16 de julho de 2008
Capoeira consagra sua ginga
Diario de Pernambuco - Tatiana Meira - 16/07/2008
Iphan aprovou o registro da dança como patrimônio imaterial, ontem, em Salvador
A riqueza da capoeira reside na sua complexidade. Ela é, ao mesmo tempo, jogo, luta, dança, música, esporte, expressão corporal, filosofia de vida. Talvez por ser impossível classificá-la numa única categoria, tenha demorado tanto a receber o reconhecimento dos órgãos oficiais. A exemplo do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que votou ontem, em Salvador, seu registro de patrimônio imaterial do Brasil. O evento foi relizado no Palácio Rio Branco, com a presença de grupos de capoeira de diversos estados e de Juca Ferreira, ministro interino de Cultura; Jaques Wagner, governador da Bahia; Luiz Fernando de Almeida, presidente do Iphan nacional; e Zulu Araújo, presidente da Fundação Cultural Palmares, entre outros.
A capoeira é o 13º saber imaterial registrado pela instituição, que já “tombou” o modo de fazer as panelas de barro do Espírito Santo e o mais baiano dos quitutes, o acarajé. “Agora é o momento de iniciar um novo processo, que é o de valorizar os mestres como agentes de transmissão da capoeira para futuras gerações”, afirmou Márcia Sant’Anna, diretora de patrimônio imaterial do Iphan.
Uma das batalhas daqui pra frente será a de favorecer a desvinculação obrigatória da capoeira do Conselho Federal de Educação Física, ao qual está subordinada, para que os mestres, embaixadores informais desta cultura, tenham seu notório saber respaldado pelo Ministério da Educação. Também se planeja a criação de um plano de previdência especial para os professores de idade mais avançada, que geralmente passam por dificuldades financeiras. E ainda um plano de manejo da biriba (madeira tradicionalmente usada para a confecção dos berimbaus), que está ameaçada de extinção na Mata Atlântica, ao lado de outras árvores, como pau d’arco, pitomba e tauarí.
“A capoeira é uma arte. Ela promove a integração de pessoas de diferentes nacionalidades e etnias, que se comunicam em português em mais de 150 países,para cantar suas músicas e compreendê-la melhor”, afirma José Tadeu Carneiro Cardoso, o Mestre Camisa, 53 anos, ex-aluno de Mestre Bimba (1900-1974), que deu início ao estilo chamado de capoeira regional, em 1937, modernizando a atividade. O mestre criou estatutos e manuais de técnicas de aprendizagem, descreveu golpes, toques e cantos, além das indumentárias especiais, batizados e formaturas. Ousou para transformar a imagem dos valentões desordeiros em desportistas saudáveis e disciplinados. Mas, infelizmente, Bimba - assim como o Mestre Pastinha (1889-1981), outro ícone da capoeira, só que praticante da vertente de Angola - morreu na miséria e sem o devido reconhecimento. Quando faleceu, tinha deixado Salvador e ido morar em Goiás. Já Mestre Pastinha morreu pobre e cego, num cortiço do Pelourinho.
Para Mestre Camisa, o que não pode faltar na capoeira é o jogo, a ginga - este termo batiza o principal movimento do vocabulário corporal da capoeira e é uma homenagem à rainha angolana Nzinga, conhecida pela habilidade e malícia em suas negociações com portugueses e africanos. “Nunca é tarde para fazer o que já deveria ter acontecido. Este registro pelo Iphan é mais um passo que a capoeira dá para ser valorizada e se fortalecer na sua própria terra, pois no Brasil ela ainda enfrenta dificuldades, preconceitos, a falta de informação”, defende ele, que deixou a Bahia para difundir sua arte no Rio de Janeiro, 36 anos atrás. “Capoeira é trabalho, é profissão, terapia e patrão. Atividade de inclusão social, na favela, no clube, na academia, na universidade. É um dos espaços mais democráticos do mundo. E onde não se pode jogar sozinho, é preciso saber se relacionar com o outro”, pontua.
- Publicado por Clelia Araujo/Comunicação Social
- Categoria(s): Na Mídia
- Tags: capoeira, iphan, Patrimônio Cultural Imaterial