O cinema vem sofrendo abalos sísmicos com a internet. Geralmente, a leitura que se faz é negativa. Eu só consigo ver o lado positivo disso. Porque ninguém vai deixar de ver bons filmes e muito mais gente passou a fazê-los, desenvolvendo novos formatos, com mais agilidade, mais rapidez e baixíssimo custo.Não sei se a Flávia Lacerda e a Adriana Falcão vão deixar de produzir para a Globo agora que foram as vencedoras do concurso mundial de curta-metragens do You Tube, batendo rivais estadunidenses, franceses, italianos, espanhóis, entre outros. Acho que não. Mas ganharam também a possibilidade de produzir para a web e viram que isso pode ser legal.
Laços, o filme vencedor, é um drama adolescente, com um desfecho pretensamente surpreendente, produzido em digital, gravado em um dia, ao custo de R$ 1,5 mil. É a história de uma menina que foge do enterro de seu pai e sai pela rua correndo. No meio do caminho, tromba com um rapaz estranho que lhe pede para dar um laço em sua gravata. Daí em diante, eles caminham juntos, a falarem sobre o laço, construindo metáforas sobre as relações humanas.
O filme brasileiro é um exemplo do pacto PRO-AM, do qual fala o editor da Wired Chris Anderson em Cauda Longa, seu best seller sobre o novo mercado mundial de comunicação e cultura. PRO-AM é a parceria entre profissionais e amadores (categorias do século 20) para a criação de produtos mais bem acabados e mais próximos do interesse do público que aqueles feitos exclusivamente pelos profissionais. Laços (Ties) é isso. É resultado da associação das idéias e vontades de dois adolescentes a profissionais reconhecidos do cinema e das letras.
Clarice Falcão, filha de Adriana, foi quem teve a idéia do filme e, usando a rede, mais especificamente o Orkut – site de relacionamento do Google que se tornou a predileta rede social dos brasileiros – entrou em contato com seu parceiro, o adolescente Célio Porto.
Clarice representa no filme a menina e Célio é o menino estranho. Não foram remunerados para atuar em um filme cuja idéia é deles mesmos. São amadores. Nessa mesma condição, Clarice compôs a trilha, um pop açucarado em inglês, que rende tributo a toda essa onda de músicas fofinhas que faz a alegria dos jovens cult.
O resultado desse encontro entre profissionais e amadores é muito legal. Laços transborda honestidade e simplicidade. É bem feito, bem editado, mesmo na tela pixializada do meu computador. Aliás, eu já me habituei a ver pixels, e quase nem ligo mais para isso. E tem o mérito de se render à estética digital (um diretor profissional poderia ter optado pela película, como outros concorrentes do concurso fizeram).
Agora, o filme será exibido em Sundance, a meca internacional do cinema independente. Não sei quantos trabalhos de Flávia Lacerda já foram parar em Sundance. Esse vai. Esse que foi feito para a internet, postado no You Tube, e se tornou um sucesso global.
Participação do Leitor
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