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Discurso do ministro da Cultura interino, Juca Ferreira, na XXVI Reunião de Ministros da Cultura do Mercosul Cultural

BUENOS AIRES, 12 DE JUNHO DE 2008

Ao assumir a Presidência Pro-tempore do Mercosul, o Ministério da Cultura brasileiro é convocado a refletir sobre nossa parceria continental e agregar mais alguns tijolos à nossa construção coletiva. Vejo que os acordos e pactuações feitos aqui pelos nossos governos são aos poucos absorvidos pela dinâmica interna de nossos países e orientam expectativas comuns de desenvolvimento regional, fazendo com que medidas multilaterais impactem o cotidiano de nossas populações. Hoje, já nos reconhecemos como membros do território expandido e diverso que espelha a formação sócio-cultural deste continente. Isso mostra que atos e palavras produzem fatos sociais, desencadeiam processos em nossos ambientes locais, justamente porque traduzimos a necessidade e o desejo de integração.

Desde que passamos a nomear positivamente a ‘América Latina’, nos apropriando da expressão criada pelo império napoleônico, como lembrava um intelectual, passamos a pensar a colonização ibérico-latina de forma comparativa. Foi o que permitiu-nos associar processos de emancipação no plano econômico-político ocorridos nos dois últimos séculos e desenvolver estratégias de diferenciação. Alimentamos nessa busca por independência uma tradição de pensamento e de reflexão crítica que está atualizando-se hoje frente aos desafios da globalização. Esse pano de fundo, tecido de conceitos, idéias, criações artísticas e valores nos dá possibilidades de cooperação e aproximação estratégica. A força dessa tradição cria cenários e horizontes traçando continuidades para além de nós mesmos. Hoje ela precisa ser atualizada em nossas universidades e centros culturais, em nossa crítica cultural e em nossa intelectualidade, em nossos artistas e criadores.

Creio que tudo o que buscamos construir no plano cultural junto a esse bloco econômico favorece o desenvolvimento industrial e social da Região Sul. Sabemos o quanto uma política em nossa área permite aos cidadãos dos países do Mercosul ter acesso a bens simbólicos preciosos que formam o patrimônio e a contemporaneidade desse continente. Nosso desafio é criar essa infra-estrutura simbólica que é no mundo atual uma grande potência de inovação e desenvolvimento econômico. Devemos criar instrumentos para tornar perene o acesso do continente aos seus valores, pois não podemos apenas deixar que as tecnologias de comunicação nos aproximem, precisamos criar espaços contínuos que estimulem trocas regionais de nossos imaginários. Sabemos que isso é decisivo para a estratégia de internacionalização de cada um de nossos países frente ao mundo global de hoje.

Mas mesmo ainda sob os andaimes dessa arquitetura, vemo-nos mais conectados às realidades desse continente que projetamos na fundação do Mercosul. Se antes só nos percebíamos em conflitos de fronteiras ou rivalidades futebolísticas, agora estamos nos enxergando pela fala e pelas linguagens que promovem intercâmbios e produzem inteligência coletiva sobre nós mesmos. O Brasil afirma esse horizonte de cooperação geopolítico quando adota a língua espanhola como componente essencial da formação escolar de seus cidadãos. Acreditamos que ampliar espaços de interação regional é condição para que nossa cultura enriqueça com a semântica de nossos vizinhos e que possamos nos dizer com fluência sobre tudo aquilo que nos cerca e nos concerne, traduzindo-nos para o mundo de maneira mais complexa e verdadeira. Precisamos fazer disso um motivo de cooperação no campo editorial, do livro e da leitura, que consolide esse campo bilíngüe.

Penso que para além das vontades dos governos aqui reunidos há o universo simbólico que converge para uma esfera comum de atualização. Esse é o ponto decisivo para que tenhamos de fato uma diversidade semântica sendo trocada cotidianamente em nossas sociedades. Precisamos ajustar nossos relógios históricos. Os indivíduos de nossos países devem poder construir seu universo cultural mirando um mesmo ambiente de recepção, sendo possível interagir em tempo real com os seus conterrâneos do Sul. Estaremos assim formando uma economia criativa que agencia a mesma rede de percepções e o mesmo universo de sentido. A construção da Televisão Pública e do espaço de audiência comum é algo vital para que sejamos todos contemporâneos de nós mesmos nesse lugar do planeta que habitamos. Vejo a produção de conteúdos do Mercosul como questão decisiva para que afirmemos a autonomia de nossos territórios. O espaço virtual desses veículos de comunicação é o dispositivo que materializa o ambiente sul-americano, mas isso só ocorrerá se nos associarmos cooperativamente para reinventar diariamente nossa cultura comum. Creio que o que foi feito até aqui, através do DOC TV, nos aponta caminhos para seguirmos nessa direção.

