26 de novembro de 2007
Discurso do ministro Gilberto Gil na solenidade de entrega das estatuetas aos artistas homenageados na IV Mostra Internacional do Cinema Negro
SÃO PAULO, 26 DE NOVEMBRO DE 2007
Eu gostaria de saudar o nosso grande e querido Abdias do Nascimento que é hoje aqui o homenageado por essa Mostra do Cinema Negro. Esse ano Abdias recebeu do Presidente Lula um dos mais altos títulos republicanos dessa nação: a Ordem do Mérito Cultural. E isso se deu pela sua presença decisiva no campo da cultura. Uma presença única que, da política á estética, significa a conquista de um espaço de reconhecimento de muitas populações negras que deram seu sangue ao Brasil. Um sangue que serviu para tingir, além das cores locais dessa terra, cada palmo de chão onde cultivamos e colhemos os frutos simbólicos desse País. Um sangue negro que fertilizou a vida e o imaginário desse nosso território no qual existimos, sejamos brancos, europeus, asiáticos, árabes ou ameríndios.
E gostaria de fazer essa homenagem evocando também, ao lado de Abdias, o nosso mestre Grande Othelo, que também recebeu a Ordem do Mérito Cultural in memorian. Quero dizer que essas duas figuras tão maravilhosas sempre serão personalidades guias, exemplos vitais que traçaram no século passado um caminho que está até hoje sendo pisado por nós. Temos nas pegadas deles uma trilha que seguimos em nossa jornada diária de construção e de luta pela conquista de direitos e de valores. Direitos e valores que façam a devida justiça a todos e a cada um dos Brasileiros. O programa Mais Cultura que nossa gestão do MinC firmou esse ano como um compromisso de Estado com a sociedade Brasileira é um marco histórico que deve ser visto nesse solo comum de conquistas, sob o signo desses homens.
Juntos, eles estarão aqui novamente visíveis em meio a esse mundo que o cinema dá a ver e faz ver. E vejo nessa homenagem que o “mundo negro” faz à cultura brasileira, uma forma de afirmação generosa de nossas diferenças. Diferenças que são constitutivas de uma cultura, e que não podem ser objeto do apagamento sócio-cultural. Se nossa questão nessa mostra é a da visibilidade, é porque temos uma questão que também tem sido cada vez mais visível no campo da cultura. As populações, seus diferenciais de valores e simbolizações, precisam ter espaços de cultivo de suas próprias particularidades culturais. A cultura que chamamos de brasileira é tão mais brasileira na medida em que sabe olhar para a complexidade que reside de forma múltipla sob essa idéia que nos perseguiu durante muitos anos: o desejo de uma “identidade brasileira”.
Foi-se o tempo em que as homogeneidades eram uma solução para que o Brasil pudesse encontrar o sentido de uma Nação no concerto internacional dos países, afirmando um caráter próprio e positivamente unitário. Hoje o Brasil é visto e apreciado aqui e em todo o Mundo pela capacidade sem igual que está instaurada entre nós de compreender o que é a “Diversidade”, em seu sentido substantivo e pleno. Quando nos engajamos na construção do tratado da “Diversidade Cultural”, no âmbito da Unesco, foi ficando cada vez mais claro para nós do MinC que essa consciência contemporânea de que a Cultura é um “múltiplo”, um estado constante de emergência e sedimentação, é algo que sempre compreendemos aqui, algo que a “Antropofagia” plasmou como uma palavra de grande potência explicativa e conceitual. Uma consciência de que essa forma híbrida e variável que nos deu o Brasil é o verdadeiro Patrimônio Nacional que deve ser mantido vivo. E que isso só será feito na medida em que damos espaço a cada componente que é constituinte de nossa vida cultural, sem que ele se dissolva ou se perca completamente. Temos uma diversidade “Bio”, “Sócio” e “Cultural”, que pode ser compreendida pelas nossas formações eternamente inconclusas. Um processo formativo que gera uma “Forma” que é incompleta porque está ainda acontecendo e não para de trazer novos elementos para o seu jogo. Nossa cultura joga uma partida de futebol que tem eternos minutos, na qual cada gol acaba virando o jogo mas não decide o campeonato, para o desespero e a alegria de nossos corações.
O Brasil está ainda hoje, depois de quinhentos anos, descobrindo que o Índio não é uma figura que se opõe ao branco como o simples diferente, o não-ocidental, o nativo, o pré-civilizado. Estamos ainda descobrindo as cargas semânticas e cosmológicas dessas muitas civilizações que atravessaram a cultura brasileira e que nunca eram visíveis. Isso porque nossos olhos não sabiam ver o outro e apenas olhavam para a sua aparência, e não distinguiam as sutilezas que são carregadas de sentido.
Hoje os muitos povos ameríndios estão passando ao espaço comum da política e da cultura, eles estão se tornando visíveis. Alguns ambientalistas e arqueólogos tem afirmado “cientificamente” que a Amazônia não é uma “floresta natural”, mas sim uma “floresta plantada”: algo como um herbário, um pomar, ou um jardim cultivado por povos que viveram e vivem há milênios nessa grande fazenda coletiva que chamamos de eco-sistema natural. Talvez somente com o impacto catastrófico do aquecimento global é que teremos a capacidade de entender o que essa bio-tecnologia ameríndia significa para nossa humanidade e o que ela tem a nos oferecer para vermos possíveis futuros.
Por fim, quero dizer que a visibilidade e a presença do Povo Negro ainda é uma questão que a República precisa equacionar dentro da sua matemática de direitos e missões. Temos tido conquistas que não são nada desprezíveis, sem dúvida essa mostra é um espaço de aparição dessas conquistas. Mas sempre faltará o que fazer para estabelecermos o valor desse patrimônio vivo dos povos de África, nossos antepassados, que foram arrancados de seu território e que aqui souberam reinventar um continente. Um território de símbolos e percepções que se alastrou com suas floradas sobre nosso continente novo, mesmo sobre um terreno que ainda hoje permanece árido para muitos dos que vieram de lá. Estamos aqui seguindo esse mesmo cortejo, investidos de nossas crenças e ideais. Eu saúdo a todos que como eu são filhos de homens tão brilhantes e ilustres como Abdias e Grande Othelo. Que muitos sigam nossos passos para que um dia chegue a hora desse “grande carnaval”. Um dia no qual todos poderão sambar os muitos tempos dessas ricas culturas, que nos deram o presente e a atualidade dessa nossa diversidade cultural.
- Publicado por Carol Lobo/Comunicação Social
- Categoria(s): Discursos
- Tags: Audiovisual, Cinemateca, cultura afro, ministro Gil