07 de julho de 2008
Um esforço que foi recompensado
Jornal do Commercio - PE, Luiza Modesto, 07/07/2008
O elenco, com pouca experiência em musical, deu um show lírico, onírico, afinado com as notas e com o tema do espetáculo: o amor que une, cuida e dá frutos
Foram oito meses para Maria Clara, a Clarinha da peça infantil Historinhas de dentro, concebida e dirigida por Samuel Santos, que estreou no Teatro Apolo, sábado passado, “nascer”. E não foi parto prematuro. Chegou ao mundo no tempo certo. O elenco, com pouca experiência em musical, deu um show lírico, onírico, afinado com as notas e com o tema do espetáculo: o amor que une, cuida e dá frutos.
As canções, fruto da parceria do cantor e músico Zeh Rocha, que também assina a direção musical com Samuel, são linda e de harmonia rica. O fato de o espetáculo ser praticamente um musical não cansa o público. Pelo contrário. As composições apresentam um toque poético, têm ritmos variados e são bem executadas em cena pelo trio: Samuel Lira (flauta e escaleta), Bruno Rodrigues (violão de aço), Danilo Marinho (bateria).
O enredo fala de uma menina, filha de um palhaço e de uma atriz de circo, que nasceu com um probleminha no coração e por isso não consegue ouvir seu tum-tum-tum. Para solucionar sua frustração, pede ajuda a Deus para entrar no seu próprio corpo e descobrir onde seu coração está e por que não consegue ouvi-lo. Nessa viagem, o interior de Clarinha vira um picadeiro, uma grande festa lúdica. Pelo caminho, surgem uma dupla de rins engraçadíssima, um intestino em forma de dragões chineses encantadores, um estômago com sotaque francês e bastante mau-humorado, um fígado cantor de ópera, além de um dueto de amídalas afiadas em trava-língua. A farra colorida e alegre, realçada pelo bom trabalho de iluminação de O Poste Soluções Luminosas, contagia a criançada.
De olhos e ouvidos bem abertos, a meninada se solta em comentários hilários, boquiaberta com o pique e determinação de Clarinha, interpretada com competência por Andreza Nóbrega. A atriz envolve a platéia com a alegria e curiosidade da serelepe personagem. Desenvolta e segura no seu papel, interage bem com o público quando desce do palco e pergunta como foi que nasceu. O riso foi a resposta mais comum. Mas teve um menino que arriscou dizer : “De um ovo”. O teatro veio abaixo de tanto rir.
O grande desafio para Samuel Santos não foi prender a atenção do público e sim fazer com que o jovem elenco soltasse a voz sem ferir os ouvidos de ninguém. E conseguiu. Para isso, contou com a ajuda da fonoaudióloga Theonila Barbosa e do cantor e professor lírico Sebastião Câmara. “Por ter pego o pessoal do zero não foi uma tarefa fácil. Além do que o trabalho é todo em uníssono, o que complica ainda mais”, diz, satisfeito, Sebastião. Porém, ajustes devem ser feitos em alguns momentos para que a platéia melhor compreenda os cantores-atores. Em especial, na parte das amídalas. Visualmente uma bela cena, mas difícil de se captar tudo o que elas falam.
O cenário, simples e funcional, além do figurino criativo, levam a assinatura do diretor de arte Jaça Araújo. Chama a atenção o efeito visual do figurino das atrizes Nana Sodré e Vanessa Lorena que interpretam as amídalas, e da personagem fígado, representada pelo novato Eduardo Rios (que também vive o pai de Clarinha). Aliás, ele é um dos grandes destaques em cena. A estreante Marcella Malheiros, mãe da protagonista e responsável por boas gargalhadas da platéia na hora em que interpreta o estômago bufão, apesar de apenas dois meses de preparo, mostrou que tem um futuro promissor no teatro.
O espetáculo Historinhas de dentro fecha um ciclo na vida profissional de Samuel, que no final da peça disse que não mais se dedicará ao teatro infantil. “É muito difícil conseguir apoio. Se não tivéssemos ganho o Prêmio Myriam Muniz, da Funarte e MinC, Historinhas de dentro não teria acontecido. Teatro para adulto, posso fazer até em cima de uma laje. Para criança tem que ser num teatro”, desabafa. A reclamação do diretor procede. Afinal, ele trabalhou durante oito meses o elenco, que teve não só aulas de canto lírico mas mas também de circo com o pessoal do Circo da Trindade, e conseguiu apenas quatro fins de semana para mostrar o seu trabalho.
A peça ficará em cartaz no Teatro Apolo, Bairro do Recife, até o último domingo deste mês, sempre as 16h30. Ingressos: R$ 10 (adulto) e R$ 5 (criança e estudante).
- Publicado por Carol Lobo/Comunicação Social
- Categoria(s): Na Mídia
- Tags: funarte, Prêmio Myriam Muniz, teatro