18 de março de 2008
Boal e Turino em BsB
Como acabar com a burocracia?
Guilherme Barcellos: 1tantan
TEATRO DO OPRIMIDO 13 MARÇO 15 HORAS MUSEU NACIONAL DE BRASÍLIA
Depois do evento, pergunto ao Mestre Augusto Boal: Qual o próximo passo para acabarmos com a burocracia do seu pesadelo? Ele responde “A paz tem um grande inimigo. A passividade. Temos que fazer alguma coisa enérgica contra a burocracia. Vocês que estão aqui em Brasília devem…” no final eu conto…
Agora do começo: 15h14 abrem-se as portas, mais ou menos 120 jovens na platéia - alunos de um colégio do ensino médio e da Faculdade Dulcina de Moraes, jornalistas, etc. Agitação efervescente, comum aos adolescentes e artistas cênicos. 15h18 começa o vídeo sobre o ![]()
, mostrando imagens e entrevistas de alunos e multiplicadores do método criado por Augusto Boal, que está no Nepal, índia, África, EUA e Europa. Aqui no Brasil há 60 multiplicadores em 20 grupos que criaram 19 músicas originais e quase 300 peças artísticas: pinturas, esculturas, poesias, etc. Juliana do Nascimento Soares, aluna da Escola Municipal São Bento explicou como sua turma retratou o estandarte do Brasil: “Na bandeira colocamos outras cores, o preto e o sangue pra violência… frases diferentes como ’salve este pais’…a gente expressou ali o que a gente vê no dia a dia.”
Na explicação de Boal, vemos como sua idéia é fomentar a pedagogia ao invés da educação: “educar quer dizer mostrar o que já se sabe, vem do Latim educare = mostrar o caminho, já a pedagogia é colocar o jovem ou outra pessoa em condições de seguir seu próprio caminho”. No site, aprendemos que “o CTO-Rio implementa projetos que estimulam a participação ativa e protagônica das camadas oprimidas da sociedade, e visam à transformação da realidade a partir do DIÁLOGO e através de meios estéticos.” Boal: “Não é preciso ser poeta pra se fazer poesia, mas fazendo poesia viramos poetas. Somos aquilo que fazemos. A plateia abandona sua prisão que são as poltronas e vem protagonizar pois quem protagoniza segura as rédeas de sua vida.”
Foram criadas 22 cenas de Teatro Fórum onde uma pergunta é trazida ao público e ele responde. A realidade é apresentada em cena de cerca de 10 minutos, o espectador assume um dos papéis mas age de forma diferente conseguindo transformar esta realidade. Temas comuns: violência doméstica; abuso de poder na escola - diretoria sobre professores, e estes sobre alunos; discriminação dentro e fora da escola, influência da familia…
Assistimos 3 cenas: 1 - Opressão `a mulher dentro do acampamento dos Sem-Terra. 2 - “A entalada”. Falta de acessibilidade: gorda presa na roleta do ônibus. 3 - “Invasão”: estupro juvenil, tão forte e tocante que ganhou a votação para ser revivida com novas idéias para a menina de 13 anos se safar. A melhor solução, após 3 tentativas e muita discussão, foi apresentada por uma… adolescente de 13 anos que reviveu a personagem mas com a esperteza de não entrar na casa onde ficaria só com seu agressor. Aplausos muitos!
Célio Turino, o Secretário de Programas e Projetos Culturais do Ministério da Cultura, teve seu momento neste evento. Afinal o MinC tem convênio em vigência com o CTO-Rio, Teatro do Oprimido de Ponto a Ponto, cujo objetivo é “contribuir para o fortalecimento e a dinamização dos Pontos de Cultura envolvidos na iniciativa, através da capacitação de seus profisionais e/ou calaboradores, para ampliar e diversificar as possibilidades de atuação junto as comunidades circunvizinhas”. Célio não esqueceu seu inseparável chapéu para defender o projeto mais elogiado do ministério, o Programa Cultura Viva como iniciativa que potencializa pontos que já existem, ‘desescondendo’ o Brasil. Oferecendo a possibilidade da cultura trabalhar a união da ética, da estética e da economia. “O Programa ajuda os Pontos de Cultura na busca da solidariedade, colocando todos em rede para não ficarem isolados e sem sentido. Aquilo que fazemos para nós mesmos tem outro sentido para outros, os pontos vão conversando entre si e aprendendo uns com os outros, um contribui com o outro e vamos vendo que neste mar de diferenças há muita similaridade e vamos construindo esta convergência plena como o Teatro do Oprimido.” Agregando novas ações, mestres da cultura oral e tradicional, ligação da escola com a comunidade, ações com a juventude. O foco em 2008 é disseminar a idéia da cultura de paz, e dos pontinhos da cultura, do lúdico da brincadeira, especialmente para as crianças. Transformando este país e este planeta em um lugar que nós tratamos bem e que nos trata bem. Quando estamos bem cuidados cuidamos bem de tudo. Isso que é cultura = cuidar, ter cuidado.
