houses visitadas pelo Valor em São Paulo e no Rio, invariavelmente a maioria dos usuários navegava por eles.
Em parte, o sucesso é condizente com o fenômeno que esses serviços – ambos gratuitos – se tornaram no país. Dos 60,1 milhões de usuários cadastrados no Orkut, nada menos que 55,3% são declaradamente brasileiros, informa o Google.
No entanto, o comportamento dos jovens da periferia revela mais do que um modismo, afirmam especialistas. “A web, de certa forma, cria um ambiente democrático”, avalia Rodrigo Baggio, criador do Comitê para a Democratização da Informática, uma organização não-governamental (ONG).
Mais do que isso, as comunidades virtuais proporcionam aos usuários de baixa renda a chance de ampliar sua rede de contatos pessoais e profissionais para além dos limites de sua vizinhança. “Não é um luxo, é uma necessidade”, analisa o professor Ronaldo Lemos, da FGV.
Na avaliação do pesquisador, a internet tem o poder de transformar a realidade desses locais. “O simples contato com a web é positivo. Ela dá uma sensação de dignidade, aproxima as pessoas. E mesmo o papel dos jogos é subestimado: eles estimulam o raciocínio”, destaca Lemos.
Baggio, entretanto, avalia que a disseminação das lan houses não promove inclusão digital. “Esses ambientes estão carregados de jogos violentos e sites pornográficos”, pondera. “Esse é um desafio.”
A jovem Shaiene leva o filho, David, para uma lan house na Rocinha. Acomodado em seu colo, o bebê parece perfeitamente incorporado ao lazer da mãe prematura. A moça, que revela apenas o primeiro nome, diz que não dá para ficar mais de duas horas. “Não posso gastar muito”, afirma. E passa todo o tempo conectada ao Orkut.
No mesmo local, um garoto de 13 anos que prefere não ser identificado diz que passa até seis horas por dia na web. Quem paga a conta é a mãe. Indagado se ela não reclama do gasto (são R$ 6), o menino responde: “Acho que até prefere. Também faço aqui meu dever de casa. Ela acha que assim não fico andando por aí”.
Agnaldo da Costa, aluno da sétima série, é um dos poucos jovens que afirmam ao Valor usar a internet com o objetivo principal de estudar. Numa tarde de segunda-feira, ele fazia uma pesquisa sobre Cuba para a aula de geografia no telecentro do Estado em Heliópolis.
Porém, segundo dados do Comitê Gestor da Internet, a maioria dos internautas de classes baixas afirma utilizar a rede mundial de computadores para a educação. O índice é bem parecido com o dos brasileiros mais ricos (ver tabela).
Empresas e ONGs estão desenvolvendo projetos de educação e capacitação profissional nessas comunidades. Em Heliópolis, uma parceria entre o Banco Real, a fabricante de microprocessadores AMD e a Semp Toshiba está promovendo cursos de informática e, desde a semana passada, vende computadores a preços entre R$ 1,2 mil e R$ 1,7 mil. A ONG Viva Rio tinha um programa de inclusão digital na Rocinha. Mas, com a proliferação das lan houses por lá, transferiu-o para o Complexo da Maré, um local mais pobre.
A LanHousing, criada em 2002 como uma consultoria voltada a empreendedores que queriam abrir esse tipo de negócio, mudou seu foco com a migração para a periferia. Agora, tem maior procura por cursos on-line, que não custam mais do que R$ 100. E está desenvolvendo um projeto com a Ação Israelita para o Desenvolvimento, no qual as lan houses serão utilizadas como centros de capacitação. “Inclusão digital é um meio, não um fim”, destaca Ioram Cejkinski, sócio da empresa.
Discussões à parte, as lan houses acabam por integrar seus freqüentadores ao universo virtual. Pudim, que é também DJ e produtor musical, afirma que resolveu abrir a Favel’s junto com um amigo depois de perceberem que os moradores ficavam acanhados quando iam a lan houses fora da favela. “A molecada ficava com vergonha dos ‘playboys’ porque não sabia usar o computador. Tem gente que chega aqui, paga R$ 2 e fica uma hora inteira olhando para a tela, sem saber o que fazer. Esse aí mesmo era assim”, diz ele, apontando para um adolescente que navegava pelo Orkut.
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