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Tão genial quanto o original

Correio Braziliense - DF, Lígia Maria Lopes, 11/05/2008

 Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, ganha versão fac-símile preparada para agradar críticos, colecionadores e bibliógrafos

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico, como saudosa lembrança, estas memórias póstumas.” Esse é o início de tudo. Da história do personagem morto Brás Cubas e da trajetória de Machado de Assis como gênio da literatura brasileira. Publicado em livro pela primeira vez em 1881, Memórias póstumas de Brás Cubas traz uma dedicatória sob forma de epitáfio e anuncia algo que seria surpreendente e inusitado para o leitor da época: um romance contado por um autor morto.

Neste ano em que se comemora o centenário da morte de Machado — falecido em 29 de setembro de 1908 e que, em 1997, se tornou patrono da Imprensa Nacional por decreto do presidente da República —, a editora Thesaurus e a Imprensa Nacional preparam-se para lançar, amanhã, a versão fac-símile do livro. “Poucos sabem que Machado foi funcionário do órgão, onde trabalhou como tipógrafo”, diz Victor Alegria, dono da editora que adotou o projeto idealizado pela entidade governamental, que também festeja seu bicentenário.

Aliás, o prelo (aparelho manual ou mecânico que serve para imprimir) usado por Machado de Assis compõe o Museu da Imprensa Nacional, localizado no Setor de Indústrias Gráficas.

Marc Ferrez/DivulgaçãoMarc Ferrez/Divulgação
Machado de Assis: maturidade alcançada com a obra de 1881

Entre as centenas de livros de Machado que desfilam gêneros diversos, como poesia, teatro, crítica, crônica e romance, Memórias póstumas, seu quinto romance, foi escolhido para essa versão comemorativa por ser o primeiro livro do escritor publicado pela tipografia nacional. “É também o livro que marca a maturidade do grande escritor”, observa o filólogo Domício Proença Filho, quinto ocupante da cadeira 28 da Academia Brasileira de Letras (ABL). É dele o prefácio dessa edição histórica. Segundo Domício, a publicação aguçará o apetite dos críticos, apaixonados, interessados e colecionadores, uma vez que “permite a comparação entre as várias versões da obra, tantas vezes retocada pelo próprio autor”, pontua.

Tamanho era o perfeccionismo de Machado de Assis que ele mesmo revisou, por quatro vezes, o texto de Memórias póstumas até chegar, em 1889, ao que considerava a edição definitiva. Entre as várias versões, há diferenças na linguagem e no tratamento dos personagens, entre outras coisas. “Com a versão fac-similar nas mãos, será possível observar o processo evolutivo que ele seguiu até que chegasse à maturidade alcançada em Memorial de Aires, seu último romance”, comenta Domício. “É possível também observar como ele antecipou os traços da ficção moderna como conhecemos hoje”, diz.

Despretensioso

Houve um tempo em que as grandes histórias circulavam em capítulos nos periódicos. Como outras tantas obras, Memórias póstumas de Brás Cubas foi publicada pela primeira vez em revista. Era 1880 — mais precisamente, entre março e dezembro — e a publicação, a Revista Brasileira. Um ano depois, os episódios foram reunidos num único exemplar, a primeira do grande gênio que seria publicada pela Imprensa Nacional.

Era um livro inusitado. A perspectiva deslocada de um narrador defunto inaugurou a trajetória de um escritor único na literatura brasileira. Finamente temperado pela ironia, Memórias póstumas de Brás Cubas ofereceu ao leitor, no fim do século 19, o talento e a maturidade de um escritor que até então havia sido normal — nada distante dos demais de sua geração. “O que ele havia feito era bom, mas não se comparava ao que viria em Memórias póstumas”, analisa o professor de literatura e especialista em Machado de Assis André Nepomuceno.

A observação de Nepomuceno nasce de um fato: o romance de Machado dá alma ao povo brasileiro. “A criação do personagem Brás Cubas foi o ponto de chegada à maturidade literária. Cubas é um representante da alta classe e, apesar de sua posição social, é irônico, volúvel, instável. Um observador da própria vida, dono de estilo fino, que relata episódios graves, mazelas e seu contexto social, sem se preocupar com a lei e nem mesmo escapando dela”, ilustra o professor.

Falar sem nada temer é o lema de Brás Cubas, que, desafiando a curiosidade do leitor, inaugura um novo tom literário. Um caldo que mistura humor e jocosidade com sarcasmo fino, que, em vez de agredir, leva o leitor a pensar. “Ele relata a vida como se estivesse fazendo um passeio, mas repleto das mais absurdas arbitrariedades e contradições, como a mistura de idéias liberais e escravidão”, pontua Nepomuceno.

Ao contrário da aparência despretensiosa que a publicação teve na época em que foi lançada pela Imprensa Nacional, a edição fac-símile chegará com pompa e circunstância. O evento de lançamento integra a programação da Festa Literária, amanhã, a partir das 15h, na sede da Imprensa Nacional, aberta ao público. Um dos 200 exemplares da versão fac-símile está reservado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os livros serão numerados e quem quiser adquirir algum terá que comprar no site da editora Thesaurus (www.thesaurus.com.br) ou nas livrarias da Rodoviária e Cultura. A publicação vai custar R$ 60.

Para dar requinte e longevidade à obra, a editora preparou uma capa dura, branca, em que o título aparece escrito como na versão original – Memorias Posthumas de Braz Cubas. Curiosidade: o livro traz dedicatória de Machado de Assis à Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. “A intenção é oferecer algo raro ao leitor, como o sentimento de ler algo igual ao que circulou na época em que foi lançado o livro original”, explica Alegria.

Memórias póstumas de Brás Cubas

Edição fac-símile do original de Machado de Assis. Editora Thesaurus e Imprensa Nacional. Lançamento amanhã, às 15h, na Imprensa Nacional (Setor de Indústrias Gráficas). Informações: www.thesaurus.com.br.

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