Ministério da Cultura - MinC

terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Imprimir este post Enviar por e-mail

27 de março de 2008

Joichi Ito: Sem abertura, internet perde poder de inovação

Marcelo Nóbrega - Futuro.vc

link para o post original

joi.jpgA história de Joichi Ito se confunde com a da internet comercial. O investidor japonês é o homem dos vários empregos – diretor do conselho do Creative Commons e da Six Apart Japan, participa do conselho do Technorati, Digital Garage, iCommons, Mozilla Foundation e Socialtext e é fundador da empresa de investimento de risco Neoteny. Nessa entrevista, Ito conversa sobre inovação, o momento atual da internet, perspectivas para o futuro e comenta a possível bolha que mais uma vez se forma no mercado online.
Quais são as características da internet que garantem seu potencial de inovação?

O fundamento da internet são as redes abertas. Elas permitem o grau de inovação impossível de ser encontrado nas redes de celular ou de TV a cabo, por exemplo. Com isso, os empreendedores podem criar sem ter que participar do status quo. Mas, mesmo em redes abertas, em algum momento há monopólios. Foi o que aconteceu com a Microsoft com os navegadores web e é o que parece acontecer com o Google na publicidade online. Para as empresas, a rede aberta é competitiva, mas nem sempre ela é estimulada pelo mercado. O Google incentiva o open source nos navegadores porque pode oferecer suas opções de produtos sobre ele, mas não é aberta com sua plataforma publicitária. A IBM ganha mais dinheiro com o Linux do que com suas patentes. Normalmente, empresas que crescem muito tendem a ser mais fechadas. Temos que lutar para manter a abertura, senão a internet perde o seu poder de inovação. Em relação ao celular, que começa a se tornar uma plataforma séria para a internet, não é assim.

Qual é o receio com a telefonia móvel?

As operadoras controlam tudo. Adoro o iPhone, por exemplo, mas ele é fechado e controlado. Muitos sites no Japão, como o Mixi, a maior rede social aqui, já tem mais da metade do seu tráfego vindo de celulares. O celular torna-se mais importante que a web, mas é fechado. Falar de internet livre para uma operadora é dizer “cobre um preço fixo pelo acesso, não crie serviços e torne os pacotes de dados neutros, para qualquer uso”. Isso não é o que elas querem, filosoficamente ou como empresas. Elas vão sempre lutar pelo seu consumidor e pela marca, como acontece hoje com a Apple e o iPhone e as operadoras. Elas têm um monopólio, você não consegue uma licença para se tornar uma operadora.

Isso pode mudar com a 4G?

Pode, tudo é possível. Mas com o modelo de negócio das operadoras atuais, não imagino muita diferença.

Fale mais sobre a relação entre o público, as redes abertas e o mercado.

O público em geral tende a ter medo das redes abertas. O Facebook, como outras redes sociais, são fechadas, com sua lista de amigos única, com controle de spam, de ameaças eletrônicas, mas conforme cresce, torna-se assustadora. O que acontece é que o open source começa a desenvolver produtos e serviços semelhantes, e alcança os proprietários. Foi o que aconteceu com o Firefox, por exemplo. O open source é mais eficiente melhorando o que já existe do que criando inovação. Não imagino que o iPhone poderia ter surgido do software livre.

Alguns dizem que as redes sociais podem ameaçar os buscadores tradicionais em breve, tornando-se o ponto de partida para as buscas na web…

São duas buscas diferentes. O Google é como um índice de uma biblioteca, sem uma atualização muito rápida. O Technorati, por exemplo, já tem essa velocidade. Nas redes sociais, o internauta encontra informação com contexto – restaurantes que seu amigo gosta, o que você quis dizer com isso. Mas o Google não vai sumir. Pode atrapalhar o desempenho da empresa, que gosta de trabalhar com máquinas, com algoritmos. Mas o Google fatura bilhões com seu processo.

Como tem sido a evolução da web semântica?

Cresce bem e rápido, mas há muito o que fazer com padrões, com a infra-estrutura. Depois que a bolha estourou houve muita inovação com padrões abertos, como o RSS, quando as gigantes de hoje eram pequenas. Conforme elas crescem, tendem a não se interessar muito por colaboração em ambientes abertos. Querem parecer abertas, mas não o suficiente para perderem controle. E a web semântica se desenvolverá quando ninguém estiver no controle. Há muita conversa política. A tecnologia se desenvolve, mas eventualmente é barrada pela política. Estamos no momento de implementar o que foi criado antes, como a portabilidade de dados, com maior qualidade.

