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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
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21 de fevereiro de 2008

Restauração traz de volta acervo do Museu

A Gazeta - MT, LFV, 21/02/2008

Pelas mãos do artista Ariston de Sousa as peças ganham vida e o trabalho a admiração de especialistas

Quem viu o estado em que se encontravam muitas das peças que fazem parte do Museu de Arte Sacra - que está sendo montado no Seminário da Conceição, ao lado da Igreja do Bom Despacho - e vê agora não expressa outra reação que não seja de admiração. O responsável pelo trabalho, o restaurador Ariston Paulino de Sousa, mostrou mais uma vez que é um dos melhores profissionais do ramo no país. Em algumas peças ele chegou a refazer a maior parte, mesmo com poucas referências, o que lhe rendeu elogios de especialistas.

Esta semana, após três anos de trabalho difícil e minucioso, o acervo do Museu de Arte Sacra retornou ao Seminário da Conceição para a conclusão do restauro, montagem e instalação das peças em local definitivo. Uma operação também difícil, conta Ariston. O caminhão, descreve ele, não conseguiu subir a íngreme ladeira que fica em frente ao complexo e cujo asfaltamento de paralelepípedos não permitia uma boa aderência. O resultado foi uma cansativa procissão de pessoas tendo que levar as pesadas peças por um longo trecho.

Passado o sufoco, o sentimento do restaurador é de alívio em ver que o material está de volta ao local onde ficará daqui para a frente. São partes de quatro altares centenários, imagens sacras, paramentos e alfaias que estavam no ateliê do escultor. O trabalho foi um grande desafio para o artista que também assina obras similares na Igreja do Bom Despacho, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito e na Igreja de Nossa Senhora da Guia, entre outras.

Usando como exemplo um enorme altar em estilo neoclássico do início do século 19, com 7,4 metros de altura por três de largura, Ariston mostrou a descoberta de pinturas que nem os mais antigos moradores da Capital conheciam ou tinham ouvido falar, onde predominavam o azul e o vermelho marmorizado. Segundo ele, muitas peças receberam várias repinturas, acumulando três ou quatro camadas de tinta. Ou seja, para chegar ao aspecto original foi preciso um trabalho quase cirúrgico.

Houve momentos em que Ariston teve que recriar lados inteiros, como no caso de uma mesa de altar. Havia somente pedaços das laterais e ele teve que fazer a parte da frente inteira com o pouco que conseguiu apurar. Algo bem diferente, por exemplo, dos sobrecéus, que tinham referências. Foi também um grande trabalho de pesquisa, salienta ele. Tão difícil que decidiu-se deixar as partes refeitas sem pintura, para que os visitantes possam ter a dimensão do que foi feito ali. “Nós só impermeabilizaremos com um produto especial para proteger”, disse. É uma forma de valorizar o trabalho da equipe, acrescenta Ariston.

Modesto, o restaurador conta que ficou feliz com o que ouviu dos técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), quando da vistoria realizada no material, em janeiro deste ano. Diz que não consegue esquecer quando um deles, profissional experiente na área, afirmou que Mato Grosso tinha sorte de ter as mãos e o talento de Ariston a seu serviço. Hoje são poucos os profissionais realmente competentes na área, apesar da grande demanda existente em todo o país.

Autodidata - O escultor lembra que esse é o tipo de atividade que não se aprende em escola. “São 35 anos trabalhando com madeira, 25 em Mato Grosso”, conta. Ariston já trabalhava no ramo quando morava em Goiânia, produzindo móveis coloniais para uma grande fábrica. Quando chegou ao Estado, foi trabalhar em Rondonópolis, onde ficou pouco tempo, ainda na área de móveis. Atividade que ele não largou. Ainda recebe convites para fazer restaurações e produzir peças exclusivas. Só que agora, como no caso da escultura e da produção de santos, tem que dividir espaço em sua agenda.

Há uma clara demonstração de preferência de Ariston. Ele é um entusiasta da restauração de peças antigas como as do Museu de Arte Sacra. Considera que dificilmente em outra parte do país, que não seja em locais como a Bahia ou Minas Gerais, se possa encontrar um acervo tão rico. São 4.215 peças, entre altares, móveis, ostensórios, lampadários, sinos, telas, oratórios, imagens de anjos e santos e muito mais. Somente de altares, são quatro grandes, que se fossem fragmentados dariam 150 pedaços cada um, ricamente decorados.

Ariston se mostra um artista multifacetado. Além do talento natural com a madeira, é um exímio escritor de poesias. Tem cerca de 200. São textos que escreve sem pretensão, que fluem naturalmente, sem uma imposição. Um deles, que declamou disfarçado de mendigo em um evento, chega a ser tocante pela forma consciente e indignada com que alfineta (para ser mais brando) o homem e as mazelas da humanidade.

O artista conta com tristeza que teve que parar de aulas, mesmo sendo um experiente e renomado restaurador, por pura questão burocrática. Na ocasião, chegou a perguntar se seria justo que gente como Michelângelo fosse impedido de ensinar o que sabia por ter sido um artista autodidata. No caso de Ariston, será uma questão de tempo. Depois de concluir recentemente o segundo grau, prestou vestibular e passou em primeiro lugar em História. Habilitado, ele pretende voltar a passar para a frente toda a experiência obtida.

Título: Abandono durou cerca de 20 anos

O acervo está em poder do Estado desde a década de 80, quando foi criado o Museu de Arte Sacra. Mas em função do descaso, as peças ficaram abandonadas no Seminário da Conceição por quase 20 anos. O prédio precisou de obras pesadas, como a troca de todo o madeiramento, incluindo o de janelas, portais e o assoalho que forma o piso superior. As formas obedecem ao estilo original das antigas estruturas e a recuperação do prédio histórico está em fase de acabamento.

De acordo com a equipe de revitalização, centenas de peças que compõem o acervo do Museu de Arte Sacra estavam entulhadas e sem as mínimas condições de preservação. “As policromias e as coberturas de ouro estavam totalmente enegrecidas, pois também estavam expostas ao excesso de umidade e a ação de fungos. Foi preciso uma higienização com produtos químicos para realizar a prospecção que determinou as cores que usaríamos e as partes a refazer”, esclarece Ariston.

A realização da obra está sendo possível graças à parceria entre Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado de Cultura, Associação de Produtores Culturais de Mato Grosso, Governo Federal, através da Lei Rouanet, BNDES, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a multinacional John Deere, que juntos investem cerca de R$ 1,5 milhão.


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