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Gil deixa ministério e indica Juca Ferreira

A Tarde - BA, 31/07/2008, Sílvio Ribas

“O presidente foi sensível ao meu pedido e, por isso, estou deixando o governo”, afirmou o artista, de 66 anos

O compositor Gilberto Gil anunciou a sua saída do Ministério da Cultura (MinC) e a confirmação do atual secretário-executivo da pasta, o também baiano Juca Ferreira, como seu sucessor. Ele fez a declaração à imprensa após sair de reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto, no início da noite de ontem.

“O presidente foi sensível ao meu pedido e, por isso, estou deixando o governo”, afirmou o artista, de 66 anos. Ele alegou razões pessoais para sua saída, como a incompatibilidade entre sua agenda artística e as funções do cargo. Seu desejo é dedicar-se inteiramente à carreira musical, que ganhou impulso com o recente lançamento de um disco, Banda Larga Cordel.

Ferreira assume interinamente o MinC e será confirmado após a volta de Lula da China, onde irá participar da abertura das Olimpíadas, no dia 8. Gil fazia parte do ministério desde 2003 e era um dos três ministros a permanecer no mesmo cargo político desde a posse do primeiro mandato de Lula.

Os outros remanescentes são Luiz Dulci (Secretaria Geral da Presidência) e Celso Amorim (Relações Exteriores). Gil, filiado ao Partido Verde, também foi o ministro da Cultura que mais tempo ficou no cargo, desde que foi criado pelo presidente José Sarney em 1985. Ele afirmou que vai sentir saudades da equipe no governo e lamentou não ter consolidado a parcela mínima de 1% do orçamento da União para o ministério.

Embora não houvesse qualquer aceno oficial sobre sua saída, ela já era esperada há semanas.

Ontem pela manhã, primeiro compromisso de Gilberto Gil como ministro após o retorno da licença não-remunerada por quase dois meses, o tom da conversa com a imprensa já era de despedida. “Let it be (deixa estar)”, disse sobre o futuro do ministério, fazendo referência à canção dos Beatles, durante seminário no Rio de Janeiro sobre direito autoral, um dos seus temas preferidos. Logo cedo também começaram as especulações em torno de seu substituto definitivo. Além de Juca Ferreira, estariam entre os cotados o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) e integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL), Marcos Vilaça, e a professora e filósofa paulistana Marilena Chauí, ligada ao PT .

No período recente que estava afastado da Esplanada dos Ministérios, Gil fez uma série de apresentações em sete países, começando por Marrocos, seguido da Suíça, Itália, Finlândia, França, Espanha e encerrando em Portugal. Na noite de terçafeira, já no Rio, participou de evento musical com vários conhecidos, como Alcione. “Foram quatro ou cinco anos importantíssimos para o MinC, por acaso com o ministro Gil à frente”, analisou o próprio.

Ele citou avanços nas áreas de direito autoral, museus e patrimônio. “Quando assumi o cargo, no início do governo, um colega disse que ter a mim como ministro da Cultura era um escárnio”, revelou em evento pela manhã. “Não foi assim”, acrescentou.

Para Gil, tanto do ponto de vista político quanto técnico, o ministério “tem equipe azeitada, treinada, inteiramente adaptada ao trabalho com confiança”.

Lula – Ao ser questionado sobre a possível saída de Gil do governo, Lula respondeu que o cantor teria tido uma “recaída” depois de fazer uma turnê do novo disco.

“Ele vai priorizar o que é importante para ele”, disse. Segundo Gil, o consentimento do presidente para sua saída veio apenas na terceira de três tentativas.

As outras duas, Lula o convenceu a mudar de idéia e a permanecer no cargo. “Desta vez o encontrei mais tranqüilizado em relação ao Ministério da Cultura em si e ao legado deixado”, afirmou. Ele revelou que desde o fim do primeiro mandato era sua intenção deixar o ministério, pois entendia que um ciclo havia se concluído, além das pressões de suas atividades artísticas. Também nesse meio tempo passou por uma cirurgia das cordas vocais e, brincando, culpou os discursos.

Perfil – Gilberto Passos Gil Moreira está ligado à música desde a juventude. Formado em Administração pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), onde conheceu Caetano Veloso e Gal Costa, participou da formação do Movimento Tropicalista, que influenciou fortemente a música popular brasileira.
Na política, atua desde a década de 1970, quando integrou o Conselho de Cultura do Estado da Bahia. Entre 1989 e 1992, foi vereador de Salvador e em 1996 integrou o Conselho do Fundo Nacional de Música. À frente do Ministério da Cultura, elaborou o Pontos de Cultura, programa que financia pequenas iniciativas culturais que gerem desenvolvimento local em diferentes regiões do País.

Lançou também o Mais Cultura, conhecido como PAC da Cultura, que prevê investimentos de R$ 4,7 bilhões até 2010. Sob o comando de Gil, o ministério começou também a implementar o Plano Nacional de Cultura, discutido desde 2003.

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