Um celular com tecnologia GPS que vira um pincel para desenhar sobre um mapa digital. Uma incrível ferramenta de buscas que caça imagens em toda a internet para representar sonhos. Um software que junta todas as fotos de sua máquina digital e cria sobre elas uma imagem panorâmica em 360°. Quem vê essas descrições logo imagina que o Link foi até uma nova feira de tecnologia. Não parece, mas elas são obras de uma exposição de… arte!
Pela primeira vez em Porto Alegre, o Festival de Linguagem Eletrônica, o FILE (www.file.org.br), está mostrando como cada vez mais ferramentas hi-tech que fazem parte de nosso dia-a-dia podem ganhar um viés artístico. O evento tem como tema o projeto “Se Liga”, um convite para que as pessoas se conectem ao mundo virtual e às novas formas de arte: a tecnologia do século 21.
O grande exemplo dessa conexão é a proposta inédita de dar ao FILE duas mostras simultâneas: uma na capital gaúcha, que começou no último dia 20 e segue até 20 de abril no Santander Cultural, e outra menor no Rio, que irá de 27 fevereiro a 30 de março. Juntas, as exposições gratuitas somarão 323 obras e instalações de 206 artistas de 30 países. Muito do que está sendo apresentado em Porto Alegre já foi exibido nas outras oito edições do evento, mas também há obras inéditas.
É o caso de GPSarte, dos artistas brasileiros Cícero Silva e Marcos Khoriati, que faz uma ponte entre a mostra de Porto Alegre e a carioca. Eles criaram um software especial para celulares (www.gpsarte.com) que, na verdade, é um GPS comum. O seu diferencial é traçar o percurso e pintar com cores a rota feita pelo espectador em um mapa do Google Maps. Duas telas LCD mostram qual foi o caminho feito pelos públicos gaúcho e carioca. A idéia é transformar qualquer pessoa em um artista digital.
Dreamlines, do argentino Leonardo Solaas, traz um terminal de computador em que o espectador deve digitar uma ou mais palavras que possam definir um sonho que ele deseje sonhar. O sistema (Google, no caso) procura na internet imagens associadas a essas palavras e depois as difunde em uma só pintura cheia de pixels, criando um caráter onírico.
Já Convergenze Parallele é uma instalação audiovisual em que, quando se assopram partículas de pó em frente a um microfone, criam-se efeitos sonoros e feixes de luz em um telão. O trabalho do norte-americano Ernesto Klar faz referência a um clássico da arte digital: Les Pissenlits, dos franceses Edmond Couchot e Michel Bret.
Como em toda mostra de arte eletrônica, a interação é a palavra de ordem entre as obras apresentadas. Essa relação entre artista e público é o grande barato da arte digital, pois acaba atraindo um público que não é muito visto em exposições artísticas: crianças e jovens que possivelmente não teriam lá muita paciência para apenas contemplar um trabalho.
Hermanos
Apesar de Porto Alegre ser considerada uma cidade em que a cultural digital é muito presente e debatida (em abril haverá a nona edição do Fórum Internacional Software Livre), o curador Ricardo Barreto levou o FILE à capital gaúcha por outro motivo – a proximidade com o Uruguai e Argentina. “É um ponto estratégico. Esses países são pólos de cultura digital e seus artistas não têm muito espaço para divulgar seus trabalhos.”
A busca pelos “artistas hermanos” ocorre porque a participação brasileira no evento ainda é muito pequena. Dos mais de 200 artistas que estão no FILE, cerca de 20 deles são brasileiros. A próxima edição do festival na capital paulista será de 4 a 31 de agosto.
Participação do Leitor
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