Não chegou a se firmar como um grande nome na poesia nacional, mas é autor de belíssimos poemas como “Círculo vicioso”, “Soneto de Natal”, “A Carolina”
Ele escreveu peças de teatro, ensaios, críticas, crônicas, poemas, romances e contos. É considerado o mais importante escritor brasileiro de todos os tempos. Este ano, certamente, ouviremos muito falar dele devido ao centenário de sua morte. Quando faleceu, em 29 de setembro de 1908, Machado de Assis já gozava do prestígio de ser “o” grande escritor brasileiro.
A Academia Brasileira de Letras, entidade por Machado presidida e que o tem como padrono, juntamente com o Ministério da Cultura, fará uma série de atividades dentre as quais a edição em preços barateados da obra completa do autor de Dom Casmurro. A reportagem do Jornal da Paraíba conversou com dois professores de literatura da Universidade Federal de Campina Grande, Rosângela Melo e José Mário da Silva, sobre as facetas deste escritor que merece todas as homenagens que serão feitas este ano.
Machado de Assis começou escrevendo poesia. Não chegou a se firmar como um grande nome na poesia nacional, mas é autor de belíssimos poemas como “Círculo vicioso”, “Soneto de Natal”, “A Carolina”. No início, o escritor também exerceu a atividade de censor e de crítico teatral, escrevendo algumas peças. Todavia, conforme as palavras de Sábato Magaldi no seu livro Panorama do Teatro Brasileiro, se Machado de Assis só tivesse escrito para teatro, seu nome não seria lembrado nos dias de hoje.
Muito do que Machado de Assis produziu para teatro foi retomado em contos e romances, embora haja boas comédias. Lição de Botânica e Quase Ministro, além da bela Viver! – são peças, ainda hoje, plenamente encenáveis. Falta um diretor que tenha a ousadia de trazer as peças do Bruxo do Cosme Velho aos palcos.
Uma das principais características da obra de Machado de Assis é o olhar verticalizado sobre a alma humana, a percepção profunda e aguda das nossas relações. A ironia foi um recurso utilizado com maestria. Há quem diga que o humor fino e a ironia de Machado foram heranças da literatura inglesa. Na opinião de Rosângela Melo isso não passa de um dos muitos lugares comuns da crítica literária sobre Machado.
“Antes de ler os ingleses – Machado só vai lê-los no original aos 40 anos – já havia marcas da utilização da ironia em seus trabalhos. Isso é exaustivamente repetido, mas essa questão do tributo de Machado é uma questão bairrista. Pouca gente fala, mas Machado também foi lido pelos autores ingleses da época dele que, evidentemente, pegaram muita coisa”, avalia.
Outro lugar comum sobre Machado de Assis é o de que nele não há a presença do Brasil. Sobre essa questão, José Mário da Silva lembra que o escritor deu sua resposta no texto “Instinto de nacionalidade”, um dos mais importantes ensaios da literatura brasileira. “Ele responde aos críticos que exigiam na obra dele a presença da cor local, do exótico e do pitoresco. Machado responde dizendo que o escritor tem de trazer o sentimento do seu tempo e de seu país e isso foi algo genial, pois antecipou as leituras de cunho sociológico que viriam a ser feitas mais à frente”, disserta.
“A obra de Machado de Assis tem uma atemporalidade impressionante. Se você der o conto ‘Sereníssima República’ para um estudante do segundo grau, ele vai dizer que o texto é sobre o governo Lula. Machado não se fincou nas questões periféricas, mas era preocupado com a permanência das coisas”, analisa Rosângela.
Como romancista, Machado de Assis é celebrado pela trilogia Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba. Como contista tem obras-primas como “O alienista”, “O espelho”, “Um homem célebre”. Neste ano, todo brasileiro de bom gosto deveria ler ou reler alguma obra do genial mestre Machado de Assis.
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