Palavra complicada, como observou Raymond Williams, cultura é termo de sentidos diversos, às vezes quase antagônicos
No mundo globalizado, a resistência se dá como ação cultural, não mais como ação política. Essa é a idéia central do livro “Corpos indisciplinados”, cujo texto é uma versão condensada da tese de doutorado em cultura e informação de Lúcia Maciel Barbosa de Oliveira.
Amplamente apoiado em autores como Antonio Negri, Gilles Deleuze e Felix Guatarri, o livro apresenta uma visão otimista sobre manifestações como as dos zapatistas mexicanos, as raves ilegais, as rádios-piratas, as performances do Greenpeace, o Dia de Ação Global e de grupos que a autora analisa para definir como tendo em comum o objetivo de criar “um antipoder que anule todas as formas de autoritarismo e ative a participação”.
Ao contrário do que acontecia com a ação política dos clássicos movimentos revolucionários – em que a meta era a tomada do poder -, o ponto de partida da análise de Lúcia é de que os grupos que propõem ações culturais pretendem valorizar o processo de atuação, que adquire as formas da vida contemporânea. Fluído, em redes, nômade, usando a internet como instrumento, estas ações culturais crescem e ganham adeptos no vácuo do descrédito com as instituições tradicionais e com a estrutura de representação, ainda uma precondição para o exercício político.
A grande questão que atravessa o livro é saber se estes novos paradigmas de ação e resistência chegam a se constituir no que a autora chama de “novo projeto de democracia, em que a participação ativa dos sujeitos garantirá a ampliação da esfera pública”. É também na formulação deste problema que aparece uma charada que a obra instiga o leitor a decifrar. A qualidade e a atualidade do trabalho de Lúcia são alentadoras, sobretudo num cenário acadêmico em que nem sempre a produção prima por essas duas marcas, ainda mais quando simultâneas. Num horizonte em que grande parte dos pesquisadores trabalha marcado por nostalgias de um passado ideal perdido, Lúcia tem a coragem de investigar fenômenos recentes – a maioria das ações culturais começou há uma década, nos anos finais do século passado – e de refletir a partir de uma precariedade que costuma ser recusada pela pesquisa tradicional.
Disciplina versus controle A autora parte da idéia da sociedade disciplinar para propor que os corpos indisciplinados são uma forma de contestação cultural da presença inevitável nas regras de comportamento tal como pesadas por Michel Foucault. Por sociedade disciplinar, o pensador francês entendia todos os mecanismos institucionais capazes de gerir o tempo e normatizar o uso do espaço, como a fábrica, a escola, o hospital ou o quartel. Lúcia poderia ter ficado num lugar confortável – bastava ter seguido a idéia de sociedade de controle de Gilles Deleuze, em que o poder se desloca do binômio tempo/lugar e se instala nos aparatos tecnológicos cada vez mais sofisticados. A originalidade de Lúcia está em usar Deleuze não como um ponto de chegada, mas como ponto de partida para suas proposta
“A criação de uma sociedade livre de relações de poder”
Se as sociedades de controle são um modelo de pensar a forma como o poder se exerce sobre os sujeitos, seria fácil – e profundamente saudosista pessimista e desanimador – concluir que não resta o que fazer. Mas o olhar de Lúcia enxerga em uma multiplicidade de manifestações um conjunto de ações culturais cujos principais propósitos seriam a valorização do processo de atuação, a flexibilidade, a singularidade, uma espécie de credo que professa sua fé não na tomada do poder, mas no “antipoder”, definido por Lúcia como “a criação de uma sociedade livre de relações de poder”.
Há um paradoxo que a autora não chega a enfrentar: ao transformar uma série de ações culturais que se pretendem redes fluídas e flexíveis num conjunto mais ou menos uniforme de ações que teriam o mesmo objetivo político, o de instituir uma nova forma de democracia, Lúcia corre o risco de caracterizálas como o oposto do que almejam ser. É deste paradoxo que emerge a charada que a leitura impõe ser decifrada. Todas as ações que ela pesquisa se pretendem “fora” da política tradicional. Uma vez transformadas em ações políticas que podem trazer um “novo projeto de democracia”, elas passariam a se inscrever nas próprias estruturas que contestam e estariam mortas por falta de oxigênio. Como ações culturais, só poderiam cumprir seu papel estando do lado “de fora” da política tradicional, ou estariam renegando o principal ponto a que se propõem: mudanças no comportamento singular de cada um e não a instituição de um modelo político que determine uma forma de poder. Como toda boa charada, a solução está diante dos olhos do leitor, no subtítulo de um capítulo do livro de Lúcia: não há lado de fora.
Participação do Leitor
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