A televisão está saindo de moda. Cada vez mais, as pessoas assistem a seus seriados e filmes prediletos no computador, que agora assume um papel novo. Em entrevista ao JB, Ronaldo Lemos, representante brasileiro da nova licença para direitos autorais, o Creative Commons, comenta a tendência e prevê o futuro da internet e da TV no Brasil e no mundo.
Como será a televisão do futuro?
- A televisão, como várias outras redes de telecomunicação, está passando por um processo acelerado de convergência. As diferenças entre o que hoje chamamos de internet e serviços de telecomunicação e mesmo de “broadcast” estão ficando cada vez mais tênues do ponto de vista tecnológico. Nesse sentido, acho que a TV vai, sim, ficar cada vez mais próxima da internet do ponto de vista tecnológico e de negócios. No entanto, independente desta convergência tecnológica, sempre haverá espaço para uma programação típica da televisão, em que o espectador assume um papel passivo quanto ao que está sendo transmitido. Nem todo mundo quer interagir o tempo todo.
A que se deve esta mudança de comportamento?
-A mudança deve-se principalmente ao fato de os consumidores estarem assumindo um papel ativo na definição do que desejam assistir. A tecnologia permite hoje grande flexibilidade com relação ao acesso aos conteúdos, bem como o formato no qual eles são assistidos. O modelo da televisão no centro da sala, como única forma de entretenimento, está sendo diversificado. A TV concorre hoje com outras telas que estão em casa, como a do computador, as de vídeo-games, de iPods e de celulares. Esse fenômeno não é inédito, aconteceu também com o rádio, que ocupou por anos o centro da sala, e depois teve seu papel transformado.
Nelson Rodrigues afirmou que a televisão matou a janela. O computador pode “matar” a televisão? Este é o começo do fim da TV como a conhecemos?
- Não acredito que o computador vai matar a televisão no sentido de “broadcast”: uma programação constante, gerada de forma centralizada e transmitida para um grande número de pessoas. Afinal de contas, continuará a existir a demanda originada de pessoas que querem chegar em casa e sentar no sofá para assistir a uma programação pré-definida que não exige a participação ativa do espectador. A tecnologia digital e o computador podem, no entanto, transformar completamente as formas pelas quais essa programação irá chegar aos consumidores.
No Brasil, onde consumidores passam muito tempo em frente a televisão, apenas 13% da população têm acesso à internet. Quando a “internet-TV” se tornará realidade?
- As experiências de levar a internet através da televisão digital falharam no mundo todo. O sistema é caro e ineficiente, por várias razões, dentre elas o fato de que a maioria dos websites não foi desenhada para ser exibida nos padrões das telas de televisão, o que torna a visualização e navegação muito mais difíceis. O que já está acontecendo é justamente o inverso: a TV chega cada vez mais por intermédio da infraestrutura da internet.
A tendência é o consumidor escolher o que quer assistir. Isso significa menos dinheiro arrecadado com propaganda?
- Ao contrário. Sou totalmente otimista quanto à possibilidade de novos modelos de negócio derivados dessas novas tecnologias. Acredito que a receita publicitária tende a crescer muito com a TV digital, por exemplo, sobretudo porque ela permite criar novos produtos publicitários baseados nas possibilidades de interatividade. Além disso, a TV pode se beneficiar muito de uma relação mais integrada com a internet. Nos EUA, isto está acontecendo de forma muito interessante e promissora. No Brasil, o uso da internet em paralelo a programas de televisão ainda é muito tímido. Com um pouco de criatividade, é possível usar a rede para re-energizar o interesse pela televisão.
Como a televisão tradicional pode competir com a “internet-TV”?
- Esse é o grande desafio. Se a televisão não abraçar rapidamente a internet como aliada, dificilmente ela conseguirá segurar a invasão de conteúdo produzido fora das redes de TV.
Nesse sentido, acho que a interatividade trazida pela TV digital apresenta possibilidades interessantes, mas o que precisa ser explorado mesmo é a chamada “interatividade de duas telas”, em que o computador e a televisão convivem e interagem dentro da sala, um complementando o outro.
Logo será possível baixar vídeos pelo celular. Até o computador pode estar condenado?
- Sim, o computador não escapará desse processo. Ele passa por um processo de “desmaterialização” muito grande. As tecnologias móveis, como demonstrou o iPhone, irão tornar o conceito de computador cada vez mais abstrato e descentralizado. A tendência é o que chamamos hoje de computador e de internet acabarem se espalhando e perdendo a forma definida, passando a estar presente na televisão, nos celulares e em outros aparelhos cotidianos, que hoje não identificamos como parte da Rede.
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