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Um encontro de gerações

Jornal do Commercio - PE, José Teles, 21/02/2008

Reconhecido no exterior, Ivan Lins divide palco com a revelação André Mehmari, na Praça do Arsenal da Marinha

Celebrando 30 anos de bons serviços prestados à música popular brasileira, a 16ª e última caravana do Projeto Pixinguinha 2007 chega à Praça do Arsenal, no Bairro do Recife, com apresentações de Ivan Lins e André Mehmari e banda. Os shows acontecem hoje (21h) e amanhã (19h), aberto ao público. Ivan Lins está com um trabalho novo, Saudade de casa, lançado em CD e DVD, no final do ano passado. Um disco diferente na longa carreira do cantor e compositor carioca, com um repertório de releituras de canções já gravadas por ele: “Mas não é uma coletânea de sucessos. Claro que tem alguns, mas canto também meus lados B, como Amar assim e Acaso”, diz Ivan Lins.

Com uma carreira iniciada no final dos anos 60, Ivan Lins é, com Tom Jobim, o compositor da MPB mais gravado no exterior, onde ele tem hoje seu principal mercado. Saudade de casa é um reflexo deste prestígio internacional. Foi gravado depois que Ivan passou quase um ano apresentando-se fora do Brasil. Hoje e amanhã, portanto, tem-se uma oportunidade rara de vê-lo ao vivo.

Nas apresentações que fez até agora com André Mehmari, Ivan Lins não tem mostrado o repertório completo do novo trabalho, pois o palco e o show são dividido em partes iguais pelos dois: “São vários vários blocos, em um Ivan canta suas músicas com a banda, em outro sou eu que canto as minhas, também com a banda, e também cantamos juntos”, explica André Mehmari. A caravana está vindo de Natal e fez uma parada antes em São Luís, no Maranhão. “Eu acho que uma das melhores coisas do Pixinguinha é esta oportunidade que de trazer outros tipos de música para a região. Ivan Lins já é muito conhecido, mas quase ninguém me conhece por aqui. Os espetáculos que a gente mostrou tiveram uma ótima recepção, pois apesar desta música muito ruim que está sendo dada ao povo, tem muita gente que escuta também coisas de qualidade”, diz Mehmari que, no entanto, não esconde que sua preferência era por realizar estas apresentações em locais fechados. “Parece que não se teve como agendar os teatros, então fizemos todos os shows até agora em praças públicas, e a minha música não é mais apropriada para este tipo de locais. Por isto nem estou tocando com piano, e sim com teclados”.

Nascido em Niterói (RJ), André Mehmari é considerado um dos mais talentosos instrumentistas de sua geração (é da classe de 1977), vencedor do Prêmio Visa de MPB, em 1998, e do Carlos Gomes na categoria revelação, no ano passado. Mehmari é também compositor talentoso. O repertório do elogiado que gravou com Ná Ozetti (piano e voz) foi apresentado no ano passado no Santa Isabel: “Foi um dos melhores shows deste disco. O teatro estava lotado, e o público nordestino é diferente, por exemplo, do público de São Paulo. É mais à vontade, responde com mais facilidade à música”, elogia Mehmari.

Ao contrário da grande maioria dos artistas da MPB, que rebatem qualquer crítica feita à música popularesca que invadiu as praias do País inteiro, e de forma mais exacerbada da Bahia para cima, André Mehmari não se esquiva de dizer o que pensa sobre, por exemplo, a música axé. “A Bahia depois de ter um Dorival Caymmi, tem dado ao Brasil uma música que, tenho que dizer, é uma lástima. As pessoas gostam muito mais por falta de oportunidade, porque não lhe oferecem outro tipo de música”.

Ivan Lins e André Mehmari são acompanhados por uma banda formada por Neimar Dias (contrabaixo acústico e viola caipira), Sérgio Reze (bateria e percussão) e Tatiana Parra (voz), enquanto Ivan Lins canta e toca teclado ao lado de Nema Antunes (baixo), Marcelo Martins (saxofone) e Leonardo Amuedo (guitarra).

Idealizado em 1977, por Hermínio Bello de Carvalho, inspirado num outro projeto, o Seis e Meia, criado pelo produtor Albino Pinheiro, no Rio, o projeto Pixinguinha foi a mais bem-sucedida iniciativa de levar música de qualidade às principais cidades do País, a preço populares. Trazendo artistas consagrados e revelando iniciantes (Djavan e Zizi Possi tornaram-se conhecidos a partir do Pixinguinha). Interrompido em 1990, no governo Collor, o projeto foi retomado pela Funarte em 2004. Para celebrar as três décadas, os shows das 16 caravanas a edição 2007 foram filmados, com dirção de Cláudio Lins para o registro em DVD.

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