O autor, atuante no aparelho de Estado francês, deixa claro que seu livro não é para especialistas em economia, muito menos um livro técnico
Dois importantes e complementares livros, publicados no ano passado, enriquecem o campo de estudos da economia da cultura no Brasil. Um deles é o clássico de Françoise Benhamou, “A economia da cultura”, e o outro é “Cultura e economia”, de Paul Tolila, até então autores inéditos no Brasil. São obras que, em perspectivas distintas, contribuem decisivamente para ampliar e atualizar um campo de conhecimento que, embora já date de meio século, permanece quase ignorado no país. O livro de Tolila foi publicado simultaneamente no Brasil e no México, aqui fruto de uma parceria entre a Iluminuras e o Itaú Cultural (um tipo de parceria, aliás, promissora por apontar para a afirmação de um padrão que une a atualidade do tema abordado à qualidade da equipe envolvida na produção, além de permitir ampliar a circulação). Tolila escreve de forma abrangente, com texto claro e agradável para todo leitor.
O autor, atuante no aparelho de Estado francês, deixa claro que seu livro não é para especialistas em economia, muito menos um livro técnico. Trata-se de uma contribuição “para esclarecer como as análises econômicas permitem compreender melhor os fenômenos culturais e explicar a sua evolução”. Neste sentido, promove uma análise eclética na qual conteúdos de economia e de sociologia da cultura são alguns dos referenciais adotados. Informativo, o livro refere-se a relações contemporâneas entre o desenvolvimento sócio-econômico e a dinâmica do setor cultural. Tolila centra-se no estudo das idéias e das ações do Estado e do setor privado, com base numa perspectiva histórica. Na primeira parte (“Como a economia chega à cultura: as principais questões”), o autor apresenta uma visão panorâmica que faculta ao leitor entrar em contato, de modo sintético, com a reflexão contemporânea neste campo. Na segunda, vai no sentido inverso.
O título que escolheu para essa parte – “Cultura e desenvolvimento: como a cultura contribui para a economia” – já diz muito sobre o desejo do autor de lançar um olhar prospectivo sobre a economia do conhecimento. Finalmente, na terceira parte (“Observação da economia cultural: um desafio para a ação”), opera em nível de abstração distinto do restante do livro, ao discutir formas de observação, mensuração e construção de indicadores, para permitir a avaliação e a supervisão estratégica no campo da política cultural. Ao contrário de Tolila, Françoise Benhamou, professora das universidades de Paris e Rouen, escreveu um livro disciplinar e formativo, que exige conhecimento básico de economia, introdutório, que mesmo assim pode ser lido por um público não especializado. O livro fornece conceitos indispensáveis para o estudo do setor. Benhamou descreve e analisa, sucessivamente, como a população consome bens culturais e como este consumo gera emprego e renda. Observa a questão da economia dos espetáculos ao vivo e do importante papel desempenhado pelas subvenções estatais. Aborda ainda o mercado de arte (discutindo o preço das obras e a rentabilidade dos investimentos patrimônio cultural. Seu livro tampouco deixa de fora a indústria cultural – como as indústrias do livro, do disco e do cinema (sendo a lastimar a ausência da mais importante de todos em termos econômicos, a da televisão), com destaque dado à concentração de empresas e ao impacto das novas tecnologias e da globalização. Benhamou discute ainda formas de políticas culturais e os seus fundamentos econômicos.
A lamentar, apenas, a presença de vícios tradicionais da editoração brasileira. Primeiramente, a falta no livro de atualização (por exemplo, há referências a uma lei que será votada em… 2004!). A publicação também sofre com os tradicionais problemas de tradução: a falta de uma revisão técnica faz com que alguns conceitos sejam imprecisos ou equivocados (como a tradução de “efeitos externos” no lugar de “externalidades”). Notas de rodapé também ajudariam a esclarecer termos correntes em economia. Mesmo assim, ambos os livros são bem-vindos por darem grande contribuição para a superação do atraso intelectual brasileiro nesse campo.
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