28 de novembro de 2007
Vídeo nas Aldeias socializa o cinema
Diario de Pernambuco - PE, Luciana Veras, 28/11/2007
Cineteatro Apolo é palco de lançamento do primeiro DVD da coleção Cineastas indígenas, com direção dos índios Kuikuro
Yamalui, 24, Maricá, 26, e Takumã, 26, são índios Kuikuro, moradores do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, participantes dos 9º Jogos Indígenas e cineastas. Como tantas outras etnias, receberam a visita da ONG Vídeo nas Aldeias e transformaram suas aldeias em sede de constantes oficinas de formação de realizadores. O projeto festeja dez anos de existência com o lançamento do primeiro dos seis DVDs da coleção Cineastas indígenas, contendo justamente dois trabalhos concebidos e produzidos pelos três amigos e por outros Kuikuro. Um deles, Cheiro de pequi, será exibido hoje, às 20h15, no Cinema Apolo.
A coleção Cineastas indígenas nasce com o intuito de “socializar os melhores títulos” feitos sob a supervisão da Vídeo nas Aldeias. “Estamos levando para o grande público os filmes mais brilhantes. Nesse primeiro volume, por exemplo, estão Imbé Gikegü - Cheiro de pequi, Inguné Elü - O dia em que a lua menstruou e dois documentários em que os Kuikuro se apresentam, já respondendo às perguntas que todo mundo faz quando vê os vídeos: de onde eles são, quantos são, onde moram”, contextualiza Vincent Carelli, diretor da Vídeo nas Aldeias. “E o making of passa a idéia do duplo sentido que tem isso tudo: a preservação do patrimônio cultural e eles ‘botando para fora’ tudo que pensam”, emenda.
Yamalui, descrito por Vincent como um “profissional da transcrição fonética”, além de atuar em Cheiro de pequi, ajudou na tradução dos depoimentos. Ele explica a diferença entre se ver representado em outros filmes e poder construir a representação de si e da tribo em fitas próprias: “Para nós é fácil fazer um filme, mas às vezes os brancos fazem filmes sobre nós e eles começam certo. No meio tem algo que ele não compreende, entende errado. Quando nós fazemos sai certo porque sabemos como foi a história”.
Maricá foi um dos autores de Cheiro de pequi e O dia em que a lua menstruou e pensa, agora, em rodar uma ficção. Qual seria a diferença entre o ficcional e o documental? “No documentário a gentevai filmando o que a gente acha na aldeia, na ficção não, o diretor manda e todo mundo faz o que ele tá pedindo. No caso de uma festa na aldeia, no documentário não posso pedir para as pessoas repetirem”, responde. Se bem que, no caso de O dia em que a lua menstruou, eles estavam com cinco câmeras para registrar o eclipse lunar visto pelos Kuikuro. “Os outros a gente fez com duas câmeras mini-DV”.
Empunhando uma delas com desenvoltura, Takumã situa que todos os integrantes da aldeia terminam envolvidos na realização de um vídeo. Há uma, ou melhor, duas histórias que os três planejam. “O cacique vive falando que queria fazer o filme da festa Kuarup. E também tem o filme sobre Tamakahi, um índio herói, guerreiro, forte, alto”, comentam os três realizadores com as feições do Brasil.
Em breve, portanto, pode ser que a coleção Cineastas indígenas traga novos trabalhos dos Kuikuro. Nessa primeira leva, ainda sairão os discos com as tribos Panará, Hunikui, Ikpeng, Ashaninka e Xavante. Em cada DVD, extras que elucidam as origens das etnias e o processo de aprendizado nas oficinas e um libreto bilíngue com fotos e informações sobre os filmes e os realizadores. Um lançamento com o selo do Ministério da Cultura - a Vídeo nas Aldeias é um Pontão do Programa Cultura Viva - e com o capricho que os primeiros habitantes do Brasil merecem.
Serviço
Lançamento da coleção Cineastas indígenas e exibição de Cheiro de pequi, dos índios Kuikuro
Onde: Cinema Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)
Quando: Hoje, às 20h15
Entrada franca
- Publicado por Carol Lobo/Comunicação Social
- Categoria(s): Na Mídia
- Tags: cinema, Culturas Indígenas, Diversidade Cultural, Ponto de Cultura