07 de dezembro de 2007
Uma galeria para Niemeyer
Correio Braziliense, Erika Klingl, 07/12/2007
Na véspera da comemoração dos 20 anos da escolha de Brasília como Patrimônio Cultural da Humanidade, os moradores da capital vivem outro motivo de orgulho: 35 obras do arquiteto Oscar Niemeyer espalhadas pelo Brasil - a maioria em Brasília - foram tombadas pelo Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Da lista, incluindo prédios públicos e privados, nada menos que 23 podem ser vistas a qualquer hora pelos moradores de Brasília. A cidade é uma exposição aberta do acervo de um dos principais arquitetos do mundo.
Estão inclusos na lista prédios que fazem parte da rotina do brasiliense, como a Igrejinha da 307/308 Sul (veja quadro), o Memorial JK, o Teatro Nacional Cláudio Santoro e a Praça dos Três Poderes. Todas essas edificações já eram protegidas pelo governo do Distrito Federal e pelo Iphan desde os anos de 1987 e 1992, respectivamente, quando a cidade ganhou título de patrimônio. “A grande diferença é que, agora, as obras são protegidas separadamente”, explica José Carlos Coutinho, diretor do Patrimônio Histórico e Artístico do Distrito Federal (Depha). “Até ontem, o tombamento era global, já que Brasília foi o conjunto urbano mais significativo do século 20. Agora, as preciosidades de Niemeyer estão duplamente protegidas, como as cerejas do bolo. Nada pode ser feito sem a autorização prévia do governo federal, com o tombamento do Iphan”, explica Coutinho.
A avaliação para a decisão de tombar as obras de Niemeyer foi conduzida pelo presidente do órgão, Luiz Fernando de Almeida, e mais 18 especialistas em patrimônio, além de representantes do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos). Os monumentos da lista foram selecionados pelo próprio arquiteto. A ação faz parte da homenagem ao centenário de Niemeyer, a ser comemorado no próximo dia 15.
Outras cidades
Até o ínicio da reunião, às 10h de ontem, apenas 24 obras seriam avaliadas. As 23 de Brasília e a Casa das Canoas, no Rio de Janeiro, residência projetada pelo arquiteto e sua moradia por 12 anos. Mas, a pedido de Niemeyer, foram incluídas outras nove obras, como o edifício Copan e o Complexo do Ibirapuera, em São Paulo, e o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba (PR). As prefeituras das cidades com as nove obras incluídas, ontem, terão 30 dias para reunir documentação que garanta o tombamento.
Além disso, ficou decidido na reunião que outras edificações do artista serão avaliadas posteriormente. Com as homenagens de ontem, 39 construções de Niemeyer estão tombadas entre mais de 200 obras do arquiteto pelo país. Um levantamento de todas elas será feito e prédios como o Instituto de Central de Ciências (ICC) da Universidade de Brasília (UnB), o Minhocão, podem acrescentar a lista.
A decisão foi celebrada por vários arquitetos. “Niemeyer está acima do bem e do mal, é um dos ícones da arquitetura brasileira”, afirma Geraldo Nogueira, do IAB. “As obras dele são obras de arte. Brasília deu sorte dele estar no caminho de Juscelino”, completa o urbanista Tony Malheiros. “Niemeyer é o maior arquiteto brasileiro, mas suas obras passam uma ar de isolamento em relação à vida da nossa cidade”, argumenta o urbanista Frederico Flósculo, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB.
Prêmio à criatividade
Em 7 de dezembro de 1987, Brasília entrou para a restrita lista de cidades com o título de Patrimônio Cultural da Humanidade. Uma honra concedida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura (Unesco), quando a capital tinha apenas 27 anos. “Pela primeira vez, houve a interpretação de que uma cidade moderna tinha características universais?, afirma o representante da Unesco no Brasil, Vincent Defourny. Para ele, o principal desafio do Brasília para se manter com a honraria é alcançar um desenvolvimento sustentável, onde a cidade consiga se desenvolver e permitir a reunião da população sem colocar em risco as referências destacadas na época.
E não são poucas essas referências. A escolha, feita a pedido pelo então governador José Aparecido, se deu pelo casamento de arquitetura arrojada, conjunto urbanístico e paisagístico diferenciado. Os destaques vinham das largas avenidas, os pilotis dos prédios e o próprio desenho da capital. “O eixo norte-sul, sem curva, define o traçado da grande via de comunicação rodoviária ao longo da qual alinham-se zonas residenciais, articuladas em superquadras, tendo, cada uma delas, uma semi-autonomia?, cita a defesa feita pelo professor francês Léon Pressouyre, relator do pedido junto ao Conselho do Patrimônio Mundial, em 1987.
A inscrição na Lista do Patrimônio, porém, não é apenas honraria. Quando tem um bem incluído como patrimônio da humanidade, o país se compromete, mundialmente, a preservá-lo. No caso de Brasília, o cuidado deve ser dobrado. Hoje, o GDF e a Unesco promovem a comemoração dos 20 anos de tombamento. O local não poderia ser mais indicado: o Museu Nacional do Conjunto Cultural da República, uma das mais recentes obras de Oscar Niemeyer na capital. Para marcar os 20 anos de Brasília como Patrimônio Cultural da Humanidade será lançado o Prêmio José Aparecido de Oliveira, destinado a ações de preservação e educação patrimonial que mereçam reconhecimento. (EK)
O conjunto
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- Publicado por Carol Lobo/Comunicação Social
- Categoria(s): Na Mídia
- Tags: iphan, Patrimônio Cultural