Mais do que veículos e sistemas de comunicação, estradas e empreendimentos tecnológicos, precisamos intensificar a circulação de produtos culturais e conteúdos carregados do sentido comum de nossa região. Esses são objetos mágicos que também produzem distinções, são produtos que se reproduzem, que criam capacidades e potencialidades ao serem consumidos. Tenho certeza de que a arte e a cultura são a liga de um projeto de integração do continente sul. Essa argamassa é o que fixará cada tijolo que acrescentamos ao edifício de nossos projetos, fazendo nossos vínculos tornarem-se duráveis. Não dispomos de nada melhor do que desses potentes meios que a humanidade criou para refletir sua existência, invenções que convertem múltiplos sedimentos do passado em contemporaneidade viva.

Precisamos produzir a realidade da convivência cultural, criar um mesmo campo simbólico sul-americano. Algo que nos toque, nos sensibilize e nos envolva num território de afetos, estabelecendo o sentimento de pertencimento ao presente continental. Estamos passando por processos de inversão no fluxo que, desde o pós-guerra, produziu a dinâmica da globalização tal como até aqui existiu. Esse momento histórico do sistema-mundo deve ser aproveitado, pois a crise da hegemonia cultural americana consumada nesse início do Século XXI, permite-nos sonhar a globalização de maneira mais descentralizada e mais porosa à emergência de valores locais. Essa situação faz com que o mundo também esteja mais aberto aos sedimentos de nosso continente, criando oportunidades novas para todos.

É claro que a força inercial de nossos modelos de negócios culturais, assim como nossos modelos institucionais, ainda mantém barreiras para a criação de ambientes diversificados. Por exemplo, em muitos de nossos países, ainda não conseguimos reconhecer o poder das cosmologias ameríndias. Mas mesmo com entraves, as populações indígenas afirmam-se no espaço sócio-cultural e ocupam o ambiente mundializado. Sua importância para nós é enorme, ela é a liga mais aderente na consolidação dessa arquitetura continental. Também nossa arqueologia ao descobrir nossas origens, decifra as marcas nas almas que habitam nossos corpos. Cada vez mais afirmamos esse lugar complexo do ocidente que se formou aqui entre nós.

Penso que a formação de universos simbólicos comuns ocorrerá pela ação combinada de indivíduos e instituições. O empenho de cada um de nossos países é determinante para dar condições e estruturar intercâmbios qualificados, de altíssimo valor simbólico e de grande qualidade estética, que projetem o bloco geo-econômico na contemporaneidade internacional. Acredito que nossos governos devam apostar na democratização daquilo que há de mais sofisticado, ao mesmo tempo em que garantem que os valores ganhem sua dimensão viva como momento de inteligência de toda a sociedade. A arte produz vínculos sociais duráveis entre nossas populações, isso se criarmos espaços adequados à interação estética no hemisfério sul do continente americano.

Para finalizar meu pronunciamento, sugiro que olhemos para a Bienal do Mercosul que acontece em Porto Alegre, evento adotado por muitos de nós de maneira generosa e conseqüente. A Bienal tornou-se pólo referencial para artistas, pensadores e públicos do continente, refletindo a cultura estética atual que circunscreve a contemporaneidade do mundo em que vivemos. Creio que podemos ter estratégias de circulação desse evento para que seu ciclo de dois anos faça itinerar exposições que percorram centros urbanos do continente, com isso produzindo reflexões continuadas, carregando a contribuição dos contextos locais e reverberando a opinião pública do conjunto de nações. Penso que devemos propor uma Comissão Inter-governamental para desenvolver tal proposta, algo como um Conselho de Ministérios para garantir a escala continental do evento e sua interação plena em nossos países. Governo e empresas brasileiras a financiam há mais de uma década e continuaremos fazendo-o como forma de rememorar nossos desafios através do convívio da melhor arte que produzimos. Podemos construir em torno da Bienal outras mostra que estabeleçam leituras panorâmicas da música, da arquitetura, do cinema, e até mesmo das culturas tradicionais, e assim por diante.

Saúdo a todos por estarmos criando mais uma oportunidade de colaboração que beneficiará em breve nossos povos e nações. Muito nos honra essa ocasião.

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