21 de agosto de 2008
Pronunciamento do ministro da Cultura interino, Juca Ferreira, por ocasião da abertura do ‘Seminário Internacional Criatividade Âmago das Diversidades Culturais - A Estética do Sagrado’
SALVADOR, 21 DE AGOSTO DE 2008
Saúdo a todos os presentes
É enorme minha satisfação por estar participando dessa justa homenagem feita a um grande mestre da cultura brasileira, uma autoridade simbólica dos tempos contemporâneos reconhecida internacionalmente. Sinto que a presença de mestre Didi entre nós brasileiros é a manifestação de uma força viva milenar que dá um sentido profundo à idéia de cultura, uma força que tem o poder de corporificar valores e resignificar nossas existências. Podemos enxergar em seu recolhimento e seus delicados gestos e obras a afirmação dos valores mais profundos e mais sagrados que estruturam nossa sociedade humana desde muito. Esse passado, essa tradição, esse patrimônio imemorial e arquetípico, hoje ganham atualidade pelo seu gesto luminoso.
Desde que este nosso país foi fundado, nós brasileiros estamos construindo uma cultura capaz de nos singularizar e nos fazer enxergar o que realmente somos. Essa construção é feita de muitos personagens e gestos que fecundaram este território que pisamos, em meio a tragédias e limites definidos, gerando aqui essa ecologia humana que nos constitui como parte de um projeto novo de civilização. Desde que inventamos esse Brasil também queremos inventar uma “civilização da diversidade” que busque superar os “choques culturais”, queremos chegar a uma comunidade simbólica que possa afirmar-se contra a violência e a desagregação que imperaram e imperam em nossas cidades e centros urbanos. Assim, a cultura no Brasil é uma força que se levanta frente à realidade problemática que enfrentamos no dia a dia, frente a tudo aquilo que herdamos em conseqüência de um passado de injustiça e violência e que teima em se perpetuar.
Não há dúvida que na base desse esforço simbólico se estabeleceu a busca pela superação do “complexo de inferioridade” frente aos ex-colonizadores europeus, algo que persistiu durante muitos anos na mentalidade de nossas elites que desejavam ser aquilo que não eram. Mas vemos hoje que esse acanhamento cultural cada vez menos faz sentido, principalmente porque a democratização do país trouxe a nossa população para o espaço simbólico do poder social. Além de tudo, creio que estamos desenhando, nos dias de hoje, novos futuros para superar o trauma secular de violência étnica, marcado pelo desrespeito à vida e aos direitos humanos que surgiu com a escravidão dos povos africanos que foram trazidos a força para esse continente. Assim o processo de afirmação do Brasil tem ainda grandes desafios presentes, e só conseguiremos a afirmação plena de nossa cultura e da nossa gente quando pudermos enfrentar a terrível injustiça social e as desigualdades que ainda submete boa parte de nossa população. E a nossa cultura deve ser acessível a todos para que possa oferecer à sociedade a possibilidade de superação das fraturas desproporcionais de seu tecido simbólico.
Ouso dizer que Mestre Didi é uma figura que fez desta desafiante construção de nossa “identidade diversa” e da superação de nossos impasses sócio-culturais sua profissão de fé e seu cotidiano de vida, seguindo sua missão de forma discreta e potente. De maneira delicada e definitiva. Silenciosa e eloqüente.
Mestre Didi é um sacerdote da arte e do tempo. Ele é o senhor de uma técnica perceptiva da estatuária que confunde Ocidentes e Orientes atravessando os tempos desses mundos imaginários. É o detentor de um patrimônio ritualístico e cosmológico de Áfricas e Américas, de um continente simbólico trazido à força e que se firmou neste nosso território. E é também o artífice da unificação destes valores, valores materialmente míticos, valores que plasmou com suas mãos nos magníficos objetos que hoje engrandecem com sua plasticidade nossos museus e casas, nossos terreiros e nossas comunidades. Este encontro de uma energia simbólica e estética, de temporalidades africanas cosmológicas com uma arte ocidental formal, é algo que aconteceu aqui na Bahia, aqui no Brasil. Este encontro produziu um conceito que nossa sociedade ainda tenta absorver, ao mesmo tempo em que se torna um fato, cada dia mais, reconhecido em todo o mundo. Tenho certeza que com o vagar necessário que requerem as grandes revoluções e com a precisão das grandes verdades, o Brasil vai sendo re-significado pela potência destas obras de arte, cada vez com maior acolhida no mundo global de hoje.
Quando me vejo diante da necessidade de construir novas instituições e novas políticas públicas no Brasil de hoje para dar melhores condições ao desenvolvimento de nossa cultura, assumindo a função que me delegou o Presidente da República, me vejo desafiado por esses muitos horizontes novos que nossa cultura abre a cada passo que dá. Meu desafio será estar à altura da grandeza e da profundidade dessa força criativa. Mas também me vejo diante da força da tradição, pois estou diante desse valor que a sabedoria cosmológica de Mestre Didi me ensinou. Durante muitos anos o Estado brasileiro olhava com perturbação essas sabedorias tornadas vivas pela ação cotidiana de grandes mestres e de comunidades locais. Primeiro eram chamadas de “Folclore”, depois nossa sociedade evoluiu e passou a usar o termo “Culturas Populares” para firmar uma visão política antropológica, mas que ainda não dizia a verdade sobre essas manifestações. Hoje os tempos contemporâneos nos abrem os olhos para que enxerguemos com toda a clareza o signo que reside nessa arte maior. Vejo que há anos mestre Didi já sabia o que era o “Patrimônio Imaterial” ou “Tecnologia Ambiental”, algo que nos define intensamente no modo como agenciamos nosso patrimônio semântico. Mas foi só depois de muito tempo, só depois de muito errar-e-aprender que nossa sociedade e nossa cultura passaram a valorizar como uma grande riqueza sua, um bem cultural de primeira ordem, essa maestria de que Didi é dos muitos o maior.
Assim vejo que todos somos discípulos do seu conhecimento. Em meio à diversidade de bens produzidos por nossos cidadãos e o reconhecimento das mais diversas manifestações da cultura de nossa gente, nosso povo elege com seu trabalho valores que quer fazer durável e eterno. Há neste nosso extenso território outros valores que são comparáveis às obras de mestre Didi e haverá muitos artistas que se mirarão no seu exemplo e obra para seguirem suas jornadas, pois sua sofisticação nos eleva e nos irmana às grandes obras de arte que a humanidade já produziu em todos os seus tempos. Temos aqui um marco para repensarmos nossa modernidade e nossa presença no mundo atual.
O fato de a sociedade brasileira e do mundo todo perceber hoje a grandeza de sua arte faz com que acreditemos que estamos seguindo na direção de novos tempos onde nos reconciliaremos com a força de nosso ambiente cultural e de nossa diversidade global. Também nos dá energia e nos faz mais fortes para enfrentarmos os desafios que temos por vir nesse novo século que se abre com guerras e desequilíbrios ambientais. Sua criação é a imagem e o símbolo de uma humanidade que precisará surgir em meio a nós, para que construamos uma nova época de equilíbrio e de sustentabilidade, de valorização do afeto interpessoal e da constituição orgânica da vida. Que a autoridade de mestre Didi nos guie nesse percurso.
Um abraço ao nosso mestre e a todos que aqui estão.
- Publicado por Sheila Sterf/Comunicação Social
- Categoria(s): Discursos
- Tags: Juca Ferreira, Mestre Didi