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O Rio aos pés de Clarice Lispector

Jornal do Brasil - RJ, 10/08/2008, Clara Passi

Mostra traz única entrevista em vídeo da escritora

Em 1931, aos 11 anos, a jovem Clarice Lispector, nascida Haia Lispector, durante a viagem de emigração da família ucraniana para a América, ofereceu historinhas ao Diário de Pernambuco, que dedicava uma página às redações infantis. A justificativa: as histórias de Clarice não tinham enredo ou fatos. Apenas sensações. Ironia do destino, foi por meio dos textos escritos com a tinta dos estímulos e interrogações que calam fundo na alma do leitor que Clarice entraria mais tarde para o rol das maiores escritoras da língua portuguesa. Trinta anos depois de sua morte, em decorrência de um câncer no ovário, o CCBB abriga a exposição Clarice Lispector – A hora da estrela, a partir de terça-feira, 19, até 28 de setembro, para lembrar também os 30 anos do lançamento do romance, o último em vida.

Montada primeiro em São Paulo, onde ficou de abril a novembro do ano passado e atraiu 290 mil pessoas, já era hora de a mostra, com curadoria de Ferreira Gullar e Julia Peregrino e cenografia de Daniela Thomas e Felipe Tassara, desembarcar na cidade que Clarice elegeu como lugar para morar e criar seus dois filhos, Pedro e Paulo Gurgel Valente; este último grande entusiasta do projeto e guardião de todos os documentos expostos, confiados pela família à Fundação Casa de Rui Barbosa. Estão lá fotografias, manuscritos de seus livros, correspondência, documentos pessoais, como o de identificação do Sindicato dos Jornalistas da Guanabara (ao lado) e primeiras edições de seus romances.

O momento mais emocionante da mostra é a projeção na parede de um dos ambientes, mostrado como se fosse a sala de estar de Clarice, com sofá e máquina de escrever, da gravação da entrevista concedida ao jornalista Júlio Lerner para o programa Panorama especial, da TV Cultura. A entrevista foi feita sob a condição de que só fosse transmitida depois da morte da autora de 26 livros, traduzida em 15 línguas. E acabaram sendo as únicas imagens em movimento de Clarice de que se tem notícia.

“A entrevista foi editada para a mostra de forma a apagar a voz do entrevistador. A sensação é que Clarice está presente, conversando com o público”, adianta Julia.

A cenógrafa Daniela Thomas responsável por transpor a mostra para os 600 metros quadrados do CCBB, define Clarice Lispector – A hora da estrela não como uma exposição, mas como uma viagem.

“Sofri muito. A primeira reação quando Julia me convidou foi recusar. Pensava que a obra de Clarice fosse algo não traduzível para o espaço físico”, confessa Daniela. “Visitei a exposição que Bia Lessa fez de Guimarães Rosa e me dei conta de que existia procedimento. Um “procedimento Lewis Carroll”, como se ler tivesse a ver com uma viagem. Fazer com que o visitante embarque numa viagem que o leve fisicamente de um lugar a outro. A idéia é que as pessoas saiam de lá loucas para ler, sejam transportadas para um universo em que ela o guia pela angústia, pelas dúvidas.”

Logo à entrada, uma frase confronta o público: “Ver é a pura loucura do corpo”. Em seguida, imagens ampliadas de seu rosto acompanham amostras do pensamento da autora, que, como define Ferreira Gullar, explorava a necessidade de dizer o que a palavra não pode dizer. No fim, há um salão inteiro com gavetas que guardam documentos originais.

“Clarice datilografava até oito vezes um original. São manuscritos raros, que, ao contrário da palavra impressa, carregam a alma e o coração de quem os escreve”, diz Julia.

Mesmo assim, Clarice sabia que a palavra nunca conseguiria dizer o que tinha de ser dito.

“Isso atravessa toda a obra de Clarice. Em A paixão segundo G.H., a mulher não está diante de uma barata. Está diante do mistério da vida”, diz Gullar.

Daniela completa:

“Clarice sabia que a palavra não poderia dar conta, mas não desistia.”

As questões que Clarice propõe são da imaginação humana, não têm fronteiras, comenta Daniela.

“São questões psíquicas, humanas, intensas, que qualquer pessoa partilha. Tenho muito fascínio por quase mártires: Clarice viveu a serviço da obra.”

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