O ponto alto do evento aconteceu exatamente no meio deste: a fala do Boal sobre o que ocorreu há 2500 anos atrás e o pesadelo que teve na noite anterior a esta apresentação. Talvez tenha se inspirado no desabafo do locutor que o precedeu que afirmou ser a burocracia o maior problema da Secretaria que comanda. O mestre nos contou da Grécia onde os camponeses viveram o fato da disciplina ser absolutamente necessária mas tolher a liberdade individual. Para plantar é preciso disciplina, plantio, poda e colheita no momento certo, etc. Assim os camponeses, depois de muito trabalho, se aliviavam cantando contra a religião, o governo e seus meios. O poder não aceitava mas tinha de dar liberdade para esta catarse depois de tanto trabalho. Sólon, grande ditador da época, resolveu dar dinheiro para as poesias e danças, promovendo os Cantos Ditirâmbicos. A primeira violência contra a liberdade. Mesma música e dança, evitando as críticas espontâneas ao sistema.
Como o sambódromo que domesticou o samba carioca, os Cantos terminavam numa grande praça onde os mandantes do governo viam o final da festa. Um dia, Téspis, inspirado coreógrafo e poeta, bebeu um pouco demais, saltou do coro e começou a dizer exatamente aquilo que pensava e sentia, refletindo o pensamento de todos. Sólon, muito elegante, sorriu e não disse nada. Depois, em particular, falou: Você nunca mais faça isso, dei $ para você dizer o que tinha sido ensaiado e você falou contra Deus, contra o Governo! Quem falou não fui eu, defendeu-se o poeta, o que fiz foi hipocrisia (fingindo ser quem não sou), você me viu falar mas eu estava apenas expressando o que todos sentem. Sólon cortou o artista: Quero censurar até sua improvisação da próxima vez. Téspis inventou as roupas os adereços mas não pode mais dizer o que sentia, pois era censurado. O poder sempre tenta censurar o teatro por causa da sua força.
“Nunca falei bem do governo. Pela primeira vez sou a favor do Governo. Defendo o Ministro Gil e o Juca (Ferreira, Secretário Executivo do MinC). Mas mesmo dentro deste bom governo existe a burocracia. Dentro da lei existem seres humanos. Absurda a existência de certas burocracias herdadas da ditadura infame que infectou este país. Meu pesadelo começou com Judy Garland, menininha, dançando pelo jardim e eu passeando naquela coisa lindissima, aquela grama verdissima, maravilhosa. Aí um pitbull entrou no pesadelo, o grunhido do pitbull era como o meu “que criancinha linda”, mas com sentido gastronômico. Peguei uma barra de ferro e fui até lá. Alguém me pega pelo braço, um guarda, que diz “não viu o cartaz? É proibido pisar na grama”. “Eu respeito a lei”, retruquei, “mas me desculpe, pois tenho que salvar a criança”. “Tudo bem, mas primeiro pega autorização na Secretaria de Parques e Jardins. Saí correndo para lá e o funcionário disse que não poderia me ajudar - era hora do almoço! Adiantei meu relógio mas tive de explicar a 3 burocratas, porque cada um respondia que era fulano quem cuidava daquele assunto. Finalmente encontrei o responsável que falou “um fiscal tem de ir comprovar”. Levei o fiscal no colo e vi que o cachorro já tinha comido o braço direito da menina. “O senhor tem razão mas temos que voltar à Secretaria”. Bateu a autorização numa máquina de escrever antiga e foi procurar a pessoa que carimba e assina. Quando voltei ao parque a criança tinha apenas cabeça do lado de fora da boca do cão, estava chorando e pedindo “me salva, me salva”… e foi engolida!”
“Temos que fazer um manifesto contra a burocracia, pois isso é o que acontece em nossa realidade.”
A resposta sobre qual o próximo passo? “Vocês que estão aqui em Brasília devem… descobrir qual a resposta. Vocês estão mais perto!” Tal qual um Mestre Taoísta, Boal nos devolve a pergunta e conclama que sejamos os protagonistas da resposta, mas dá uma dica desconstruindo o ditado popular ‘cabrito bom não berra’. Para Boal: “O cabrito que mais berra é o que vive mais.”
- Publicado por gsouza
- Categoria(s): Artes Cênicas, Visuais e Música, Cultura Viva, Encontros e Fóruns, Matérias Especiais, Notícias do MinC, O dia-a-dia da Cultura
- Tags: Augusto Boal, Célio Turino, Cultura Viva, Museu Nacional de Brasília, Teatro do Oprimido
Últimos comentários
3 comentários para "Boal e Turino em BsB"
já tive oportunidades de presenciar por diversas vezes atuação de Boal em diferentes momentos históricos do País. Sou aposentada da FUNARTE-Rio, como faço para localizar e frequentar as oficinas do CTO? Existe algum programa de bolsas do MinC pro CTO?
RESPOSTA, por Guilherme Barcellos: Para as oficinas, entre em contato com o CTO. Não há bolsas do MinC para o CTO.
Este comentário soa como profecia. Mas as coisas estão para mudar, graças aos subúrbios e periferias.
1º abril-reunião do Fórum de Cultura do DF às 19h30 no Esp. Cult. Renato Russo, 508 Sul. Pauta: aprovação do PELO 25 (Proposta de Emenda à Lei Orgânica) http://www.cl.df.gov.br/portal/noticias/camara-debate-proposta-de-incentivo-a-cultura-no-df/