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Pronunciamento do ministro Gilberto Gil na inauguração do Parque Memorial Quilombo dos Palmares

SERRA DA BARRIGA (AL), 19 DE NOVEMBRO DE 2007

SERRA DA BARRIGA (AL), 19 DE NOVEMBRO DE 2007
Prezado Governador do Estado de Alagoas,Teotônio Vilela;

Prezado Prefeito de União dos Palmares, José Pedroza;

Prezado Jonny Martins, presidente da Coordenação Nacional de Remanescentes de Quilombos;

Senhora Patrícia Mourão, presidente da Magna Mater (ONG que construiu o parque que hoje inauguramos);

Querido colega, Zulu Araújo, presidente da Fundação Cultural Palmares;

Representantes do Movimento Negro e todos que aqui representam o trabalho inestimável que os negros deram à formação e ao desenvolvimento do país;

Todos aqueles que há anos dedicam suas vidas e seu trabalho à preservação e defesa de um dos patrimônios mais caros e essenciais à cultura brasileira, que é o patrimônio afro-descendente;

Meu agradecimento pela presença de todos aqui presentes, em mais um desses dias abençoados de sol alagoano, sol que deu luz, energia, força e esperança aos milhares de quilombolas que aqui viveram, negros que irmanam minha origem, meu caráter, minha história, minha liberdade, minha capacidade de resistir e existir no mundo;

É com muita satisfação que hoje estamos aqui para inaugurar este memorial que traz em cada canto, em cada marca, em cada grão da terra que agora pisamos a história de um país ainda pouco conhecida e valorizada. A história de um país negro em sua origem e formação, país que aprendeu a crescer e a criar suas formas de vida e organização a partir da matriz africana. Matriz densa, rica, forte, guerreira, calorosa, sensual e resistente. Matriz de nossa música, nossa culinária, nossa dança e ginga, nossos hábitos, nossa cultura, nosso jeito de ser brasileiro.

Há 312 anos, exatamente, morreu aqui, nessa terra, um dos maiores símbolos de nossa matriz negra, Zumbi dos Palmares, que deu a própria vida pela libertação. Libertação que, na época, não era só sua, mas de milhares de escravos foragidos aqui em Palmares. Libertação que hoje vem a ser de gerações e gerações de afro-descendentes no Brasil, que precisam a cada dia se libertar não só das amarras do triste quadro de desigualdades e preconceitos no país, mas também das dívidas históricas que a luta de Zumbi simboliza – dívidas irreparáveis que o Brasil tem com sua população negra.

Com a inauguração deste memorial, tentamos – enquanto governo brasileiro – dar mais um passo rumo a essa reparação. Com este ato, reconhecemos não só a importância fundamental do Quilombo dos Palmares para a história do país, mas também todo o legado que Palmares nos deixa como referência: sua herança de convivência e diversidade. Por quase cem anos, negros, brancos e índios aqui conviveram e comungaram da liberdade, não como mero ideal, mas como forma efetiva de vida. Essa é a grande herança de Zumbi e Palmares, a liberdade real, vivida no dia a dia, comprometida com o coletivo. Liberdade que se plenifica, e não se oprime, perante à diferença; à alteridade e à diversidade humana. Liberdade que se conforma pela pluralidade, pelo igual direito de todos a ter o pleno gozo de ir e vir, de ser e crescer, sem para isso cercear, oprimir ou restringir a liberdade alheia.

Hoje, Dia Nacional da Consciência Negra, é momento oportuno de refletirmos essa questão. É dia de honrarmos nossas raízes guerreiras, que nos ensinaram a resistir e a nos afirmar pela igualdade. Mas também é dia de honrarmos nossas raízes fraternas, que nos ensinaram a permitir e a lidar com a diversidade. É nesse sentido que a contribuição negra precisa se dizer forte, se dizer completa, não só porque queremos ser iguais, mas porque também queremos o desigual, porque queremos acolher a diferença. A grandeza da existência humana é poder trabalhar com a pluralidade, é poder ter a grandeza de compreender nas diferenças o conjunto da igualdade humana.

Por isso, o dia de hoje é uma belíssima oportunidade para celebrarmos a diversidade como fundamento e valor da humanidade. Também é uma oportunidade para cada vez menos lamentarmos as exclusões e discriminações sofridas pela comunidade negra e, cada vez mais, celebrarmos os avanços alcançados pela sociedade brasileira e pelo Estado para a democracia racial.

Avançamos enquanto testemunho de inovação. Quando, por exemplo, mapeamos, reconhecemos e valorizamos as mais de mil comunidades remanescentes quilombolas que, como Palmares, hoje são núcleos vivos de nosso patrimônio afro-brasileiro. Avançamos quando conseguimos atingir todas essas comunidades com ações nas áreas de educação, saneamento, desenvolvimento agrário, direitos humanos, trabalho e renda, segurança alimentar e cultura.

