24 de março de 2008
Paranapiacaba tenta atrair de turista “zen” a “baladeiro”
Folha de S. Paulo - SP, Alencar Izidoro, 22/03/2008
Zoneamento inédito na vila prevê áreas de atividades noturnas e de bem-estar
Lei para preservar região tombada pelo patrimônio proíbe garagens cobertas, fixa multas por alteração em casas e provoca rebuliço
Os moradores estão proibidos de ter garagem coberta para os carros. Algumas vias serão até fechadas ao trânsito de veículos. E ai de quem ousar trocar um vidro da janela ou pintar uma parede sem a devida autorização do município: as multas para quem mexer nos imóveis variam de R$ 120 a R$ 5.000.
A mão-de-ferro vale há três meses em Paranapiacaba, típica vila ferroviária inglesa do século 19, a 50 km de São Paulo, tombada pelo patrimônio histórico e gerenciada pela Prefeitura de Santo André, no ABC.
As regras com a alegação de preservar e recuperar a paisagem e suas 334 casas de madeira que abrigaram trabalhadores da primeira ferrovia do Estado viraram motivo de rebuliço entre os 1.400 habitantes.
Mas, para os turistas, elas estabeleceram planos bem diferentes, na tentativa de atrair gente de todos os tipos -de estudantes ou interessados na história de Paranapiacaba ao “zen” ou até ao “baladeiro”.
O zoneamento inédito aprovado no final do ano passado prevê uma mistura eclética de estilos na antiga vila operária que ainda tenta se recuperar da decadência vivida nos anos 90, quando a paisagem de composições enferrujadas após a desativação da ferrovia se juntou à dos “puxadinhos” ao lado das casas -como favelas com status de patrimônio histórico.
Agora Paranapiacaba reservou parte de seu território para receber serviços diferenciados de bem-estar, incluindo massagem, relaxamento físico e mental, retiro espiritual. O antigo hospital deverá virar um spa.
Outro quarteirão foi destinado aos boêmios, para bares e restaurantes da recém-criada zona de “atividades noturnas” -ainda bastante incipiente.
“A vila não tem esse perfil. O silêncio aqui sempre foi valorizado”, reclama Zélia Maria Paralego, 56, da entidade de preservação de Paranapiacaba.
Zilda Maria Bergamini, 51, dona de um dos bares diurnos famosos da vila, conta que as festas já se diversificaram. Semanas atrás ela ficou impressionada com uma que atraiu dezenas de gays. “Gente muito educada, simpática e com dinheiro. Sabe desses quem nem perguntam quanto custa?”
As outras três áreas na divisão de Paranapiacaba foram: predominantemente residenciais, comerciais e de transição do parque das imediações.
No começo desta década não havia nem meia dúzia de comércios na vila, mas hoje eles somam 89 e as novas normas permitem que cheguem até 167 -50% do total dos imóveis.
A prefeitura diz que já planeja inclusive a retomada do cinema no Clube União Lyra Serrano -que abrigou a segunda sala de filmes do Brasil, em 1903.
Nos últimos seis anos, foram lançados festivais, houve incentivos para a instalação de 172 leitos de hospedagem, exposição do artesanato local, e a demanda de visitantes saltou de 41 mil para 220 mil por ano.
Quem visita a vila, entretanto, ainda se depara com imóveis históricos degradados e condições de pobreza da população.
A principal tacada dos planos turísticos é a volta de um trem semelhante ao que fazia a ligação da vila à estação da Luz, no centro, e que foi gradualmente desativado nos últimos anos.
A idéia, em discussão com União e Estado, é que haja uma composição só aos finais de semana para percorrer 17 km até Rio Grande da Serra -onde já existe uma estação da CPTM.
O presidente do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), Luiz Fernando de Almeida, visitou Paranapiacaba na semana passada e encampou a proposta. “Vamos trabalhar para ter esse trem turístico no curto prazo [que, nesse caso, deve ser interpretado como uns dois anos]“, promete Almeida, que define a vila como “a Ouro Preto do patrimônio ferroviário no Brasil”.
- Publicado por Marcelo Lucena/Comunicação Social
- Categoria(s): Na Mídia
- Tags: Patrimônio Cultural