A nova edição da revista Rolling Stone brasileira tem uma materinha minha sobre novas formas de se distribuir música, incluindo o projeto Álbum Virtual, da Trama. Funciona assim: o artista recebe um cachê e o disco dele é disponibilizado para download gratuito, com encarte, vídeos etc.
Esse projeto começou com o Tom Zé, que “dá” uma versão ao vivo de Danç-eh-sá. A Macaco Bong, banda instrumental de Cuiabá, deve ser um dos próximos com seu Artista Igual Pedreiro. Exatamente por isso troquei uma idéia com Bruno Kayapy, guitarrista do trio, sobre a distribuição de música nestes novos novos tempos.
Quando o álbum virtual de vocês estrear o CD “físico” já vai estar disponível. Mesmo assim vale a pena para vocês? Os dois não competem?
Sim, vale muito a pena. E, na verdade, essa foi uma opção que já havíamos escolhido: a de lançar o físico e o virtual, para facilitar o acesso do público a essas músicas. Hoje o mercado da música não depende mais da venda dos CDs, existem diversas outras plataformas e oportunidades para a difusão de nosso trabalho. Quanto mais fácil for o acesso para o nosso público, melhor para as novas oportunidades de negócios. Sem falar que tudo o que fazemos aqui em Cuiabá se baseia na lógica do software livre, ao acesso livre das músicas. A proposta da Trama veio de encontro a tudo isso. Não interferiu em nada o que queríamos fazer e ainda contribuiu de uma maneira muito bacana para chegarmos ao que realmente queríamos, que era lançar por dois selos independentes bacaníssimos, a Monstro e a Fora do Eixo Discos, e também disponibilizar de forma gratuita todas as faixas.
Vocês considerariam, no futuro, a possibilidade de lançar um disco só pela internet?
Sem dúvida alguma, e isso será feito em outra oportunidade. Desta vez já poderíamos tê-lo feito, acho que é uma alternativa muito viável e que tem tudo a ver com o momento que o mercado musical está passando. Só não fizemos porque a Fora do Eixo Discos está começando a lançar seus produtos e, como nós estamos envolvidos diretamente (inclusive o Ynaiã [Benthroldo, baterista do grupo] é um dos coordenadores nacionais dessa distribuição), resolvemos lançar o físico. Aí apareceu a proposta da Monstro – também muito bacana, já que é um selo que tem uma postura respeitabilíssima e que sempre apostou na integridade e na inventividade de músicos que não estão mais loucamente na busca das rádios e das grandes gravadoras. Unimos o útil ao agradável, mas já estamos pensando em novas mídias para o próximo CD e o lançamento exclusivo na net é uma das possibilidades mais fortes.
O fato do álbum virtual tem um patrocinador incomoda? Aliás, vocês sabem com antecedência qual é esse patrocinador que vai estar na página de download de vocês? E se for alguma empresa que não agrade vocês?
Ainda não sabemos qual será o patrocinador, mas não temos problema algum quanto a isso. Existiriam problemas se esse patrocinador tentasse de alguma forma interferir no trabalho que desenvolvemos, o que não é o caso. Também somos produtores e entendemos a dinâmica do mercado. Temos a certeza que é fundamental a interface com a iniciativa privada – assim como vem sendo com o poder público. Não dá para não inscrever um projeto na Lei de Incentivo porque o governador é do partido Y ou Z, né? Então essa lógica também é a mesma quando nos deparamos com patrocínios da iniciativa privada. O que não da é para sofrer ingerência de patrocinadores, sejam eles públicos ou privados. É o famoso pacto social entre primeiro, segundo e terceiro setor – a forma mais saudável de se construir um programa que beneficie a cultura do país.
No caso específico da banda de vocês é mais interessante ter o álbum completo, com encarte, para download? Ou é mesma coisa que, digamos, colocar as faixas avulsas no Trama Virtual?
O álbum completo, com encarte e todo um aparato de divulgação, é sempre bacana, né? Amplia as possibilidades de difusão, chega a mais pessoas etc. Ainda mais estando ao lado de outras grandes bandas brasileiras. Mas para nós a grande sacada é o acesso livre. E disponibilizaremos também via Creative Comons. A música é de todos nós e essa história de “todos os direitos reservados” não está com nada.
*Para saber mais sobre o assunto, leia a matéria “É dando que se recebe?“, na edição de junho da Rolling Stone.

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