Avançamos quando, no ano de 2003, logo no início do governo, criamos a obrigatoriedade da inclusão da matéria História e Cultura Afro-brasileira em todos os currículos das escolas brasileiras, que representou um grande desafio para todos os educadores e intelectuais negros e negras do Brasil. Avançamos ao protagonizar uma mobilização planetária dos países da Diáspora Negra. Quando reunimos, há dois anos, na a Conferência dos Intelectuais da África e da Diáspora – CIAD, intelectuais brasileiros, africanos e negros de todas as diásporas para discutir a situação do negro no mundo e interagir as diversas matrizes culturais negras.

Avançamos quando nos colocamos no mundo não mais como platéia, mas como atores e autores potenciais do país. Quando conseguimos passar a ser reconhecidos por nossos feitos e nossa própria história, que precisa ser hoje reconhecida não só por nós, afro-descendentes, mas por todos os brasileiros que ainda desconhecem o quanto a contribuição negra é determinante para que o Brasil seja o que é hoje, para que o país alcançasse seu atual estágio de desenvolvimento.

Zumbi e tantos outros negros, célebres ou anônimos, tiveram que mostrar ao mundo o valor da diferença pela luta e pela dor. Hoje mostramos ao mundo o valor da diferença pela estética e pelo pensamento, por nossa arte, nossa palavra, nosso argumento e por nossas criações e contribuições ao mundo. Que possamos todos nos conscientizar desse valioso caminho que se abre para nossos novos rumos e caminhos.

Recentemente, tive o prazer de ir em missão oficial à Colômbia e ao Equador, quando me reuni com outros dois ministros da cultura sul-americanos, também negros, desses dois países. Com a ministra Paula Zapata, a primeira ministra da Cultura mulher e negra na história da Colômbia, articulamos, para o ano que vem, a realização de um Encontro inédito de Ministros da Cultura da América Latina, exatamente para formular e implementar políticas públicas de cultura comuns para os afro-descendentes da região. Também tenho satisfação em anunciar que vamos realizar estudo comparativo entre o primeiro assentamento de comunidade negra na Colômbia, a comunidade de Maria La Barra, de 1517, localizada na cidade de Cartagena, com o nosso Quilombo dos Palmares, de 1625.

A última novidade que gostaria de compartilhar com vocês, nesse dia de calor e celebração, é que, no próximo mês de dezembro, as políticas afirmativas para afro-descendentes também ganharão site internacional, que será lançado pela Fundação Cultural Palmares. O site reunirá informações sobre a Cultura Afro de toda a América Latina e vai funcionar como centro difusor e produtor de conhecimento e intercâmbio de afro-descendentes da região.Tenho imenso prazer em anunciar hoje aqui em Palmares essas boas novas, que não só ampliam as fronteiras da ação do MinC, mas a força da presença negra no Brasil e exterior.

Hoje entregamos a vocês o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, que vem atender uma reivindicação de quase um quarto de século da comunidade negra brasileira e vem legitimar Palmares como referencial maior da presença negra no Brasil. Há anos, Palmares foi tombado e está sob a guarda de nossa Fundação Cultural Palmares, hoje ela ganha ainda mais fôlego e projeção, definitivamente reconhecida como um de nossos mais importantes acervos históricos e pólos culturais do país.

O Ministério da Cultura, através da Fundação Cultural Palmares, não está aqui apenas entregando uma obra, mas várias possibilidades que esta obra dispõe, como a realização do turismo étnico; o intercâmbio cultural; a troca de experiência, reflexão, capacitação e, sobretudo, um novo olhar sobre o legado cultural da presença negra no solo brasileiro.

Este empreendimento só pôde ser realizado porque contou com o apoio de vários órgãos do governo federal, como o Ministério do Turismo, Petrobrás, Palmares, Caixa Econômica Federal, além do Governo do Estado de Alagoas, da Prefeitura Municipal de União dos Palmares, do Instituto Cultural Magna Mater, mas principalmente de todos vocês aqui reunidos, em particular, o movimento Quilombola.

No próximo ano, a Fundação Cultural Palmares já tem assegurado em seu orçamento cerca de R$ 1.200.000,00 (um milhão e duzentos mil reais) para a manutenção e realização de atividades culturais neste espaço. Que sejam apenas os primeiros investimentos do muito que ainda tem de ser investido nesse parque, localizado em um dos maiores sítios arqueológicos do país, que é a Serra da Barriga; nesse grande centro referencial do negro, do brasileiro, da liberdade e da resistência.

Muito obrigado.

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