Há a sensação de que estamos próximos de outra bolha, com muitas startups e euforia no mercado…

Acho que já estamos na bolha. Difícil ter certeza, porque uma bolha tem que estourar e não acredito que será assim dessa vez. Da última vez, em 2001, os investidores disseram “a internet está errada”, e o mercado foi ao zero. Foi estúpido e muita gente ganhou dinheiro nessa época porque o mercado regrediu 50%, não totalmente. Hoje, é talvez fácil demais levantar dinheiro para uma startup. O investidor cobra informações sobre a proteção contra a competição, registro de patentes, e isso mais uma vez bloqueia a inovação, prejudicando a colaboração inicial. O dinheiro é bom para ampliar o produto. Flickr, Last.fm, Technorati, Six Apart e outras empresas que hoje são grandes só receberam dinheiro depois que já tinham bons produtos, com alguns milhares de usuários, que até desenvolviam para elas.

Mas os investidores parecem estar mais conscientes hoje…

Sim, mas ainda há muito dinheiro burro no mercado. O medo da recessão nos Estados Unidos pode estar freando a suposta bolha, mas a impressão que tenho é que as empresas que investi logo depois da bolha tinham planos de negócio mais fortes que as atuais. Parte porque o Google contratou muita gente boa, parte porque as empresas querem dinheiro antes de estarem prontas. Hoje têm apenas um plano e querem avaliação e US$ 10 milhões. Se esbarrarem com investidores estúpidos, passarão metade do tempo conversando com eles e pagando milhares de dólares para seus funcionários, para depois se preocuparem em como se tornarem lucrativos. Outro problema é que grande parte do dinheiro do investimento vem da publicidade na internet, que existe porque há empresas querendo se mostrar. É um círculo e se o mercado esfriar haverá menos dinheiro para tudo, como aconteceu na bolha passada.

Quem são os responsáveis por essa corrida por startups?

As empresas de mídia, que empurram as avaliações. Google e Yahoo são compradores bem mais razoáveis. Há exceções, como a avaliação do Facebook pela Microsoft, mas ela quer ser uma empresa de mídia. Vai ser diferente dessa vez, mas pouco antes da última bolha estourar, aconteceu a fusão entre a AOL e a Time Warner…

Quais são as empresas e serviços que lhe interessam hoje?

Gosto das empresas européias, porque têm esperam um pouco mais para correr atrás de dinheiro e amadurecem seus produtos. Jogos eletrônicos e celular, juntos ou não, se tornarão cada vez mais importantes. São dois mercados que andaram separados da internet, como acontecia com Hollywood há alguns anos. A inovação acontece quando há times pequenos, sem muito dinheiro, e com pouco a perder. As grandes empresas se inspiram com isso. Adoro o Google Docs, o Gmail, mas considerando o dinheiro e o número de talentos na empresa, é pouco. As gigantes não são boas para inovar, ponto. Têm o custo da falha embutido.

O Japão está alguns anos à frente do Ocidente em muitas áreas de tecnologia de consumo, como celulares e games. O que há de interessante hoje no Japão?

Uma empresa, Emobile, começou a oferecer acesso à internet no celular por 7.2 Mbit/s quase em flat rate, o que é ótimo e muito parecido com o que desejo para a internet na telefonia móvel. Há GPS em todos os telefones agora e muitos serviços de localização interessantes. As pessoas lêem e escrevem muito a partir dos telefones, que estão se tornando o meio principal de informação no pais. A TV digital no celular, no entanto, não tem rendido os cliques esperados para a internet.

*Entevista realizada originalmente para a Folha de São Paulo no fim de fevereiro.


Participação do leitor

  1. (250 caracteres restantes)
  1. (250 caracteres restantes)

Últimos comentários

2 comentários para "Joichi Ito: Sem abertura, internet perde poder de inovação"

RSS dos comentários

  1. 19 de junho de 2008 às 16:11 José Murilo Junior
    José Murilo

    Puxa, Marcelo!
    Que lapso imperdoável…
    Já está.
    Agradeço pelo ótimo trabalho.
    Saudações.


  2. 18 de junho de 2008 às 19:42 Marcelo Nóbrega

    José,

    obrigado pela reprodução da entrevista com o Ito. Adoraria a colocação do link para o Futuro.vc… ;)






Ministério da Cultura - MinC utiliza WordPress. © 2007 Governo Federal

O conteúdo deste sítio é publicado sob uma Licença Creative Commons. Transparência Publica Voltar ao topo